A contratação de Richarlyson e a homofobia no futebol brasileiro

Richarlyson é um jogador que já conquistou 14 títulos em sua carreira, incluindo um Mundial Interclubes em 2005 e três Campeonatos Brasileiros pelo São Paulo, além de uma Libertadores em 2013 defendendo o Atlético Mineiro. Após ter atuado no 2o. semestre de 2016 pelo FC Goa da Índia, chega ao Guarani por indicação do técnico Oswaldo Alvarez, que recomendou sua vinda após ter conversado com Zico, que trabalhou com Richarlyson quando foi treinador do time indiano. Um excelente reforço: joga como segundo volante, mas também pode ser escalado como meia armador e lateral esquerdo (atuando por esta posição, Richarlyson foi convocado para a Seleção Brasileira em 2008).


Gabriel Ferrari/ GuaraniPress
Gabriel Ferrari/ GuaraniPress

Richarlyson, apresentado oficialmente no Brinco de Ouro na segunda, dia 8, assinou contrato com o Bugre até o final da Série B do Campeonato Brasileiro


Com todo esse currículo e as recomendações recebidas, o foco deste post deveria ser a chegada de um jogador técnico e experiente, com capacidade para ajudar muito o Guarani em uma difícil competição. Mas, infelizmente, a vinda de Richarlyson foi ofuscada pelo relato de que dois imbecis deram voltas em torno do Brinco de Ouro, em uma motocicleta, atirando bombas em frente ao estádio pouco antes do anúncio oficial da contratação. Após esse incidente, a diretoria do Guarani prestou queixa na polícia e destacou que essa manifestação estúpida e isolada não reflete o pensamento de sua torcida. E, felizmente, posso dizer que a contratação de Richarlyson foi muito bem recebida e elogiada pela maior parte da torcida bugrina, tanto em grupos de discussão quanto em blogs e comentários em redes sociais. Porém, não posso deixar passar em branco mais esta história de homofobia no futebol sem comentar o quanto é triste ver o tanto de preconceito que ainda existe neste universo.


Uma reportagem publicada pela Agência Pública, intitulada "O tabu das arquibancadas" (escrita por Ciro Barros e Giulia Afiune), resgata outro caso significativo: no início de 2012, o Palmeiras manifestou interesse em trazer Richarlyson para o seu time. Uma parcela da torcida, porém, protestou contra a possível contratação e dois manifestantes chegaram a estender uma faixa com a frase "a homofobia veste verde". Richarlyson, que acabou indo jogar no Atlético-MG após esse incidente, comentou, semanas depois, o episódio em entrevista concedida à Rádio Itatiaia:



"Vamos botar a bola para frente, parar com isso, respeitar a pessoa independente da opção sexual, do credo, da religião (...). Estamos no século XXI, tanta coisa já mudou e as pessoas ficam preocupadas com a vida pessoal de cada um. Cada um tem a sua maneira de viver e pensar e a minha é essa."



Lamentavelmente, o autointitulado país do futebol também é um lugar no qual, a cada 25 horas, pelo menos uma pessoa lésbica, gay, bissexual, travesti ou transsexual é assassinada - dado estarrecedor levantado pelo Grupo Gay da Bahia, que há 37 anos compila anualmente os casos de vítimas de homofobia no Brasil. Por este e outros tantos motivos, digo que não, não é mais possível ficar passando pano para torcedores babacas que jogam bombas e cometem outras atitudes agressivas vociferando que futebol é "coisa de macho", normalizam comportamentos preconceituosos dizendo que são apenas "piadas" e tomam atitudes como chamar adversários, usando conotação pejorativa, de "viados". Para estes, recomendo adotar a mesma postura de Gabriela Moreira, repórter da ESPN Brasil, que ao ouvir um torcedor palmeirense chamando são-paulinos de "bichas" (a partir do momento 1:20 do vídeo abaixo) o retrucou com as seguintes palavras:



"Rapaz, vou te falar uma coisa, não sei se vai ganhar. Mas com esse 'bicha'? Não à homofobia, né? Você tem quantos anos? Por favor, vamos tentar modernizar este pensamento..."




A quem quiser se informar mais sobre a homofobia no futebol, além dos links incluídos neste post, recomendo a leitura dos textos "Por que o futebol brasileiro ainda está trancado no armário?" (matéria de Letícia Naísa e Peu Araújo), "Homofobia no futebol: um reflexo social ampliado pelo legado da Copa" (escrito por Breno França) e "Por que 'bicha' é xingamento?" (texto de Leandro Beguoci). E, enfim, espero que Richarlyson possa ajudar muito o Guarani, tanto dentro quanto fora de campo. Que sua chegada faça com que mais pessoas busquem informações e revejam conceitos sobre um assunto que precisa ser debatido com urgência e seriedade.