Evolução tática: a Juventus precisa atacar com crueldade

A Juventus foi questionada quando Antonio Conte optou por sair depois do tricampeonato. Massimiliano Allegri recebeu o time e terminou o ano de 2017 levando o clube ao recorde absoluto de seis scudetti seguidos. O técnico natural de Livorno entendeu a proposta do futebol do futuro: conceito antes das posições. O massacre imposto pelo Real Madrid na finalíssima da Liga dos Campeões vai interromper essa evolução?



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Daniel Alves não é lateral ou ponta? Mario Mandzukic é atacante ou meia? Sami Khedira é primeiro ou segundo-volante? Paulo Dybala é atacante ou trequartista? Todos são tudo. Os jogadores estão em campo para cumprir funções. O brasileiro ataca quando precisa atacar e defende quando há a necessidade. Se o jogo pedir, ele marca na frente; em outras condições, recua para compor uma linha de 5 (ou 6) na defesa. A função do croata é, entre outras, correr pela faixa esquerda.


O bianconero viu seu jogo fluir contra equipes que ainda não são líquidas. O Barcelona ainda não assimilou o novo jogo e o Monaco se sobressai no físico, mas peca na coesão. A Juventus tinha totais capacidades de bater o Real Madrid, contudo, não conseguiu entender a mutação do rival que voltou do intervalo: bastou Isco mudar a função para apunhalar a Velha Senhora.


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'Dessa a vez a culpa não foi sua, OK?'


A final de Cardiff foi o exemplo do futebol mutável e inteligente. A execução de um deles foi impecavelmente melhor que a do outro. Competições eliminatórias são amostras pequenas. Qualquer coisa pode acontecer em dois jogos; em somente um, então… A Roma conseguiu uma pontuação de campeão na Itália e Napoli (de novo) incomodou bastante, porém, nenhum deles conseguiu superar a Juventus ao final de 38 rodadas. Ainda que a Juve tenha cometido falhas no campeonato nacional, pontos corridos permitem torcer contra para corrigir erros e vencer na semana seguinte.


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Em 2015, creditaram a ida da Juve à decisão da Champions porque “Allegri pegou o time montado”. Sempre refutei isso. A equipe estava pronta, mas o treinador soube ajeitar o que estava equivocado na fórmula de Conte: um sistema rígido com três zagueiros. Para 2018, talvez uma mentalidade mais ofensiva seja o próximo passo.


Nas campanhas do hexa italiano, o bianconero jamais marcou mais de 80 gols. Em dois campeonatos conseguiu liderar a Serie A em tentos, porém, no último biênio, viu Napoli e Roma com os melhores ataques do país. Aliás, 2016-17 ainda foi a temporada que a Juventus marcou quase 20% a menos de gols que o rival napolitano e quase foi superada pelo Torino, 9º colocado.


Ao contrário do nacional, onde a Velha Senhora reescreveu que defesas ganham campeonatos, a Liga dos Campeões tem outro padrão. Desde 2003-04, quando a UCL deixou de ter uma segunda fase de grupos, os ataques se sobressaem às defesas. A Juve acabou 2016-17 com 11 tentos feitos na eliminatória, número melhor que somente quatro ataques campeões em 14 anos. Ademais, o artilheiro da Champions estava na equipe vencedora em oito oportunidades.


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Gonzalo Higuaín será cobrado novamente – e dessa vez ele nem tem culpa no cartório. As duas primeiras chances contra o Real Madrid foram em finalizações dele. Keylor Navas salvou uma e Raphaël Varane bloqueou outra que tenho certeza que tinha endereço certo. Não importam os 32 gols na temporada e as artilharias da equipe na Serie A e UCL. Ele não fez na partida mais importante do ano.


Os dados da Uefa mostram que a média de gols no campeonato continental tem crescido. O time está no caminho certo da evolução, mas precisa se adaptar a esse outro contexto: o de atacar com crueldade.