Esqueçam o catenaccio: a Juventus não é um time defensivo

O que a Juventus fez com o Barcelona, fora de casa, foi anti-jogo. Não importa que o bianconero tenha finalizado mais vezes da forma certa que o adversário. Ao se defender com 11 atletas, a Velha Senhora “comprometeu o esporte”. Em Monaco, o time chegou a defender com seis jogadores em situação similar àquela vista no Camp Nou. Imediatamente, portanto, vem à tona a referência ao catenaccio. São dois erros: o primeiro, a ideia do ferrolho difundida e perpetuada; a outra, que a Juve é um time defensivo.



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Vitória contra a Lazio, em janeiro. O ponto de virada, crucial, para a equipe na temporada foi encontrar uma proposta que tivesse a qualidade ofensiva dos quatro atacantes e defendesse como um conjunto. “Como italianos”. Se “jogar como Brasil” é vistoso, ofensivo e alegre, “como italianos” é pragmático, defensivo e feio.


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A ilustração do anti-jogo: o futebol feio da Juventus vencendo a beleza e plasticidade do Barça


O simples uso da palavra catenaccio é empregado da forma errada. Não é um sistema; é uma estratégia - essa, sim, difundida em toda a Itália, sobretudo na década de 1960. Franco Ferrari, instrutor da escola de treinadores da Uefa e autor “Elementos da Tática Futebolística”, descreve a ideia como o time estacionado no próprio campo, sempre com vantagem numérica, de forma compacta, e com saída rápida ao contra-ataque com lançamentos longos.


Helenio Herrera e Nereo Rocco são os maiores expoentes da estratégia: um com a Grande Inter, tricampeã italiana e bi do Europeu; o outro, somente com um título a menos de Serie A. Eles inovaram o futebol a partir de conceitos antigos, mostrados quase três décadas antes por Karl Rappan enquanto treinava a Suíça na Copa do Mundo de 1938. O verrou (ou “ferrolho”, em francês) apresentou o primeiro líbero da história. Nos anos seguintes, Triestina, Spezia e Salernitana engatinhavam o “jogo à italiana”: defenda com linhas baixas e saia rapidamente para o contra-golpe.


Originalmente, o catenaccio é compreendido como um 4-3-3: um líbero fixo (uma inovação chocante, pois esta função fora criada para que o jogador tivesse liberdade), três zagueiros, três meio-campistas (sendo um volante para trancar ainda mais a retaguarda) e três atacantes rápidos como o Papa-Léguas. A preparação física era essencial para atingir a excelência com essa estratégia.


A ideia era duramente criticada por ser um anti-jogo. A disseminação da estratégia vencedora criou versões ainda mais defensivas, sem o mantra de Herrera (além do físico, técnica e inteligência). Os zagueiros defendiam, os meias lançavam, os pontas corriam e os centroavantes tinham a incumbência de marcar gols. O individualismo tomou conta da organização coletiva que destronou o Benfica de Eusébio e o Real Madrid de Ferenc Puskás, Francesco Gento e Alfredo Di Stéfano. 


Gonzalo Higuaín tem corrido como nunca na carreira. Mario Mandzukic não para de se movimentar pela ala como nos bons tempos de Wolfsburg. Paulo Dybala tirou o fardo da artilharia para jogar atrás de um atacante - emulando a parceria com Mudo Vázquez no Palermo. Alex Sandro, Daniel Alves, Kwadwo Asamoah e Stephan Lichtsteiner fecham os lados e estão ligados para dar profundidade no momento ofensivo. Posicionar Alves, Leonardo Bonucci, Giorgio Chiellini, Sandro, Sami Khedira e Miralem Pjanic próximos à própria área, então, é catenaccio, certo? Da proposta original, não. Só acontece por ser característica de uma equipe que não necessita da posse de bola durante toda a partida.


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O Principado foi pintado de preto e branco


O caráter defensivo fica em evidência em casos extremos, como no citado confronto na Espanha ou ante Bayern de Munique e o próprio Barça na campanha do título continental da Inter em 2010. A Juventus pressiona no campo de ataque, não dá chutão e busca propor o jogo quando enfrenta uma equipe mais fraca. Sobre pressão, reveja o último jogo contra o Napoli. Metade do segundo tempo tinha passado e as equipes empatavam em 1-1. Rafael saiu curto, com Marek Hamsík. Claudio Marchisio acompanhou o eslovaco, enquanto Higuaín fechava o passe lateral. Khedira limitava Jorginho, ao lado do camisa 17 napolitano. Mandzukic e Lichtsteiner fechavam a linha de passe para os laterais. Tudo isso na frente da área dos partenopei.


Entre os 98 times de primeira divisão das cinco principais ligas europeias, o bianconero tem a 19º maior posse de bola - na Serie A, está atrás de Napoli, Roma e Fiorentina. Ademais, é o 12º que mais acerta chutes e sofre faltas. Por jogo, a Velha Senhora finaliza 15 vezes; Real, Barça e Bayern, 17. Dois remates configuram defensivismo vulgar? A compreensão só pode estar torta.


Para Manchester City, Real Madrid, Barcelona, Borussia Dortmund e Monaco, a melhor defesa é o ataque. A Juve, por vezes, também é Napoleão. A sova no Genoa, na última semana, é prova disso. Só que ela compreende que, em outros momentos, precisa ser Mikhail Kutuzov. Recue, espere o inimigo e ataque. Bingo: a proposta do Marechal causou sérios danos ao Império Francês que nunca se recuperou da derrota na Rússia, tampouco o fragilizado Barça se reergueu após os três gols sofridos no Piemonte.


A Juventus não é um time defensivo. É um time que se defende bem.