Buffon, a Europa não te merece

Iniciei e apaguei esse início algumas vezes. Na verdade, até agora eu não sei como começar esse texto. É um turbilhão de pensamentos. Uníssonos, o que é ainda pior. Vai demorar para ser campeão europeu, dizem. Desista da ideia, fracassado, corrobora uma outra. A mais alta delas diz: "Buffon, ei, não chore: a Europa não te merece".



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Falo que não foi fácil ser estraçalhado por Cristiano Ronaldo e companhia. Agora, estou num táxi. Estaria em qualquer resultado. Só que vislumbrava a ideia de que estaria em outra situação. Passei a semana inteira pensando em como comemorar o título.


O futebol é uma desgraça. Ele te afaga e dá carinho e alegria até puxar o tapete no momento crucial. Essa Liga dos Campeões era da Juventus. Nada tiraria o título da Senhora. Nada.


Getty Images
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Uma droga chamada futebol


Até tinha cogitado quem faria o gol do título. Todas as histórias seriam como um filme noir. Comecemos com Mario Mandzukic, o autor do mais belo das finais do campeonato. O caneludo grosseiro. Sami Khedira era o meu segundo escolhido, numa forma de exorcizar o inferno que viveu em Madri. Leonardo Bonucci? O zagueiro que pensou em abandonar a carreira? Paulo Dybala para engrandecer o que já é?


O ressentimento fica pelo o que aconteceu em Cardiff. Em Berlim, dois anos atrás, o favoritismo era todo do Barcelona. A Juve estava ali por estar. Neste sábado (3), não. O bianconero era o time temido.


Fica a tristeza pela presença descomunal de um Casemiro incrível na fase eliminatória. E também no País de Gales, correndo como maluco para marcar Paulo Dybala. Das histórias da final, a dele é uma das que me comove. O moleque que avisou, assim que a Juve perdeu em 2015, que chegaria para ser campeão europeu. Que merda, Joya.


Fica a tristeza pelo segundo tempo desconhecido apesar de uma chance única de Alex Sandro e Bonucci quando perdia por 3-1. A Juve jamais voltou a campo. Por outro lado, o Real foi colossal com um Isco gigante para dobrar sempre com Marcelo. O problema disso são os méritos de Zinedine Zidane. Pode ter ajeitado do jeito que foi, mas ele, dos grandes ídolos juventinos, participou de duas grandes decepções que tive no futebol: em 1998, aquela na final, e, bem, essa decisão. Machuca.


Doi saber que Massimiliano Allegri queria refutar a historieta de uma Juventus super vice-campeã. Que o incômodo da Velha Senhora era exatamente esta fase. O treinador queria exaltar as arrancadas até as finais, pois nunca são simples. Porém, o 7º quase lá é dilacerante.


De novo, pela forma que foi: sofrendo mais gols num só jogo que durante toda a competição; vendo o embuste Sergio Ramos encenando mais uma vez (o jogador mais asqueroso que vi em meus 26 anos de vida) e levantando a Orelhuda; provando o veneno de um Cristiano Ronaldo supremo, impossível de ser parado em momentos de decisão - ei, dez gols no mata-mata é surreal.


Das histórias, a que mais me pegou foi a de Gianluigi Buffon. A taça simplesmente não o deseja. Não importa o que aconteça, parece que ela não viaja a Turim com ele. Pode desistir. E isso me maltrata demais, pois essa era a chance de ouro. Pensar na próxima temporada, nos 12 jogos para avançar à final... que longe está. Ainda mais ele, a um ano da aposentadoria, dizendo que não sabia que conseguiria aprender alguma coisa. A carreira e nessa idade. O professor foi Dani Alves, lecionando como ganhar uma Liga que... jamais houve.


Sinto por Buffon nunca comemorar uma competição que insiste em dizer "não, você não. És um imortal campeão do mundo, quiçá o maior de sua posição. Mas essa, não. As pessoas precisam duvidar de ti".


Eu não duvido, Gigi.