Excesso da polícia com torcedor gremista exige reflexão profunda

“Eu não desacatei, tive esse cuidado, os vídeos mostram isso e eu fui levado. E então fui encostado na entrada da parede do banheiro, tenho testemunhas que viram isso, pessoas que não conheço já manifestaram interesse em me ajudar. Esfregaram meu rosto na parede, bateram em mim, um dente meu foi quebrado em uma cabeçada que uma policial deu com seu capacete. Depois me levaram para um local que eu não conhecia, começaram a me chutar, colocaram gás de pimenta na minha boca, nos meus ouvidos e nos meus olhos. Nisso não enxerguei mais nada. Então colocaram papelões sobre o meu corpo e começaram a me chutar. Ai me pediram a senha do meu celular e apagaram os vídeos que eu havia feito.”


O relato acima se refere ao ocorrido no último domingo com o torcedor Vinicius Mendes Lima. 


No meio do segundo tempo do jogo entre Grêmio e Novo Hamburgo, pelo Campeonato Gaúcho, seguranças da Arena, e mais na frente, brigadianos, foram retirar uma faixa que estava nas cadeiras superiores. E todas as faixas e bandeiras passam pela revista e respeitam as exigências impostas pela organização do estádio. A abordagem, como vocês podem imaginar, foi desproporcional e Vinicius começou a filmar os abusos da Brigada Militar. Foi então que se sucedeu a triste sequência de eventos narrados pelo torcedor à Rádio Guaíba.


É preciso analisar de forma muito profunda este caso. Os seguranças da Arena, os EPAVIS, assim como os brigadianos, passaram de todos os limites na abordagem e depois no tratamento ao torcedor, desde a sua retirada das cadeiras até o momento em que teve os vídeos do seu celular apagados. As palavras do gremista Vinicius sugerem práticas de tortura, o que é estarrecedor. Porém, temos que fazer a seguinte pergunta: quem ordenou a retirada da faixa? Se alguma bandeira/faixa é proibida, que nem entre ou seja retirada no começo da partida. Não faz nenhum sentido aquele tipo de abordagem na metade do segundo tempo para a retirada de UMA FAIXA.


A direção do Grêmio precisa se manifestar de maneira mais contundente sobre o assunto. Até aqui uma nota oficial genérica. O presidente da Arena precisa se manifestar, afinal de contas, foram os seguranças do estádio que começaram a confusão. O Ministério Público precisa se manifestar, visto que o torcedor espancado foi punido por ter sido inconveniente e pegou oito jogos de suspensão. Olha o absurdo. O Juizado do Torcedor precisa se manifestar. Não é o órgão que visa acabar com a violência nos estádios? Ah, quando é contra o torcedor pode?


GazetaPress
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Caso ocorrido com Vinicius é só um exemplo dos excessos cometidos pela BM nos estádios


O Deputado Estadual Jeferson Fernandes denunciou o caso na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e afirmou que todos os envolvidos na situação serão ouvidos. Tomara que este movimento resulte em algo de prático em relação aos estádios do Rio Grande do Sul, porque este caso de abuso relatado pelo Vinicius é só um exemplo dos vários excessos que os torcedores já sofreram no Estado.


Desde a inauguração da Arena do Grêmio, um torcedor já ficou cego do olho direito devido a uma bala de borracha disparado por um brigadiano, o Gaúcho da Geral foi espancado covardemente e agora este caso envolvendo Vinicius. São somente três exemplos dos inúmeros que já ocorreram no estádio e em seu entorno desde a inauguração. Os frequentadores da Arquibancada Norte já sofrem com isso desde 2012 na Arena e, desde sempre, no Olímpico. Recentemente, antes de Inter e Corinthians no Beira Rio, a Brigada Militar também cometeu excessos com a torcida colorada.


É preciso um debate que envolva Grêmio, Internacional, Ministério Público, Juizado do Torcedor, Comando da Brigada Militar, Prefeitura de Porto Alegre e Governo do Rio Grande do Sul. Esta postura dos brigadianos, de lidar com torcedores como se fossem bandidos, precisa acabar. E isso transcende o futebol e chega aos movimentos sociais. Qualquer movimento de cunho popular, seja nas arquibancadas, seja lutando por direitos dos trabalhadores e dos menos favorecidos, é visto com maus olhos pelos clubes e autoridades públicas, porque possuem o poder de mudar o status quo vigente. E isso incomoda os poderosos.


A Brigada Militar nada mais é do que o braço armado do Governo do Rio Grande do Sul. Que se puna sempre os brigadianos que por ventura cometam excessos. Mas eles estão cumprindo ordens. Assim como os seguranças da Arena. É necessária uma reflexão dos seus superiores e da sociedade. O relato e as escoriações no corpo de Vinicius não podem ser ignorados. É assim que o torcedor merece ser tratado? Vão esperar a morte de um torcedor para que se tome medidas mais enérgicas em relação à abordagem agressiva da polícia nos estádios? É uma realidade que precisa ser mudada urgentemente.