Especial Goiás x Vila Nova: análise tática dos dois times

O autor do texto abaixo é, na opinião deste blogueiro, um dos maiores especialistas em estudo de esquemas táticos do Centro-Oeste. Certamente, poucos comentaristas experimentados da região conhecem tanto do assunto como ele. Rodolpho Chinem é engenheiro, mas tem o conhecimento sobre futebol como paixão e vem produzindo material que, fossem os profissionais da área mais antenados e abertos, seria de grande auxílio para todos os envolvidos com o esporte.


A pedido do Verde 33, ele fez uma análise tática sobre os times atuais de Goiás e Vila Nova.

GOIÁS X VILA NOVA: ANÁLISE TÁTICA


Rodolpho Chinem


A análise quantitativa e qualitativa do Goiás na Série B se dará exclusivamente tendo Silvio Criciúma como técnico. Portanto, o que aconteceu nas partidas contra Figueirense, América MG, Paraná e Brasil de Pelotas será omitido, já que o modelo de jogo de Sérgio Soares é completamente diferente.


Em relação ao Vila Nova, como Hemerson Maria está no comando desde o início do campeonato, levaremos em conta o que aconteceu com o time colorado desde a 1ª rodada.


Goiás: o ataque vai bem, mas a defesa...


O Verdão da Serra tem uma peculiaridade: quando o placar está empatado ou o adversário está vencendo, costuma propor o jogo. Já quando consegue ficar à frente do placar, recua muito e passa a ser reativo.


O sistema defensivo do Goiás está longe de ser eficiente: mesmo estando no G-4 e tendo um ex-zagueiro como treinador, a equipe sofreu 1,2 gol de média nos últimos cinco jogos. É um índice pior do que o de 11 equipes da Série B. 


A marcação esmeraldina é classificada como mista – alguns jogadores marcam por zona, mas outros praticam encaixes individuais. O sistema que se forma atrás da linha da bola é, geralmente, composto por seis jogadores: os quatro da primeira linha e os dois volantes. As duas linhas de quatro não são efetivas, porque os extremos marcam apenas os laterais. Isto é, os extremos recompõem somente quando os laterais adversários sobem.


A primeira linha defensiva costuma ser média/alta e trabalha alinhada até mesmo quando a bola está na lateral. Contra o ABC, os problemas causados por essa configuração ficaram evidentes: os zagueiros são lentos para se movimentarem para trás, o goleiro não faz a cobertura para abafar os lançamentos nas costas dos zagueiros e faltam noções de marcação por zona, principalmente nas bolas do fundo (nas costas dos laterais).


Veja as figuras e as legendas abaixo:


Arte sobre reprodução de TV / Sportv
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Goiás 1 x 2 ABC: no primeiro gol potiguar, a bola está descoberta (sem pressão em seu portador); Jefferson, Everton Sena e Tony fazem o movimento para trás, enquanto Alex Alves vai para frente. Altura da primeira linha defensiva é média/alta


Arte sobre reprodução de TV / Sportv
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Com a defesa em linha média/alta, a saída do goleiro (Marcelo Rangel) seria imprescindível


Arte sobre reprodução de TV / Sportv
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Goiás 1 x 2 ABC: no 2º gol do ABC, mesmo com a bola lateralizada, os defensores do Goiás se mantêm em linha


Arte sobre reprodução de TV / Sportv
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Éverton Sena faz o encaixe individual, mesmo o fundo (costas do lateral) sendo do Alex Alves


Arte sobre reprodução de TV / Sportv
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Os dois zagueiros são envolvidos na jogada abrindo completamente o meio


Os encaixes individuais dos laterais nos extremos costumam ser compensados por Victor Bolt. O volante esmeraldino, com ótima leitura de jogo, costuma recompor pelos lados para manter a primeira linha estruturada no caso de uma estourada de Tony ou Carlinhos.


Vamos a outra imagem:


Arte sobre reprodução de TV / PFC
Arte sobre reprodução de TV / Sportv

Náutico 2 x 3 Goiás – no 1º gol do Náutico, Carlinhos encaixa individualmente no ponta, mas a primeira linha é recompensada com a presença de Bolt


O ataque, ao contrário da defesa, vai muito bem. O Goiás com Silvio Criciúma tem uma média de 2,2 gols por partida – a maior do campeonato. O time esmeraldino precisa de 7,8 finalizações para marcar um gol – é, também, a melhor média do campeonato.


No entanto, fica no ar a pergunta: o sistema ofensivo é que funciona ou a qualidade individual dos jogadores é que estão fazendo a diferença?


O Goiás nos últimos cinco jogos finalizou 68 vezes, sendo 29 de dentro da área e 39 fora. Ou seja, 57% das finalizações acontecem sem que o finalizador pise na área adversária. E quando o Goiás consegue entrar na área? É mérito do sistema?


Arte sobre reprodução de TV / PFC
Arte sobre reprodução de TV / Sportv

Náutico 2 x 3 Goiás – no 1º gol do Goiás, zona em que a jogada se inicia tem superioridade numérica do Náutico. Mesmo assim, Tiago Luís consegue vencer dois adversários e invade a área até a linha de fundo


Arte sobre reprodução de TV / PFC
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Mesmo com Léo Sena não explorando o buraco imenso na área do Náutico causado por Tiago Luís, o Goiás abre o placar com Carlos


Arte sobre reprodução de TV / PFC
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Náutico 2 x 3 Goiás – no 3º gol do Goiás, zona em que a jogada se inicia tem superioridade numérica de novo do Náutico, mas desta vez é Michael quem faz a jogada individual para infiltrar na área


Arte sobre reprodução de TV / PFC
Arte sobre reprodução de TV / PFC

No terceiro gol, o Goiás invade com tudo a área do Náutico com três opções: Aylon no primeiro pau; Tiago Luís no meio, vindo de trás; e Jarlan, autor do gol, no segundo pau


Não, não é. O time está sem amplitude (quando dois jogadores abrem pelos lados para alargar o campo) e não se aproxima o suficiente para criar superioridade numérica no setor em que a bola está. O Goiás tem infiltrado na área adversária por meio de jogadas individuais pelos flancos ou na bola parada.


Culpa ou não de Silvio Criciúma, o fato é que a quantidade absurda de troca de treinadores na Serrinha desde 2015 elimina o fator tempo para treinar.



Vila Nova: um time que opta por deixar a bola com o adversário


O Vila é um time totalmente reativo, independentemente do placar do jogo. A média de posse de bola é de 42%. Em alguns jogos, menos ainda – contra o Ceará, foi de apenas 34%.


Isso significa que o time é pior? Não necessariamente. Várias equipes – por exemplo, o Palmeiras do 2º turno do Brasileiro de 2016 – conseguem dominar o jogo sem ter a bola. Isso porque controlam os espaços e deixam o adversário com uma posse de bola improdutiva. Goste ou não, é um modelo de jogo e, se for bem aplicado, pode ser tão competitivo quanto qualquer outro.


O sistema defensivo do Vila é eficiente: está no G-4 com a 7ª melhor defesa do campeonato, com média de 0,9 gol por partida. Isso é bem característico dos times de Hemerson Maria.


A marcação colorada é classificada como por zona: todos os jogadores ficam atrás da linha da bola no 4-4-2 – duas linhas de quatro.


 Arte sobre reprodução de TV / Sportv




Arte sobre reprodução de TV / Sportv

Vila com duas linhas de quatro a marcação por zona


A primeira linha defensiva costuma ser baixa para compensar a lentidão dos zagueiros. Também trabalham alinhados, independentemente da posição da bola. A cobertura do fundo (costas dos laterais) é feita pelos zagueiros de seus respectivos lados.


Qual é o ponto fraco do sistema defensivo colorado?


Quando o time adversário consegue entrar na área, os zagueiros afundam, mas a segunda linha não acompanha para manter o time compactado. Assim, sobra espaço na entrada da área.


Arte sobre reprodução de TV / Sportv
Arte sobre reprodução de TV / Sportv

A primeira linha se mantém estruturada, mas a segunda linha não "afunda" junto


No sistema ofensivo, Alan Mineiro é o único jogador que sabe tratar bem a bola. O Vila tem 10 gols em 9 jogos, o que dá uma média de 1,1 por jogo. É bem verdade que 1,1 é a média do campeonato. Mas um time que está brigando pelo G-4 precisa também estar acima da média.


Passou da hora de Hemerson Maria dar o próximo passo na construção da sua equipe: trabalhar as transições ofensivas. Elas são lentas e defeituosas – dois gols do Brasil de Pelotas nasceram em erros de retomada da posse de bola.


Para o modelo de jogo colorado funcionar de forma intensa e a equipe continuar brigando pelo G-4, o contra-ataque precisa ser mais rápido e mortal. E ter mais qualidade nas peças individuais do meio para frente.