A depredação do CT: a diferença entre justificativa e motivação

Fiquei dois dias para digerir a ocorrência de sábado no CT do Parque Anhanguera. 


Antes de tudo, é bom avisar: o texto quer ir além do que a imprensa comentou, a diretoria divulgou e a torcida respondeu sobre a ação radical. Isso já foi mais do que repisado.


Como ocorre em tudo e várias vezes no próprio futebol, nada justifica a violência. Mas dizer que ela não tem justificativa é diferente de falar que ela não tem motivação. Estamos entendidos até aqui?


Se não estamos, vamos a um exemplo mais claro: nada justifica (de "tornar justo") uma entrada criminosa de um jogador em um colega de profissão. Mas, se este colega lhe deu um drible desnecessário só para fazer graça e humilhá-lo diante da plateia, percebe-se a motivação do que ocorreu depois. Ok? 


Reprodução / TV Anhanguera
Reprodução / TV Anhanguera

Além dos milhões de reais por contratações erradas e outros gastos mal planejados, a conta do prejuízo sobe agora com a quebradeira das instalações do CT Edmo Pinheiro


Concordamos todos que não tem o que faça ser justo quebrar patrimônio ou espancar um jogador que estava num sábado à tarde se tratando de uma lesão. Isso merece punição pela lei penal em vigor e quem se dispôs a se juntar para ir lá fazer o que fez sabia disso e está disposto a arcar com o ônus (ou confiante na impunidade).


Mas basta olhar para trás e perceber que, antes deste ano, foram raríssimas as vezes que aconteceu algo mais radical nesse sentido na história do Goiás. A torcida, em geral, sempre foi tida como passiva – me lembro de que uma vez jogaram pipoca em jogadores lá no CT e isso foi tido como um escândalo pela diretoria.


Aqui está um problema grave: torcida e Serrinha nunca estiveram de verdade juntos, mas, nos últimos anos, estão rachados de vez. E o que poderia acalmar os ânimos seriam decisões acertadas de quem manda no clube menos democrático do Brasil. Só que decisões acertadas são exatamente o que está em falta pelo menos desde 2013.


Chega então o ano de 2017, o clube já há uma temporada na Série B e desde o ano anterior presidente dizendo que vai subir "a qualquer custo", que tem dinheiro para isso e coisa e tal. Ganham o tri do Goianinho, os serrinhistas comemoram e começa então o que realmente interessa.


E aí o segundo clube mais endinheirado do campeonato pega um binóculo na competição exatamente do maior rival. Que – é bom que se diga – deve ter um orçamento dez vezes menor.


Enquanto este está embalado para uma inédita Série A, o torcedor alviverde vê seu clube milionário despencar rumo a uma inédita Série C.


Em meio a isso, um desgoverno total na gestão de futebol, que não consegue acertar nas contratações e tem um veterinário de confiança no cargo mais importante do setor fundamental do clube. 


Então o presidente pressionado renuncia e assume o vice-presidente que será também o próximo presidente. Ambos com a bênção de Hailé Pinheiro, aquele que manda no clube há mais de meio século e que disse uma vez que "torcedor é um mal necessário".


Com um pé na zona de rebaixamento, o novo presidente diz então, menos de 24 horas depois de assumir, que "não vai mudar nada" além do treinador, não vai contratar ninguém, que vai manter o veterinário como gestor de futebol e que segue até o fim do ano com Silvio Criciúma no comando técnico, que treina o sub-20 e já assumiu duas vezes o time principal este ano, mostrando que ainda precisa aprender bastante.


Você pensa: e esse cara ainda vai assumir o novo mandato no fim do ano...


Na tarde do mesmo dia, ocorre a depredação do CT. Existe justificativa? Esta eu respondo: não. Existe motivação? Esta eu deixo para vocês.


LINCOLNEANAS

* * * * * Uma coisa eu tenho como bem certa: a partir da agressão física a um jogador, vai ficar muito mais complicado contratar aqueles nomes que tenham um grande leque de clubes interessados. Notícias assim correm o Brasil inteiro (e até entre os brazucas do exterior) nos whatsapps da vida.


* * * * * O fosso entre serrinhistas e torcedores aumentou agora. O clube está cada vez mais parecido com batalhão militar: entrada restrita, portões fechados, cães de guarda e policiais de prontidão.


* * * * * Uma coisa é certa: não fica nada como estava. Ainda que o novo presidente não queira mudar nada, vai mudar. Só não dá para saber se será para melhor ou para o fundo do poço de vez. 


* * * * * Na resposta à carta de repúdio da diretoria, o autor do texto em nome da torcida organizada (não tenho certeza se foi mesmo da direção da entidade) fala em vandalismo por parte da diretoria. Quando houve o apedrejamento do Empório Goiás, eu fiz este texto a respeito do caso.