Torcida do Porto calou a Juve: o que acontece na Arena?

Os dois mil torcedores visitantes presentes no JStadium para o jogo de volta entre Juventus e Porto fizeram mais barulho que 39 mil bianconeros. O episódio é estranho pela cultura futebolística semelhante entre as nacionalidades. As torcidas italianas costumam ensurdecer os jogadores do time adversário, principalmente nas competições europeias - vide o Napoli contra o Real Madrid. A diferença é que a Curva Sud, onde ficam os ultras, está de greve com a Juve e isso influencia o ambiente.



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O acontecido da última terça-feira foi o mais notável pela circustância do confronto: uma partida eliminatória de extrema importância para a temporada juventina. No início de fevereiro, parte da mesma Curva foi esvaziada para o clássico ante a Inter. A organizada Viking protestava contra a censura a polícia de Turim, respaldada na direção do clube, que proibia a entrada de bandeiras e banners que reproduziam nome ou símbolos do grupo. O jogo contra o Milan, no último fim de semana, também a lacuna no setor correspondente às organizadas se deu exatamente pela ausência da Viking.


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Cena comum: equipe caminha até Curva Sud para saudar os torcedores


O silêncio do JStadium passa pela Curva Sud. Nenhum outro setor do estádio vai começar a berrar algum cântico. Nos últimos jogos, contou o site Around J, a única música proveniente daquele espaço era “La Juve siamo noi, solo noi!” - “nós (a Curva Sud) somos a Juve, somente nós”, em tradução literal. Por um lado, a agremiação deseja que o novo estádio seja um ambiente satisfatório e saudável para famílias e torcedores comuns; do outro, os mais fervorosos acreditam que esse plano é uma tentativa da Juve para transformar a arena em algo parecido com o que acontece na Inglaterra - um tipo de teatro.


O escândalo dos ingressos (leia mais no link abaixo) e a investigação de envolvimento do clube com a máfia italiana fizeram com que a Juventus começasse (ou ao menos, tentasse) retirar vantagens e, consequentemente, força dos ultras. A rigidez se inclina na tentativa da Daspo, medida prevista na lei italiana para diminuir a influência das organizadas. Recentemente, Roma e Lazio também colidiram com os respectivos ultras. O clássico de 2015, por exemplo, foi boicotado pelos grupos extremos.


ESPN FC | Juve acusada de se envolver com a máfia italiana


Outrora amparados com a permissividade e conivência dos clubes e do governo italiano, os ultras têm perdido dinheiro e influência. Essas rixas e greves são naturais para grupos que acreditam que são o coração de um time: são eles, Drughi, Vikings, Tradizione Bianconera, Arditi, quem formam a verdadeira Juventus. Paralelamente, o presidente da Juve, Andrea Agnelli, finalmente confirmou a presença para “explicar qualquer coisa” à Comissão Anti-Máfia. Ele foi acusado de estar envolvido na distribuição ilícitas dos bilhetes aos organizados e manter relações duradouras com os ultras.


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Já os portistas fizeram festa no JStadium


A ligação estremecida entre bianconero e ultras pode afetar o todo porque é uma questão complicada. Em um lado que puxa a corda estão os torcedores fervorosos, que disponibilizam tempo para vender e viver a ideia de lealdade, mas que em algumas horas ultrapassam o limite esportivo; do outro, o clube pode tomar decisões impopulares aos aficionados para respeitar as autoridades, mas ao mesmo tempo tem receio de transformar o estádio em uma caixa sem vida. Um dos trunfos do JStadium foi justamente deixar o passado frio para trás. O Delle Alpi, construído para a Copa do Mundo de 1990, mantinha os torcedores distantes por conta da pista de atletismo que dividia gramado das arquibancadas.


A solução, por enquanto, inexiste. Cada parte luta pelo o que lhe convém, contudo, o prejudicado sempre vai ser o clube. Ao futuro, a linha é tênue.