Final em jogo único mataria a alma da Libertadores

Grêmio Oficial
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Não podem acabar com esse tipo de festa na final da Libertadores


A Conmebol tem divulgado a sua intenção de fazer a final da Libertadores da América em somente um jogo, acabando com o sistema de ida e volta na grande decisão. O calendário já poderá ser com este formato a partir de 2018, embora a mudança efetivamente deva ser confirmada só para o ano seguinte. A informação ainda não é oficial, mas nos últimos anos esta hipótese tem ganhado força, especialmente a pedidos dos patrocinadores da competição.


A Liga dos Campeões da Europa começou a ser disputada em 1955, a primeira competição continental de clubes, e sempre teve decisão em jogo único. Este formato não se espalhou pelos demais continentes, que, em sua grande maioria, sempre fizeram decisões com jogos de ida e volta. A Ásia é exceção porque intercala as duas formas de disputa da final. Acontece que cada continente tem as suas características peculiares e, embora a Champions League seja exemplo de organização, ela não deve ter todas as suas regras copiadas por uma competição da América Latina.


Os principais argumentos que fizeram o resto do mundo optar por decisões com jogos de ida e volta são inúmeros, mas podem ser resumidos em dois pilares: geográfico e econômico. Os demais continentes são muito maiores que a Europa em território e possuem populações mais pobres, o que certamente dificulta o torcedor a se aventurar em viagens mais longas para acompanhar o seu time do coração. Para corroborar ainda mais, em sua esmagadora maioria das edições, a final da Liga dos Campeões foi decidida entre integrantes dos países mais fortes. Alemanha, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália e Portugal, com povos mais ricos e distâncias mais curtas entre eles.


O Brasil é um continente que está dentro de um outro continente. Do Norte ao Sul do país, a dificuldade para se deslocar a uma partida de futebol já é gigantesca, imagina se considerarmos toda a América Latina, sem contar uma possível final nos Estados Unidos, que não pode ser descartada, pela visão de negócio do esporte. As distâncias abissais e o baixo poderio econômico contribuiriam para uma final de Libertadores esvaziada, caso fosse decidida em jogo único. O futebol no Brasil já caminha para uma perigosa elitização, mas o torcedor mais humilde faz o seu esforço para ir a uma final de Libertadores no estádio do seu clube. Tirando isso dele, e o mesmo vale para os demais países, a final será assistida pelos ricos e pelos turistas, excluindo os mais pobres.


Então a questão social também é algo preponderante para os amantes do futebol latinos cravarem a sua posição contra essa possível medida da Conmebol. O povão vai roer o osso, primeira fase, oitavas, quartas, semi e na final o seu lugar será tomado por turistas. Mas como o mundo é um negócio e o dinheiro vale mais do que os sonhos, muitas vezes com a aprovação do próprio povo, manipulado, não duvidem que isso aconteça. Uma final de Libertadores com mais turistas do que torcedores dos times envolvidos. Seria o começo do fim da nossa competição mais apaixonante do mundo.


E por fim, falo da mística, da expressão cultural dos povos latinos em seus estádios. Dos recebimentos, das festas espetaculares, dos caldeirões ensurdecedores, do povo em sua casa. Tudo isso faz com que as finais da Libertadores sejam sempre especiais. O ambiente faz parte do jogo na América Latina. Se transformada em jogo único, única a exclusivamente pelo dinheiro, a final da Libertadores será transformada naqueles jogos do Mundial Interclubes, insossos, com a maioria do público sendo composta por clientes e turistas, e não torcedores, apaixonados. Eu prefiro a mística. A Conmebol sempre preferiu o dinheiro. Vamos torcer para que essa ideia não se concretize.