Não há culpados, mas a Juve precisa de um protagonista

"Paulo Dybala sumiu". "Alex Sandro não foi visto". "Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini não mostraram 3% do que sabem". "Gonzalo Higuaín é um encosto que não consegue ser decisivo". "Dani Alves saiu do panteão que fora alçado semanas atrás". "Gianluigi Buffon é um idoso que chama gol e não limpa as luvas do maior goleiro do mundo, Manuel Neuer". "A atuação só não foi pior que as escolhas de Massimiliano Allegri". "O treinador é bem meia-boca e não serve para a Juventus".



Curta o Gazzebra no Facebook. Siga Murillo Moret no Twitter.



A goleada sofrida na final da Liga dos Campeões foi esquisita. Jamais pela capacidade ofensiva do Real Madrid, mas pela falta de solidez de uma das defesas mais seguras da Europa. Os tempos foram muito distintos: o primeiro, excelente; o final, horroroso. Como se a história devesse alguma coisa à equipe que parou o Barcelona e buscava a Tríplice Coroa para acabar um ciclo que começou há uma década, exatamente na Serie B. Vacilou, dançou.


Getty Images
Getty Images

As três entidades de Vinovo: alguém assume a bronca?


O problema de uma derrota feia são os questionamentos que ela desenterra. A zaga da Juve é realmente boa? Ela não está velha? Dybala foi superestimado? Higuaín vale 90 milhões de euros? Allegri merece mais uma chance? Os reservas são do mesmo nível que os titulares? Por vezes, as respostas são duras e negativas. Parece vontade de ver o sangue jorrar.


Não, não existe a necessidade de uma renovação completa na Juventus. Sobretudo no comando técnico, que tinha a certeza que permaneceria no cargo nas semanas que antecederam a decisão e agora vê a posição incerta. A especulação por Paulo Sousa não é nova, mas é conveniente. Em 2015, a Juve não tinha força; em 2017, faltou vontade. Basta ligar os pontos: Sousa foi campeão europeu com o bianconero em 1996, ganhou no ano seguinte de novo e avisou que não ficará na Fiorentina para a próxima temporada (dando nome aos bois, a “Gazzetta dello Sport” falou na saída de Max, “La Stampa” noticiou uma renovação até 2020 e o próprio técnico disse, após o jogo, que ficaria na Juve para ganhar a UCL).


Das perguntas acima, algumas têm fundamento. Inegável que a qualidade da zaga é excelente. Infelizmente, para a Juve, Chiellini permitiu que Cristiano Ronaldo ficasse livre nos dois gols. Bem ele, que não jogou a final em Berlim porque estava suspenso. O defensor não é moleque – são 32 anos nas costas. Aliás, a Senhora que enfrentou o Real faz jus ao apelido de Velha: média de quase 31, o segundo time mais velho a jogar uma final de Liga dos Campeões. Dybala era o único com idade inferior a 26.


No ano passado, o bianconero entregou um caminhão de dinheiro ao Napoli para contratar um atleta de 29 anos. Recentemente, confirmou a compra dos emprestados Juan Cuadrado (29) e Mehdi Benatia (30) – e ainda oficializou a renovação de Mario Mandzukic (31). O erro reside em tomar rumos que não beneficiam a renovação progressiva. Daniele Rugani (22) e Filippo Romagna (20) são obrigados a dar um passo para trás; Mattia Caldara (23) ainda tem mais um ano de Atalanta.


O ataque, então, é um setor descuidado. Moise Kean (16) era o atacante de ofício convocado para a final europeia porque o único outro atleta da posição estava machucado (Marko Pjaca). A mídia italiana parou de falar sobre os potenciais substitutos de Buffon nos últimos meses exatamente pela falta de atacantes no elenco. Douglas Costa, Angel Di María, Federico Bernardeschi, Baldé Keita e Patrick Schick ilustraram capas de jornais por esta razão.


Getty Images
Getty Images

Dybala é o único jovem com moral na Juventus. É muito pouco


As derrotas para Barcelona e Bayern de Munique nas últimas participações na Liga levantaram a hipótese da indispensabilidade de um top player. Higuaín é esse cara? Juve subiu de patamar com ele, mas não é. Miralem Pjanic? Não. Dybala? Tem tudo para se tornar, entretanto, ainda não é.


Haja dinheiro para buscar uma Champions. A queda da Roma na fase preliminar em 2016-17 beneficiou a Juve, que embolsou 109 milhões de euros de direitos de TV e premiações – recorde da competição. Todavia, a receita do time que domina a Serie A por seis anos é três vezes menor que do Madrid. São mundos distintos. Digo isso porque eles têm a capacidade financeira para contratar esses atletas que mudam o jogo: seja um monstro, como Cristiano Ronaldo; um astro, igual Gareth Bale; ou talentosos em ascensão, Isco (o maldito colocou a Velha Senhora no bolso) e Marco Asensio (o super substituto). Essa diferença de renda foi sentida, de forma parecida, nas substituições. Enquanto Zinedine Zidane promoveu as entradas de Bale e Alvaro Morata, Allegri colocou Mario Lemina numa final de campeonato. O banco piemontês precisa de muita profundidade.


A direção juventina não pode – e dificilmente irá – entrar em pânico por essa derrota. Quebrar a espinha dorsal dessa equipe é jogar fora o trabalho de três anos. Dane-se que o time é o maior vice-campeão da Europa. O clube entendeu quais são os caminhos para alcançar o feito máximo. Faltam somente alguns ajustes.