Juventus precisa pensar na renovação de um time velho

Os times italianos tentam progressivamente rejuvenescer seus elencos para um campeonato que busca retomar os períodos férteis das décadas de 1980 e 90. O Milan não luta por título italiano desde as saídas de Thiago Silva, Zlatan Ibrahimovic e Andrea Pirlo, mas começa a colher frutos, enquanto Sassuolo, Atalanta e Lazio empolgaram nos últimos anos com elencos repletos de moleques. A Juventus está do outro lado da moeda.



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Duas das três equipes mais velhas da competição brigaram, durante algumas rodadas, para não cair. O Chievo conseguiu ter a maior média de idade em 34 das 38 partidas que disputou (de 31,3 a 33,2 anos); o Cagliari ficou logo atrás. A exceção é a Juventus, campeã, que aparece nove vezes entre as 50 escalações mais velhas de 2016-17. O time que enfrentou e venceu o Napoli por 2 a 1, no Allianz, representou o recorde do bianconero: a idade dos titulares era de 31,1 anos.


A situação indefinida de Daniel Alves (o clube afirma que a dispensa é certa, enquanto o jogador sabe de nada) veio num momento propício. Cedo ou tarde, o brasileiro sairia da Juve. Concretizando a transferência livre do lateral, é essencial que o bianconero pense num atleta que ainda tem anos de auge pela frente – de Matteo Darmian a João Cancelo ou Pol Lirola e passando por Sime Vrsaljko ou Danilo.


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Dybala não tem a obrigação de carregar a Juventus sozinho


Tenho um amigo que não se importa tanto com o título europeu se a Senhora emplacar mais tantos scudetti nessa sequência recordista em nível nacional. A vasta maioria, contudo, discorda: vencer o continente é uma obrigação da Juve. Eis que voltemos à última decisão. O bianconero mandou a campo o time mais velho a jogar uma final de Liga dos Campeões e com somente um atleta com menos de 25 anos. O Real Madrid tinha quatro; destes, ainda Marco Asensio e Alvaro Morata, substitutos, mostram que têm qualidade para serem titulares da equipe – transferências à parte.


Em dois anos, a Juve viu Paul Pogba, Carlos Tévez, Arturo Vidal e Andrea Pirlo saindo e se recuperou de uma debandada sem se preocupar com o envelhecimento. O clube preza por disputar e muitas vezes vencer a concorrência ao verificar um novo talento, sobretudo italiano. Daniele Rugani, por exemplo, foi identificado como o futuro da seleção em 2013. Mattia Caldara estourou na Atalanta dessa temporada e a Juve já garantiu a contratação dele. Os dois estão em uma situação bastante desconfortável: como ganhar minutos (Rugani desde 2015 e o segundo a partir do segundo semestre de 2018) com uma zaga que ainda está no auge?


Leonardo Bonucci acabou de completar 30 anos. Giorgio Chiellini está prestes a fazer 33. Andrea Barzagli tem 36 e Mehdi Benatia recebeu um contrato até 2020, quando também terá 33. Não tem dinheiro que pague a perda do melhor zagueiro do elenco, portanto, Bonny ainda é imprescindível para a Juve. É aí que Massimiliano Allegri precisa ter destreza: como encaixar Rugani na rotação? Enquanto o camisa 19, dono dos belos lançamentos que Pep Guardiola ama, é o presente intocável em Turim, o jovem é o futuro que pede passagem.


O técnico pediu pontas e foi atendido prontamente com uma das sensações da temporada, Patrick Schick. O impacto de Riccardo Orsolini não foi tanto se comparado ao do tcheco, mas o garoto leva jeito: chamou a atenção em 2015-16 no time primavera do Ascoli (com 17 gols e nove assistências em 21 partidas), fez um excelente ano na equipe de cima e garantiu a artilharia do Mundial Sub-20. O italiano, porém, é o próximo a colocar um ponto de interrogação na comissão técnica e direção bianconera: emprestar ou não?


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Chuteira de Ouro para Orsolini na Coreia do Sul foi uma grata surpresa


Estratégias têm de ser consideradas, uma vez que ele, assim como os outros jovens, são planos de longo prazo. Permanecer em Vinovo é admitir a possibilidade de ter tempo em campo reduzido se consideramos uma cessão para uma equipe média da Serie A ou novamente à divisão de acesso. Mario Lemina e Stefano Sturaro estagnaram o desenvolvimento ao ficarem no Piemonte. Por outro lado, a Juventus precisa de jogadores como o atacante. A lesão de Marko Pjaca reduziu drasticamente as opções ofensivas – e, bem, Orsolini já foi contratado mesmo… Ele é da casa agora.


Não obstante, a Juventus tem um histórico de perder talentos para o cansaço. Na nova gerência, Ciro Immobile, Simone Zaza, Manolo Gabbiadini e Domenico Berardi desistiram da Senhora rapidamente. O primeiro, cria do clube, saiu por empréstimos e co-participações e não quis voltar depois de quatro anos desse vai-e-vem. Berardi, por sua vez, abraçou o Sassuolo e lá ficou. Cogitar as entradas de Douglas Costa, 26 anos e com experiência internacional, ou Federico Bernardeschi, 23, é um alento. Enquanto não fechar (ou fecharem), a certeza é de iniciar a temporada com Mario Mandzukic, 31, pela esquerda, e Juan Cuadrado, 29, tentando recuperar o futebol que deixou de existir em abril e maio; os dois com Pjaca, 22, faminto por uma vaga.


Antonio Rüdiger, Emerson Palmieri, Stephan El Sharaawy e Mohamed Salah fizeram parte do time da Roma que mais jogou no campeonato, com Leandro Paredes entrando em muitas oportunidades. O Napoli montou uma espinha com Elseid Hysaj, Jorginho, Piotr Zielinski ou Marko Rog e Arkadiusz Milik. Na Lazio, Thomas Strakosha, Stefan de Vrij, Wallace, Wesley Hoedt, Jordan Lukaku, Patric, Sergej Milinkovic-Savic, Felipe Anderson e Keita Baldé geralmente estavam na equipe titular. O Milan se escorou em Alessio Romagnoli, Mattia De Sciglio, Manuel Locatelli, Suso e Gianluigi Donnarumma. A Inter montou um meio de campo com João Mário, Marcelo Brozovic, Geoffrey Kondogbia e Roberto Gagliardini; no ataque, Mauro Icardi. O que eles têm em comum? Todos estão com 25 anos ou menos. Dybala é o único cara da Juve.


O medo de perder Orsolinis e Ruganis é real. A Juventus pode ser o clube mais rico da Itália, mas é incapaz de competir com o poderio financeiro de Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Paris Saint-Germain, Manchester City, United e Chelsea. Em situações normais, qualquer um desses clubes podem oferecer um salário melhor aos bianconeros. Quando há desgaste, então, a dúvida sequer aparece. Trabalhar nessas promessas pode ajudar a destinar a verba para transferências mais importantes ou elevar os honorários dos próprios profissionais, garantindo sobrevida ao clube que deseja manter a dinastia doméstica e alçar glória europeia.