O dia em que o Goiás fez nascer uma multidão de esmeraldinos

ARNALDO B. S. NETO*
Especial de aniversário – Goiás EC

Em 2010, na primeira partida da final da Sul-Americana, o Serra Dourada ficou cheio para ver nossa vitória sobre o Clube Atlético Independiente. Depois, infelizmente, perdemos a final após uma verdadeira batalha em Buenos Aires. O sonho esmeraldino de um título internacional foi adiado.

Mas uma imagem ficou para mim daquela noite em Goiânia em que vencemos pelo placar de 2 a 0 e ficamos cheios de esperança diante daquela conquista.


Na saída, um mar de camisas verdes caminhou para os portões da arquibancada norte, onde é nosso lugar no mundo. Eram tantos torcedores que não era possível andar. Caminhávamos levados para frente pela multidão.


Quem conhece o Serra sabe que a parte abaixo das arquibancadas tem uma acústica incrível e naquele momento nós emendávamos um canto no outro. A saída foi incrivelmente vagarosa, muito mais do que o habitual.

Até hoje fico arrepiado de lembrar a força e a energia daquele jogo!


Getty Images
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Para proteger suas crianças, muitos esmeraldinos colocaram os filhos menores nos ombros. Então, na multidão que desfilava na direção dos portões, no meio dos nossos cantos, era possível ver muitas crianças nos ombros dos seus pais, muitas com uma mão na cabeça do pai e outra para cima, acompanhando o ritmo das músicas.

À minha frente, alguns metros adiante, vi um menininho muito pequeno, por volta dos três anos, com nossa camisa branca com os detalhes em verde. Ele via tudo com olhos de absoluto espanto e, a princípio, não sabia direito o que fazer, apenas olhava de um lado para o outro, vendo a multidão se mover devagar, as outras crianças montadas como ele nos ombros dos pais, a música ensurdecedora das arquibancadas.


Meu olhar ficou preso àquele menininho por um momento e ele também olhou para mim. Foi quando a torcida começou a entoar o nosso canto mais simples, o tradicional “Verdão-ô-ô, Verdão-ô-ôô!”.


E o menininho também fechou o punho de uma das mãos e o levantou no ar, cantando a plenos pulmões. E eu olhei em volta e vi que todas as nossas crianças faziam o mesmo.

Aquela noite foi um batismo para muitos novos esmeraldinos, e, especialmente, para muitas das nossas crianças. No momento em que o menininho levantou o braço e começou a cantar, sob os ombros de seu pai, ele descobriu sua identidade, seu lugar no mundo.


Descobriu a força do pertencimento. Tenho certeza de que aqueles momentos ficaram gravados, que aquela emoção irá se conectar com o apelo profundo da nossa Nação Esmeraldina, do nosso desejo de marcar com nossas cores nossa passagem pelo mundo.

E por tudo isso, diz nosso Hino: “Nosso clube é a nossa glória, a nossa garra, nossa gente, nossa história. O amor pela nossa bandeira é para nós a maior vitória!”

Parabéns, meu Goiás, por seus 74 anos!
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Arnaldo B. S. Neto é professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Direito Público pela Universidade Vale dos Sinos (Unisinos).