Cuidado, Lyanco: você pode nem jogar na Juve

Era uma vez o melhor trio defensivo da atualidade. Passado. A Juventus tem atuado somente com uma dupla de zagueiros: é Leonardo Bonucci e mais um. O esquema tem ajudado o time - a formação está invicta e os jogadores se adaptaram muito bem - e as outras partes do muro, pois Giorgio Chiellini e Andrea Barzagli têm mais tempo para recuperar os físicos. Para essa temporada, Daniele Rugani e Mehdi Benatia ajudam o setor; na próxima, o bianconero tem o acréscimo de Mattia Caldara. Por que, então, ir atrás de Lyanco?



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Este até podia ser um texto sobre o jogador do São Paulo, mas não é o caso. Ele é o cara da vez especulado no time zebrado, como foram tantos outros nas últimas temporadas. Somente mais um atleta promissor que entrou na zona de acesso da Juve para distribuir seus pupilos pelos clubes - como trabalho e gerando dinheiro.


FERNANDO DANTAS/Gazeta Press
FERNANDO DANTAS/Gazeta Press

Juve ofereceu 5 milhões de euros e São Paulo quer 6; do ponto de vista financeiro, transferência é crível


Jogadores jovens despertam interesse dos clubes grandes. Funciona como em qualquer outro lugar do mundo: quem tem mais grana - ou mais fama - geralmente se encaixa nos quesitos do interessado. Na Itália, o atleta que aparece no Cittadella vai chamar a atenção de Inter, Milan, Roma, Napoli, Lazio e Genoa. O bianconero aparece na frente de todos pelo poderio econômico.


As categorias de base da Juventus funcionam de uma forma quase ideal: o objetivo é auxiliar na formação do ser humano, que, por ventura, tenta ser jogador de futebol. A preparação visa demonstrar ao jovem que, se não em Turim, ele poderá atuar em outro clube. Na Bota, ao contrário do Brasil, nem todos os jogadores são contratados para atuar. Respeitando o material humano, eles são ativos para lucrar. Os atletas, pois, são moedas de troca.


O grande negócio


Desde 2011-12, a Juventus lucrou 50 milhões de euros (sem contar o ganho centenário com Paul Pogba) somente com os jovens que contratou e repassou. O zagueiro Frederik Sorensen até que teve chances no elenco principal, mas foi no Bologna onde viveu os melhores momentos da, por enquanto, curta carreira. O dinamarquês contratado em 2010 junto ao Lyngby rendeu 2,6 milhões de euros ao bianconero.


A rede de olheiros da Juve é extensa. Em 2011, acharam um islandês no Fram que foi levado à Itália para integrar a equipe primavera (sub-19) da Velha Senhora. Hördur Magnússon foi muito bem e acabou emprestado para Spezia e Cesena antes de ser vendido ao Bristol City. Nessa brincadeira, a Juventus garantiu uma usura de 1,7 milhão de euros. Talvez você não conheça, mas Carlo Pinsoglio e Luca Castiglia foram bem falados durante o período de maturação no sub-19. A dupla é da mesma geração: enquanto o goleiro nunca atuou no profissional, o meio-campista jogou poucos minutos em duas partidas. Somadas, as vendas dos atletas representaram uma gança de 3 milhões de euros.


Pode soar pouco, mas 3 mi aqui, outros 2 mi ali fazem a diferença. Stefano Sturaro, por exemplo, custou 5,5 mi; Rugani, 3,5 mi. A lista com 61 jogadores (encontrada no fim deste texto) não contempla os lucros obtidos com a venda de Paul Pogba, pois essa transação merece outra discussão. O francês é o extremo. Um agente livre que se transformou em um fenômeno midiático (com razão) e rendeu 110 milhões de euros.


Amor à camisa é uma motivação incomum. Jogador tem vínculo empregatício e pode mudar a cor da vestimenta de uma hora para outra sem (tantos) julgamentos. A Juve, vá lá, teve sorte de contar em sequência com Alessandro Del Piero, Gianluigi Buffon, Giorgio Chiellini e Claudio Marchisio. Eles são os estranhos no rodopio de transações. Ainda não existe prognóstico do substituto do goleiro, mas Nicola Leali certamente será vendido por um valor superior aos 4 mi investidos nele. Alberto Brignoli, por sua vez, não deve ter retorno acima dos 1,5 mi usado para tirá-lo do Ternana. O atacante Simone Ganz, cria do Milan, desandou a fazer gols no Como e, sem contrato, acertou com a Juve. Qualquer pechincha é válida para transferência.


Getty Images
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Gabbiadini, que começou voando na Inglaterra, rendeu grana pra Juve mesmo sem vestir o uniforme bianconero


Não existe pressa em Vinovo. Stefano Padovan e Cristian Pasquato não conseguem embalar em equipe alguma, mas seguem sob supervisão bianconera com os empréstimos. Até mesmo Luca Marrone, o zagueiro-volante que prometia muito, permanece em contrato com a Juve. O panorama é alterado quando a vontade do jogador fala mais alto. Leonardo Spinazzola, melhor jogador de Viareggio 2012, rodou por Empoli, Lanciano, Siena, Vicenza e Perugia até deslanchar na atual Atalanta de Gian Piero Gasperini. Por enquanto, ele continua aceitando os empréstimos. Ciro Immobile não quis. A Juventus não dava as chances que ele pedia e, ao se firmar no Torino, ficou: 10 mi de ganho à Senhora. Em 2015-16, Kingsley Coman também pediu para sair (leia mais em “Coman e Evra: existe momento certo para aprender?”) e o Bayern de Munique tem de pagar 28 mi para ficar com ele.


Lyanco, então, pode ter os mesmos passos de Manolo Gabbiadini ou Domenico Berardi. A Juventus adquiriu parte dos direitos dos atacantes e conseguiu lucrar nas negociações mesmo sem nunca vestir a camisa listrada. Ricardo Orsolini é uma das grandes promessas da Itália. O moleque liso do Ascoli foi disputado também pelo Milan, mas acabou assinando contrato em Turim. Ele corre o mesmo risco que os outros.


Na verdade, penso que a situação do zagueiro do São Paulo é ainda mais delicada. No melhor dos cenários, ele terá de disputar um espaço na reserva com Rugani, consolidado, e Caldara. Na Atalanta, o segundo tem sido um dos destaques do campeonato. Supondo que Benatia retorne ao Bayern, Filippo Romagna, ex-capitão do primavera, também entra no bololô? A idade de Lyanco não coopera, afinal, ele não contempla as regras necessárias para jogar a competição sub-19. O defensor chegaria à Itália com algum outro time na mente - como aconteceu com Matheus Pereira, Gabriel Silva, Raphael Martinho e Gabriel (goleiro).


O sistema é igualmente problemático para os jovens adultos. Como explicado em “As outras promessas da Juve e por que elas podem falhar”, os campeonatos de base não preparam os atletas para chegar completos ao profissional porque os torneios são fracos - a reformulação foi revisada, entretanto. Só que ao atingir 20 anos, o jogador fica no limbo: ele precisa ser aproveitado pelo time A ou procura outra profissão. No bianconero, a transição não é realizada pela quantidade de talento farta no plantel principal e na inabilidade do treinador. Prefere-se, então, emprestar (Leali, Alberto Cerri, Andrés Tello…) para auxiliar na transição ao time de cima e/ou tentar aumentar o valor de mercado.


Só que o currículo também pesa. Uma Juventus no Linkedin vale bastante. O desafio é grande, muito grande. Particularmente, pensaria duas vezes se fosse eu o interessado, como o tricolor é.


(Jogadores analisados no texto: Alberto Brignoli, Alberto Cerri, Alberto Masi, Albin Ekdal, Anastasios Donis, Andrés Tello, Ayub Daud, Carlo Pinsoglio, Carlos García, Ciro Immobile, Cristian Pasquato, Daniele Rugani, Davide Lanzafame, Domenico Berardi, Edoardo Goldaniga, Fausto Rossi, Filippo Boniperti, Filippo Romagna, Frederik Sorensen, Gabriel Appelt, Guilherme Appelt, Hördur Magnússon, Kingsley Coman, Laurentiu Branescu, Leonardo Spinazzola, Luca Castiglia, Luca Clemenza, Luca Marrone, Mame Thiam, Manolo Gabbiadini, Manuel Giandonato, Marcel Büchel, Marco Constantino, Mario Kirev, Mario Lemina, Matteo Liviero, Mattia Caldara, Mattia Del Favero, Mattia Vitale, Moise Kean, Nicola Leali, Nicolò Pozzebon, Niko Bianconi, Ouasim Bouy, Paolo De Ceglie, Paul Pogba, Pol Lirola, Prince Gouano, Raffaele Alcibiade, Ricardo Orsolini, Richard Boakye, Rogério, Rolando Mandragora, Salvatore D’Elia, Simone Ganz, Simone Esposito, Simone Padovan, Stefano Sturaro, Vincenzo Fiorillo, Vykintas Slivka, Younes Bnou Marzouk.)