Matteo, a vida e a reconstrução: o hexa histórico da Juventus

Era para se preocupar. A Roma havia vencido o Chievo por 5-3, na véspera, e aguardava por um vacilo da Juventus para continuar sonhando. O Crotone tinha o melhor restrospecto da Serie A nos últimos sete jogos, buscando se salvar do rebaixamento. Era para se tranquilizar. A conquista da Coppa Italia no meio da semana acalmava o bianconero, que podia comemorar o segundo título em cinco dias. Em 20 minutos, o sonho romano se esvaiu. A luta para se manter no topo durou até a penúltima rodada. Vibra, torcedor. É hexa. É inédito. É histórico.



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Getty Images
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A festa na casa cheia



Reconstrução


O rebaixamento em 2006, a debandada de jogadores de primeiro escalão, a perda da hegemonia nacional... Na metade da década, a Juventus só queria retornar à divisão de elite para retomar a glória que outrora tinha sido dela. Foi campeã da Serie B e alcançou pódios consecutivos nas campanhas subsequentes da primeira divisão, sempre um passo atrás da Inter. Seja com Claudio Ranieri ou Ciro Ferrara, as coisas funcionavam razoavelmente. Em 2008, por exemplo, Alessandro Del Piero foi aplaudido de pé no Santiago Bernabéu depois de trucidar o Real Madrid, na Liga dos Campeões. Eis que o clube passa às mãos de John Elkann, presidente da Fiat e do grupo Exor - que controla outras empresas, entre elas a Juve. Demorou dois anos para que o conselho acertasse a presidência em Andrea Agnelli. O resto é história que todos conhecem: contratação de Giuseppe Marotta e Fabio Paratici para gerir o futebol, Antonio Conte para substituir Luigi Del Neri e títulos, muitos títulos.


Apesar dos momentos de instabilidade com duas campanhas de meio de tabela, prefiro iniciar a narrativa desde o descenso extra-campo (para complementar a leitura, recomendo os textos sobre Calciopoli aqui e aqui). Sempre que algo acaba, outra coisa começa. Reconstrução esta que não se limita ao clube, mas às pessoas. Como Andrea Pirlo, por exemplo. A grande contratação que Marotta diz que realizou. O barbudo, praticamente expulso do Milan, que deu assistência de cair o queixo na estreia oficial no JStadium. Na Lombardia, estava acabado; em Turim, foi ranqueado entre os 10 melhores jogadores do mundo aos 36 anos.


Quem sabe Andrea Barzagli ou Carlos Tévez? O primeiro passou temporadas largado no Wolfsburg para retornar à Itália e se tornar um dos zagueiros mais sólidos da Europa, igualmente em idade avançada. O argentino, que acumulava problemas por onde passava, teve tantos grandes momentos (especialmente aquele gol de falta contra a Roma…) que chegou a ser lembrado para a Bola de Ouro da Fifa. Vale, também, uma citação a Sami Khedira, subestimado.


A reconstrução pode ser grande ou pequena. Diminuta, peguemos Juan Cuadrado como expoente. O crescimento vertiginoso na Toscana, naquela Fiorentina interessante de Vincenzo Montella, para a transferência frustrada ao Chelsea. No último jogo da temporada passada, o colombiano de boas apresentações durante todo o ano pediu a Marotta, chorando, para que fosse contratado em definitivo. Nesta segunda (22), a Juve anunciou a compra com contrato até 2020. Em grande escala, Massimiliano Allegri. O treinador já não servia ao Milan e, disseram, que a Juve estava errada em contratá-lo. Talvez ele nem tenha alcançado os pés de Conte, pois seguiu outro caminho e cumpriu ainda mais que o precursor. A Juventus que era boa se tornou ótima. O teimoso treinador de Livorno escreveu o nome dele na história: único técnico tricampeão da Coppa Italia, representante do único hexacampeão da Serie A…


Divulgação/Juventus FC
Divulgação/Juventus FC

...e os únicos jogadores que participaram do hexa por inteiro


Vidas dedicadas a Juve


Pirlo, na verdade, deu duas assistências naquele jogo inicial de 2011-12. A primeira foi o lançamento incrível para Stephan Lichtsteiner. A segunda terminou em Claudio Marchisio, o gênio silencioso. A temporada atual do Principino foi conturbada. Demorou a engrenar desde a cirurgia para reparar os ligamentos cruzados do joelho esquerdo, realizada ainda em 2016.


Uma das cenas tocantes na premiação do último domingo (21) foi vê-lo segurando Leonardo, o filho mais novo, aos prantos. “Porque ano passado eu não estava presente, porque esse é o sexto seguido, porque cada scudetto é importante e porque festejar com vocês é algo mágico”, escreveu em mensagem sobre a razão das lágrimas.


Se Marchisio é silencioso, Giorgio Chiellini é o Mestre da intensidade. O rapaz com cara de maluco, sempre expressivo, fazendo interceptações e desarmes providenciais na mesma proporção que abusa do limite entre a falta dura e jogo sujo. E Mestre, também, ao apresentar trabalho sobre o modelo econômico do clube no curso de Administração e Gestão de Empresas.


Gianluigi Buffon, por outro lado, é o grão-mestre. Também como Chiellini, não começou a carreira em bianconero, mas tem uma vida dedicada a Juve. Ídolo por, entre outros, não abandonar o clube na época do Calciopoli. Figura representativa de fidelidade a um time. Imagem de um deus do gol que somente melhora com o passar dos anos e, enfim, pode ser agraciado com um título europeu de clubes. Tomara.


Uma vida a dedicar


Getty Images
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Os Bonucci, uma família de gigantes


De uma forma distinta, estão em outro córner aqueles que têm ou tiveram a chance de uma vida a dedicar a Juventus: Simone Zaza, herói improvável do título nacional de 2015 ao marcar o gol da vitória contra o Napoli; o xará Padoin, ídolo cult e pentacampeão; Marco Storari, o goleiro que segurou a onda em 2010-11, quando Buffon estava machucado, e um dos mais queridos do grupo do penta (aliás, fez festa e levou sinalizadores num jogo dos reservas somente para saudar Barzagli, que retornava a campo depois de uma lesão séria!); Paul Pogba, lapidado em Vinovo para ser o jogador mais caro do mundo; e Paulo Dybala.


Leonardo Bonucci, por sua vez, está lá e cá. Ele acreditou na Juve, e o clube e os torcedores confiaram nele depois de uma primeira temporada sofrível no Piemonte. Quis, o destino, que permanecesse. Ainda bem. Já são 318 partidas pela equipe e contando.


No meio do fervor em cobrar resultados incessantamente, esquecemos que atletas não são máquinas. Eles têm sentimentos e problemas pessoais como um piloto de avião ou um observador de secagem de tintas. Pudera ser imune a todos os percalços. A outra cena tocante na premiação foi quando Bonucci voltou ao gramado carregando Matteo e pediu para Carlo Tavecchio, presidente da Federação Italiana, colocar a medalha no pescoço do garoto, que passou semanas lutando contra uma condição médica grave, depois de uma cirurgia de hérnia, e nunca revelada pela família.


No ano em que o zagueiro sentiu medo e pensou em abandonar o futebol, o alívio pelo bem-estar do pequeno é mais. O título só coroou a temporada que ainda não acabou e pode ser épica. Bonucci gosta de afirmar que ele e a esposa, Martina, tem um campeão em casa, pois Matteo venceu a partida mais difícil.


Martina, você mora com dois campeões. Leo, sorria, pois você tem motivos de sobra.