A geração que fracassou e o futuro da base da Inter

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O time campeão italiano e europeu em 2012 na festa do título sobre o Ajax


Interello, formalmente Centro Sportivo Suning in memoria di Giacinto Facchetti, a casa do setor juvenil nerazzurro, localizado no Parco Nord Milano, é referência na Europa. Além da estrutura em Milão, e vale lembrar que os garotos ainda usam o CT do time principal em Appiano Gentile, o clube tem escolinhas ao redor da Itália e mantém projetos sociais pelo mundo através do Inter Campus e do Inter Academy. Também esbanja uma das melhores equipes de observação, com olheiros atuando em diversos países.

Apesar de tudo isso, é raro vermos um produto de Interello ganhar espaço no time principal. O futebol mudou drasticamente durante os anos 90, e a partir de então a base perdeu muito valor para a Inter, que, contudo, segue investindo bastante e produz dezenas de jogadores a cada ano. Para cada Mario Balotelli ou Davide Santon há vários Leonardo Bonucci e Marco Benassi. Em comum, todos viraram moeda de troca, mas somente dois tiveram oportunidade e um bom contrato profissional.

Hoje, além de Santon, Tommaso Berni, Marco Andreolli e Jonathan Biabiany são outras crias da base que retornaram ao clube somente por respeito aos critérios de inscrição de jogadores da Serie A e da Uefa, sendo todos relegados ao banco. Andrei Radu, Eloge Yao e Andrea Pinamonti são os únicos jovens integrados ao time principal durante toda a temporada, e mesmo assim somente o último entrou em campo, somando pouco menos de 100 minutos entre uma presença na Liga Europa e outras duas na Serie A.

O clube lucra muito com as vendas de jovens, mas o objetivo primário da base não é vender, por mais que seja um caminho para recuperar o investimento, e sim produzir jogadores para o time principal. Evidente também que nem todos conseguem dar o salto para o profissional, por diversos motivos, e isso também passa pelo clube. Deveria ser sua responsabilidade enquanto formador garantir que o produto do seu investimento cresça.


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A última esperança de algum sucesso proveniente de Interello é Andrea Pinamonti, de 1999


Uma grande frustração para os interistas certamente é o grupo que ganhou os campeonatos italiano (Primavera) e europeu (NextGen Series) em 2011/12, pela categoria sub-19, a última do setor juvenil na Itália. A equipe comandada por Andrea Stramaccioni foi totalmente esfacelada nos últimos anos, a começar pelo próprio treinador, que um dia depois de ganhar a NextGen foi promovido para o lugar de Claudio Ranieri em um pedido direto de Massimo Moratti, apaixonado pela forma que o jovem conduziu o time.

Depois de bom início, inclusive acabando com a invencibilidade da Juventus no seu novo estádio, Strama foi um entre vários bodes expiatórios na desastrosa temporada de 2012/13 e desde então nunca teve um trabalho sólido, passando por Udinese, Panathinaikos e agora no Sparta Praga. O treinador é o reflexo de uma geração que decepcionou no profissional, e hoje apenas dois ainda têm contrato com o clube, mas ambos sem perspectiva de ter espaço: Samuele Longo e Raffaele Di Gennaro.

O primeiro está emprestado ao Girona, e somente agora, aos 25 anos, teve sua primeira grande temporada depois da artilharia na base com gols decisivos nas finais de ambos os títulos de 2012. Após passar por Espanyol, Verona, Rayo Vallecano, Cagliari e Frosinone, é o artilheiro do time catalão na segunda divisão espanhola com 14 gols e quase promovido à elite. O segundo, mais um da excelente geração italiana de goleiros dos anos 90, sofreu com lesões nas últimas duas temporadas depois de dois bons anos por Cittadella e Latina na Serie B, e perdeu o posto de titular em 2017 na Ternana.

O grande talento daquele time era o ítalo-brasileiro Daniel Bessa, meia-atacante de muito talento e fundamental no 4-2-3-1 de Stramaccioni. Apesar disso, nunca teve um minuto sequer na Inter, e passou por empréstimos sem sucesso por Vicenza, Olhanense e Sparta Rotterdam. Se reinventou no Bologna atuando mais recuado, como regista, no time que subiu para a Serie A, mas não foi contratado em definitivo e teve outro bom ano na B, dessa com o Como. Nesta temporada manteve o ritmo pelo Verona e já em janeiro foi contratado em definitivo, sendo uma peça chave no retorno à elite.


A maior promessa, no entanto, era Lorenzo Crisetig. Com 16 anos já treinava com José Mourinho e ficou no banco em algumas partidas da temporada do Triplete. Apesar disso, sua estreia veio somente com Claudio Ranieri, em 2012. Sem espaço no clube, participou de algumas transações com o Parma, incluindo nesse período uma passagem de sucesso pelo Crotone e a titularidade no Cagliari na Serie A. Foi contratado pelo Bologna por empréstimo de dois anos e em julho deixará de ser oficialmente jogador da Inter, enquanto nesta temporada voltou ao Crotone e novamente foi titular, mas não deixou boa impressão.


Divulgação/Sparta Praga
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Maior exemplo de uma geração que não vingou, Strama tenta retomar sua carreira em Praga


Outros que viraram moeda de troca com o Bologna são Ibrahima Mbaye e Andrea Romanò. O capitão, comparado com Javier Zanetti por sua versatilidade, físico e liderança, acumula alguns empréstimos para clubes da Lega Pro sem qualquer destaque, e também ficará sem contrato neste verão. Já o senegalês faz parte do revezamento nas laterais do Bologna há duas temporadas e meia, longe de se afirmar no time, mas um dos poucos da geração disputando uma competição de elite. Outro titular e pupilo de Strama, Simone Pecorini está na Serie B desde 2012, e depois de três temporadas como titular por Cittadella e Ascoli perdeu espaço no Virtus Entella.

Os zagueiros Marek Kysela e Lukas Spendlhofer também tinham certa expectativa por causa da deficiência no setor no time principal e pela capacidade que demonstraram na base, com boas condições físicas e técnicas. O tcheco, porém, nunca teve espaço e acabou se transferindo para o Jablonec como agente livre, e foi titular por quatro anos lá até uma grave lesão na cabeça que o tirou por quase toda temporada. Já o austríaco, que chegou a compor o elenco em 2012/13, voltou para casa e é titular do Sturm Graz com algum destaque há três anos.

Marko Livaja, o “Pandev de 2012”, por seu impacto ao chegar ao time no meio da temporada e muito importante na consolidação do sistema, foi quem mais teve oportunidade no clube, atuando em 13 partidas em 2012/13, marcando quatro gols na Liga Europa, onde formou boa parceria com Philippe Coutinho na fase de grupos. Apesar disso, foi negociado no inverno com a Atalanta, e acabou sendo quem mais gerou lucro para o clube, rendendo pouco mais de 6 milhões de euros entre as idas para Atalanta e Rubin Kazan. Hoje está no Las Palmas, onde teve bom início e depois perdeu espaço, sempre por causa do temperamento, sofrendo uma suspensão de cinco rodadas.

Por fim, o último titular: Alfred Duncan. O ganês foi outro parcialmente aproveitado em 2012/13 e que também virou moeda de troca, dessa vez com a Sampdoria. Antes, teve uma boa passagem pelo Livorno, o que credenciou o interesse dos blucerchiati. Sua venda gerou pouco mais de 2,5 milhões de euros, um tanto quanto decepcionante por seu potencial e a capacidade que demonstrou no profissional. Contratado pelo Sassuolo um ano depois, teve sua melhor temporada em 2015/16, mas sofreu com lesões no último ano. Ainda assim, há clubes interessados, inclusive o Milan, e é um selecionável de Gana.


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Capitão do Torino e da Itália sub-21, Benassi foi quem mais se consolidou da geração de 2012


O 12º jogador era Marco Benassi. Com uma ótima capacidade física, saiu da base do Modena para o sub-17 interista, foi campeão com o sub-18 e rapidamente ganhou espaço no sub-19. No time principal, colecionou 13 presenças em 2012/13 e deixou boa impressão antes da temporada virar um caos a partir de fevereiro e acabar emprestado ao Livorno. Não foi titular absoluto no time rebaixado, mas teve bom desempenho e foi para o Torino em co-propriedade no acordo que levou Danilo D’Ambrosio para Milão seis meses antes. Titular dos granata, foi contratado em definitivo um ano depois e gerou quase 5 milhões de euros. Com Sinisa Mihajlovic, não só seguiu no time, como virou capitão e em cinco anos de profissional tem quase 100 presenças na Serie A e impressionantes 12 gols. Convocado por Giampiero Ventura para a seleção italiana, é o mais consolidado da geração.

Não tem melhor termo para definir esse grupo do que decepção. Do treinador, passando pela defesa, o capitão, o camisa 10 e o artilheiro. Decepção pela postura e decisões do clube, e decepção pelo destino dos jogadores, que falharam no salto para o profissional. Quem se afirmou, digamos que apenas Benassi e Duncan, o fez por outras equipes, e não por aquela que deu projeção e o primeiro contrato profissional.

A Inter nunca mais voltou a ser campeã nacional, exceto pela copa em 2016, além de Viareggio em 2015, batendo na trave nos últimos anos nas semifinais, assim como não disputou mais nada na Europa, até mesmo porque não joga a Liga dos Campeões desde 2012 e isso afeta o sub-19, que não pode competir pela Youth League, a sucessora da NextGen Series organizada pela Uefa.

Apesar disso, a produção segue boa e todo ano temos alguns destaques. Hoje, por exemplo, Andrea Pinamonti é o principal expoente, mais um goleador precoce (titular do sub-19 com 16 anos) que, dessa vez, deve ser valorizado: o ‘99 continuará no elenco principal e a tendência é que tenha mais minutos na próxima temporada. O zagueiro belga Zinho Vanheusden foi agregado nas últimas semanas e é outro que gera muita expectativa.


E aqui a gente vai se iludindo mais uma vez na esperança que um dia o fruto de tanto investimento tenha algum retorno em campo. Quem sabe a nova direção, com esse projeto de "italianizar" o elenco, dê algum valor para a base.