O buraco é muito mais embaixo na Inter. Ou melhor, acima

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Steven Zhang, filho do chefe, e Javier Zanetti, vice-presidente, acompanharam em Florença mais um fracasso da Inter



“Depois de tudo que aconteceu no sábado no campo da Fiorentina, o clube chamou toda a equipe principal para um retiro prolongado no Centro Esportivo Suning de Appiano Gentile a partir de amanhã, terça-feira, 25 de abril, até a partida em casa contra o Napoli, no domingo, 30 de abril.


O modo como a derrota aconteceu na casa da Fiorentina foi inaceitável para os nossos torcedores, tanto na Itália como no exterior, e pretendemos que isso não acontece mais. Todo o clube, dos jogadores a todos da direção, está determinado a trabalhar mais duro para ter o melhor resultado e terminar a temporada em crescimento.


Consequentemente, o clube confirma plena confiança em Stefano Pioli e sua comissão técnica. Pioli se uniu à Inter em um momento complicado e o trabalho desenvolvido nos últimos seis meses, desde que começou com sua equipe em novembro, tem sido excepcional e merece o nosso maior respeito. O clube não irá se distrair com rumores.


O nosso objetivo continua terminar o campeonato da Serie A na melhor forma possível e se classificar para alguma competição europeia, dando o máximo em cada partida. Os jogadores, sobretudo, foram chamados para representar as cores nerazzurri com orgulho e honra, como convém a história e tradição desse grande clube.”


- Comunicado oficial da Internazionale Milano Football Club na manhã desta segunda-feira, 24 de abril de 2017



Pois é. O dia começou com esse comunicado ridículo, tão vergonhoso quanto a partida de sábado. Começou levando pressão, sofreu o gol, conseguiu a virada rapidamente, perdeu o controle do jogo e levou quatro gols em pouco mais de 15 minutos, descontou com Icardi, quase empatou, mas perdeu a terceira em cinco rodadas sem vitórias.


Então os dirigentes jogam em cima dos jogadores um problema que transcende o campo, alguns dias depois de renovar o contrato do diretor esportivo responsável por conduzir o futebol, recusa a demissão do treinador e na maior cara de pau pede apoio. O torcedor sempre apoiará o clube, por aquilo que amam, não essa bagunça.


Por alguns meses sonharam até com a possibilidade de buscar uma já improvável vaga na Liga dos Campeões, mas o final de março e este abril expuseram bastante os problemas de equipe desequilibrada e confusa, reflexo da própria direção, que nunca planejou a temporada e agora vê o clube mais uma vez próximo de outra temporada fora da Europa.


Foi muito bacana ter visto na semana passada que o clube conseguiu atingir alguns dos objetivos do Fair Play Financeiro, reduzindo mais de 100 milhões de euros de prejuízo e pronto para fechar o balanço com um vermelho cada vez menos intenso, ainda que com algumas obrigações e limites para cumprir junto à dona Uefa. Mas, no final das contas, a Inter é um clube de futebol, e o seu futebol está uma porcaria há sete anos.


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Icardi ganhou a bola do jogo, mas mais uma vez saiu do campo cabisbaixo. O capitão é um dos poucos que ainda se importam com o clube


A entrada da Suning no verão passado foi um tanto acelerada, até para possibilitar ir atrás de reforços mais valiosos, porém não houve qualquer planejamento. Agora Zhang Jindong e seus comandados já tiveram um tempo para se ambientar ao futebol italiano e têm alguns meses para preparar o clube para a próxima temporada, independente da posição que terminar agora.


Decidiram continuar com Piero Ausilio como diretor esportivo e isso não tem mais volta, mas ainda há muito para fazer na reconstrução da direção. Falta, por exemplo, um diretor técnico para ligar dirigentes, comissão técnica e jogadores, e especula-se que Lele Oriali voltará para a Pinetina, o que seria fantásticos por si só. Mas não é suficiente.


Hoje a Inter não tem um diretor geral - diretor executivo, amministratore delegato, CEO ou seja lá como quiser chamar -, por exemplo, alguém que acumula funções administrativas dentro e fora do campo, como Leonardo sempre desejou, mas Massimo Moratti não quis em 2011, ou Nicola Cortese, gabaritado pelo trabalho espetacular no Southampton.


Giovanni Gardini entrou como Chief Football Administrator, seja lá o que isso significa, e nota-se que não tem qualquer função. Como Javier Zanetti, vice-presidente, que virou uma figura anônima e está lá somente porque é o Javier Zanetti. Massimiliano Mirabelli, o chefe do setor de observação, braço-direito de Ausilio, saiu do clube em setembro para ser o diretor esportivo do Milan, e até hoje não foi substituído. Tudo isso precisa mudar.


Antes de decidir o treinador e o elenco, a Inter precisa organizar sua direção. É de lá que as grandes decisões são tomadas. Caras como José Mourinho ou Diego Simeone até podem resolver as coisas a curto prazo, mas, como hoje vemos com Pioli, eventualmente o buraco ficará exposto e engolirá tudo de uma vez.