Não se engane com o vice da Juve: o futebol italiano está muito vivo

Por Nelson Oliveira, do Quattro Tratti


Seu Campeonato Italiano está morto. Não quer ganhar, só dá vexame. Achas que tens o que é preciso para levantares a orelhuda?


Sempre que uma equipe da Velha Bota cai na Liga dos Campeões, aparece alguém reproduzindo o raciocínio acima ou algo equivalente. A ideia de que o futebol italiano está muito abaixo dos demais grandes campeonatos europeus é bastante difundida entre dois tipos de pessoas: os saudosistas que assistiram à Serie A nas décadas de 1980 e 1990 ("ah, no meu tempo...") e aqueles que não se dão ao trabalho de ver um minuto sequer das partidas disputadas atualmente na Itália e ainda repetem como papagaios que o torneio é "retranqueiro e chato". São os apressadinhos que têm fetiche de coveiro e querem enterrar o esporte do Belpaese. Vou contar um segredo bem baixinho para que eles não ouçam: eles estão enganados. 



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A hipótese citada voltou a ser apresentada depois que a Juventus foi goleada pelo Real Madrid na final da Champions League e não poderia ter sido ressuscitada em pior hora, em um momento em que o futebol italiano volta a chamar atenção. Vamos começar a desconstrui-la pelo mais óbvio: nenhum time chega a uma decisão sem méritos, muito menos depois de passar pelo Sevilla de Sampaoli, pelo Lyon (semifinalista da Liga Europa) e ainda ter eliminado Barcelona e Monaco sem dificuldades.


Getty Images
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Juve é a recordista em vices da Liga dos Campeões


Pelo retrospecto, houve até quem apontasse a Velha Senhora como favorita na própria final de Cardiff: a Juve mostrou motivos para isso durante a primeira etapa, mas sucumbiu no segundo tempo e, após ter sido colocada nas cordas pelos merengues, Isco e Cristiano Ronaldo a levaram à lona. Os quatro gols sofridos pela Juve foram algo tão sui generis que somente em duas oportunidades nos últimos 13 anos a equipe de Turim havia sido vazada tantas vezes em uma mesma partida.


Os resultados domésticos e continentais de tempos recentes até mostram que a Juventus pode ser considerada um ponto fora da curva em comparação às outras equipes italianas – de fato é, embora seja impossível ignorar a evolução de times como Napoli e Roma, o que abordaremos mais à frente. Aqui, porém, vale um contraponto: a Juventus não é o time italiano mais exitoso em termos continentais e seu sucesso ou insucesso não significa necessariamente um "estudo da arte" do futebol no Belpaese ou uma variável para comparação com equipes de outros países.


Um dos principais motivos para estas afirmações é o fato de a soberania bianconera na Itália não se repetir na Liga dos Campeões, competição da qual o Milan tem sete taças e a Inter, outras três. A Juve venceu o torneio duas vezes, mas detém a primazia em vices: são oito, e cinco deles foram amargados após seu último título, conquistado em 1996. No mesmo período, os rossoneri foram campeões duas vezes e a Inter abocanhou seu troféu, consagrando o ano da Tríplice Coroa – feito inédito e por pouco não repetido pela Juve neste mês.


Além de tudo, não podemos desconsiderar o contexto em que está inserido o futebol europeu atualmente e compará-lo com a última década. Dinheiro em caixa e investimentos corretos sempre foram fatores determinantes para uma equipe ter sucesso em termos esportivos, sobretudo na Itália, um dos primeiros países da Europa a ter um campeonato profissionalizado – Juve, Inter e Milan sempre tiveram sólido aporte financeiro. No entanto, não dá para negar que, cada vez mais, money talks.


Há claramente um clubinho que está à frente dos outros times da Europa. Não é segredo para ninguém que este seleto grupo é formado por Barcelona, Bayern Munique e Real Madrid. Nos últimos 10 anos, somente em três oportunidades uma dessas equipes não faturou a Liga dos Campeões e em apenas uma edição do torneio a decisão não foi feita por ao menos um desses gigantes – isso aconteceu justamente no primeiro ano da série considerada, 2007-08, quando Chelsea e Manchester United duelaram pela taça. Como mostramos no quadro abaixo, a soberania de bávaros, catalães e madrilenhos cresceu a ponto de provocar um grande desnível entre o trio e o restante do clubes europeus: enquanto eles chegaram às finais nove vezes (e nunca as disputaram entre si), os outros 11 lugares disponíveis foram divididos por seis agremiações.


Piktochart
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O desnível da competição continental


Com estas informações, é possível fazermos pelo menos duas deduções importantes. A primeira é que o número de finais de Barça, Bayern e Madrid só não é maior porque em algumas ocasiões as equipes se derrubaram no meio do caminho. A outra é que os três times têm levado sua hegemonia nacional – raramente quebrada por Atlético e Dortmund – para a Champions League e, com receitas cada vez maiores, estão desequilibrando o torneio. O modelo tem sido seguido pela própria Juventus, que já alcançou duas decisões, mas ainda não venceu a competição nos últimos anos. Ao menos, a Velha Senhora intensifica seus ganhos com o (agora) Allianz Stadium, acumula títulos na Itália, prêmios em dinheiro, direitos de televisão e contrata os melhores jogadores do rivais. E o ciclo continua.


Ainda falando sobre contexto, é necessário lembrar que há pouco mais de uma década a Itália foi sacudida pelo Calciopoli, que redimensionou as expectativas de equipes como Juve e Milan. O título europeu milanista em 2007 foi o canto do cisne daquela equipe, e a Velha Senhora demorou anos para se reconstruir. Os efeitos se espalharam por toda a Bota, uma vez que outras equipes também foram punidas, o campeonato perdeu valor midiático (valores de contratos de televisão foram reduzidos e o público nos estádios diminuiu, por exemplo) e o nível técnico acabou caindo. Para completar, o escândalo ocorreu em meio ao processo de intensificação da crise financeira que abalou o país. Foi um período obscuro para o futebol da Itália, mas, ainda assim, os clubes do país conseguiram ir a quatro finais da UCL após o escândalo – o mesmo número que o futebol alemão, ao passo que os ricos Manchester City e Paris Saint-Germain nunca deram as caras nesta etapa.


Pouco a pouco, a crise vai sendo abrandada – ao menos no futebol – e o esporte na Itália vai se adaptando à nova realidade. Hoje, os clubes investem mais nas suas categorias de base e gastam com mais responsabilidade, ainda que eventualmente sofram em nível continental – especialmente na Liga Europa, já que os times médios dos outros países tiraram vantagem sobre a crise italiana. Depois do período em que os clubes do Belpaese oscilaram, o momento atual é de recuperação e isso pode ser verificado no número de bons jovens jogadores revelados pelos clubes e já utilizados na seleção ou no número de gols realizados na Serie A. O nível técnico subiu, há inovações táticas no jogo e isso se traduziu na melhor média de bolas na rede entre as cinco principais ligas europeias.


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Inter de Zanetti foi o último time italiano a vencer a Liga – e de quebra, foi um ano de triplete


Falta chegar mais longe nas competições europeias, de maneira geral? Sim, e esta é uma etapa que deve ser superada com a estabilização da crescente atual. Roma e Napoli mostram bom futebol em suas participações na Liga dos Campeões, mas. por diferentes motivos, não têm passado das oitavas - os romanos, por não terem força mental suficiente e protagonizarem as tradicionais romadas, enquanto os napolitanos têm levado azar nos sorteios. Os azzurri já foram eliminados pelo Chelsea e, na última edição, deram um grande calor no Real Madrid, mas não superaram os merengues. Ainda que Roma e Napoli tenham evoluído e apresentem nível parelho a outros grandes times europeus, o fato é que os dois carecem de experiência em termos continentais – os próprios jogadores também se ressentem disso.


Historicamente, o futebol italiano é tão forte na Europa quanto Juve, Inter e Milan conseguem dominar o cenário local. Hoje, com a dupla de Milão abaixo do patamar que seus torcedores desejam, há três desfechos possíveis para que a Itália possa ampliar seu poder de fogo na Champions League ou na Liga Europa: romanos e napolitanos assumem o protagonismo em definitivo, ou os milaneses esperam os investimentos dos chineses darem frutos. A outra alternativa é a Juventus se consolidar, solitariamente, como força continental italiana.


Não temos bola de cristal para prever o futuro e acertar qual será a conclusão dessa história, mas algumas coisas podemos arriscar. A primeira é que o futebol da Itália tem condições de alcançar resultados que mostrem a seus coveiros que eles estão enganados e que a disparidade em relação a outros campeonatos é apenas aparente. A outra é que a distância do resto da Europa para Barcelona, Real Madrid e Bayern Munique continuará grande e será quebrada, como eventualmente acontece em La Liga e na Bundesliga, de forma meramente episódica. Isto se manterá, a não ser que haja qualquer mudança de paradigma na sanidade financeira dos clubes, na organização dos campeonatos locais ou em mudanças na legislação da Uefa.