O perfil e os desafios de Luciano Spalletti à frente da Inter

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Mais um pazzo para a Pazza Inter


Pode subir a fumaça branca na Pinetina. A não ser que aconteça alguma tragédia em Nanquim, onde terá um encontro cara a cara com o chefe Zhang Jindong, Luciano Spalletti é o novo treinador da Inter, com anúncio oficial a ser feito em breve e a apresentação no final da semana.


A escolha, por mais óbvio que seja, é fundamental para definir as prioridades no mercado, para evitar o que acontece há anos no clube: um grupo que não encaixa com o treinador. Com contrato de dois anos - por 4 milhões de euros por temporada, segundo maior na Serie A -, a ideia é de um projeto com resultados imediatos, visando única e exclusivamente o retorno da Liga dos Campeões no calendário interista. Um pouco como tentaram com Roberto Mancini dois anos atrás.


Spalletti foi uma escolha, digamos, fácil, diante de um cenário nada positivo em torno do clube e entre as preferências da direção. Queriam alguém que conhecesse a liga, tivesse um histórico coerente com o objetivo e fosse um personagem forte, carismático. Com as negativas de Antonio Conte e Diego Simeone, não tinha para onde ir. O toscano encaixa em todos os requisitos, por mais que não seja uma figura unânime para os nerazzurri - muito pelo contrário, mas agora ele representa a Inter, e será apoiado.


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Luciano pensando nas piadas sem graça do blogueiro


É um desafio inédito para o careca, que suportou muito bem a pressão na Roma, um local que também não é muito agradável pelas reações de jogadores, torcedores e imprensa. Em Milão terá um ambiente ainda mais desagradável, condicionado pelo pior momento do clube na temporada do seu aniversário de 110 anos, e será fundamental que o treinador mantenha sua personalidade forte, controlando os egos do vestiário, boa comunicação com a direção e longe de polêmicas com a imprensa.


Além de boas campanhas pela Udinese, o novo mister tem na Roma seu grande legado. Em cinco temporadas e meia, somente em 2009 não levou o clube para a Liga dos Campeões. Na primeira passagem pelos giallorossi, entre 2005 e 2009, foi o grande rival da Inter, principal concorrente após a queda da Juventus e durante a era ancelottiana do Milan. Foram três vices no campeonato (7 pontos atrás em 2006, 22 em 2007 e 3 em 2008) e três finais na copa, vencendo duas (2007 e 2008).


Na segunda passagem pela capital, ao lado do incrível Napoli de Maurizio Sarri, sua Roma teve duas campanhas dignas de scudetto. Assumiu o lugar de Rudi Garcia em janeiro de 2016 e levou a equipe para uma recuperação que, inclusive, deixou a Inter de Mancini para trás, terminando 13 pontos na frente, na terceira posição, com 80 (a 11 da Juventus e a 2 do Napoli). No último ano, levou a disputa pelo título até a penúltima rodada, terminando no segundo lugar apenas quatro pontos atrás da Juventus e 25 na frente da Inter.


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Haja unha, mister


Spalletti talvez não precise de campanhas incríveis como essas para levar o clube de volta para a Liga dos Campeões, já que a Uefa deu uma mãozinha para os italianos com uma vaga extra, e os quatro lugares na fase de grupos. Mas há de se levar em consideração que o vizinho Milan está muito mais avançado - como alertamos com as contratações do ex-nerazzurri Marco Fassone e Massimiliano Mirabelli, que já garantiram quatro grandes reforços antes da janela abrir - e não podemos desvalorizar Atalanta e Lazio, equipes que passaram dos 70 pontos, campanhas que dez anos atrás também renderiam vaga na Champions - e serve como parâmetro a partir de agora.


Será um trabalho duro por diversos motivos, principalmente porque o clube não ganha nada desde 2011, não participa da principal competição europeia desde 2012 e em seis temporadas teve posição média de 6,5 (da quarta posição em 2015 até a nona em 2013) e 59,3 pontos (dos 67 em 2015 aos 54 em 2013), ficando atrás de clubes como Udinese, Catania, Genoa, Sampdoria e Atalanta nos últimos anos. Em comparação com o último ano, a Inter precisa pelo menos subir três posições e ganhar mais 13 pontos. No mínimo.


Somado a todo esse retrospecto pesado, temos uma direção confusa, que não será reforçada por Lele Oriali, o qual rejeitou o convite justamente pela falta de claridade, e um grupo de jogadores totalmente incoerente, muitos descompromissados com o clube, apesar de representarem a terceira maior folha salarial da Serie A. Ou seja, os dirigentes precisam formar um plano e segui-lo, assim como o elenco necessita de outra reformulação. Dinheiro, pelo menos, não falta dessa vez, embora isso nunca tenha sido uma garantia, que o diga a primeira década da gestão de Massimo Moratti.


Spalletti será acompanhado por bons profissionais, como Giovanni Martusciello (assistente técnico), treinador do Empoli no último ano e ex-assistente de Maurizio Sarri e Marco Giampaolo - este ainda a confirmar. Terá Marco Domenichini (segundo treinador) e Daniele Baldini (assistente técnico), que seguem o treinador por mais de uma década, assim como Alessandro Pane (assistente técnico) e Marcello Iaia (preparador físico), presentes no último trabalho. Ainda reencontrará Adriano Bonaiuti (preparador de goleiros), seu assistente em Údine e Roma, que foi para a Inter por exigência de seu prodígio Samir Handanovic.


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Onde você foi se meter, careca?


A ideia é que o encontro entre os Zhang, Walter Sabatini, Piero Ausilio, Giovanni Gardini e Spalletti dê lucidez para o planejamento da equipe. O clube precisa de um lucro de pelo menos 30 milhões em junho, e as saídas de Stevan Jovetic, Andrea Ranocchia, Jeison Murillo, Marcelo Brozovic e Éver Banega ainda estão indefinidas entre ofertas baixas e apenas sondagens. Ninguém é inegociável, como Ivan Perisic, que gera divergência de 15 milhões de euros com o Manchester United, mas o croata tem o apreço do novo treinador, assim como outros formarão a base do elenco: Samir Handanovic, Danilo D’Ambrosio, Gary Medel, Roberto Gagliardini, Antonio Candreva e Mauro Icardi.


Aqui um breve parêntese para João Mário, Geoffrey Kondogbia e Gabriel: o clube não pode abrir mão de investimentos que, somados, custaram 100 milhões de euros, até por uma questão de confiança no mercado, e para não desvalorizar os atletas e ter mais prejuízos. O português e o francês provaram seu valor em uma equipe minimamente coesa, enquanto o brasileiro ainda precisa de amadurecimento, o que só virá com tempo de jogo.


De qualquer forma, estamos na primeira semana de junho e tudo ainda é um mistério acerca do futebol da Inter na próxima temporada. Com licença a Giovanni Improtta, o tempo urge e a pressão é grande.