Fluminense: toda derrota tem as suas vitórias

Rudy Trindade/FramePhoto/Gazeta Press
Rudy Trindade/FramePhoto/Gazeta Press

Procura-se: um tricolor que não tenha orgulho desses jovens. Essa vitória independe de resultado.


Os únicos que acham que o Fluminense “perdeu o Campeonato Carioca” são mesmo os idiotas da objetividade que não conseguem ver um palmo além de resultado.


O Fluminense começou o ano desacreditado, sem referência técnica, sem dinheiro, sem patrocínio, com absolutamente todos os sintomas de que 2017 seria mais um ano escorrendo pelo ralo.


O jogador mais conhecido do elenco era o Henrique Dourado, isso em virtude de ser mundialmente conhecido por ser um centroavante canhoto com duas pernas direitas.


Os reforços que chegaram não encheram os olhos e iniciamos o ano tendo que confiar em jogadores da base, alguns que nunca tínhamos nem ouvido falar.


Cinco meses depois, chegamos à final do Carioca sem o nosso então principal jogador, enfrentando a “SeleFla”, que precisou de uma falha do Renato Chaves, outra do Cavalieri e uma conveniente ajuda do árbitro para vencer a final do campeonato, muito embora não tenha vencido nenhum dos turnos.


Mas isso não vem ao caso.


O que vem ao caso é que iniciamos o ano desacreditados com o time, mas o Campeonato Carioca devolveu o orgulho à torcida, moleques da base despontaram arrebentando, o Flu foi enaltecido como o “melhor futebol do Brasil” (ainda tem o melhor ataque do Brasil), e por aí vai.


O Flu pode ter perdido a final do Campeonato Carioca. Mas não perdeu o Campeonato Carioca.


Inclusive, até mesmo a derrota nessa final pode ter efeitos positivos.


Primeiro, porque mostrou aos moleques, que estavam voando, que não são invencíveis. Perder dá calo. Richarlison e Wellington, referências nesse time, não viram a cor da bola nos dois jogos dessa final e têm muito a pensar e refletir pro resto da temporada.


Segundo, porque mostrou à diretoria o óbvio ululante desde o início do ano: precisamos de reforços.


Abel não deixou pra colocar Marcos Junior e Pedro aos 40 do segundo tempo porque estava satisfeito com o time até então. Deixou porque Marcos Junior e Pedro não agregariam nada, a não ser num contexto em que precisasse colocar sufoco.


Abel não colocou Maranhão porque estava sob efeito de drogas pesadas, mas sim porque Maranhão era o único naquele banco que poderia fazer uma beirada de campo e guardar um dos laterais.


Uma coisa é chegar na final do Carioca, um campeonato de nível técnico duvidoso e de tiro curto, com um elenco ruim; outra coisa é encarar um Brasileirão, uma Sula, uma Primeira Liga e uma Copa do Brasil com um elenco ruim. Que as pessoas lá dentro estejam cientes disso.


Digo e repito: o Fluminense perdeu a final pro Flamengo, mas o campeonato não foi perdido.


É muito fácil cair na pilha, fazer o discurso de terra arrasada e ignorar tudo o que foi conquistado ao longo do torneio.


Não cairei nessa pilha.


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NÃO SE DEIXE ABATER PELAS ADVERSIDADES DA VIDA. VOCÊ É GIGANTE!


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DIEGO CAVALIERI – Nota: DÓ SUSTENIDO MENOR
É só isso, não tem mais jeito; acabou, boa sorte. Não tenho o que dizer, são só palavras – e o que eu sinto não mudará. Já deu, Cava. Estás ingressando em um perigoso estágio no qual o Glorioso Iceman Cavalieri de 2012 é apenas um borrão na minha mente, uma memória que já não me recordo se foi real ou uma alucinação induzida por uma overdose de gols do Fred. O rebote do Cavalieri na cabeçada do Rever foi de desprender o orifício bostélico das nádegas, e a impressão que tenho é que o chute do Guerrero passou por DENTRO do Cavalieri. E, como se não bastasse, a expulsão – que cena patética. Cava fez que ia, voltou, fez que ia, voltou, e quando decidiu ir, teve que fazer aquela merda, ser expulso e ainda me obrigar a ver o Orejuela tomando um gol do Rodinei. Puta que me pariu, Cavalieri.


LUCAS – Nota: 7
Encerrado o Campeonato Carioca, podemos todos concordar que o Lucas foi um bom reforço. Tenho muita confiança nele na marcação. Apesar de hoje não ter ido à linha de fundo uma mísera vez que eu me recorde, pelo menos não deixou ninguém se criar pelo seu lado. Também não me recordo de nenhum jogo até agora em que ele tenha dado alguma espécie de pane cerebral e feito alguma merda bizarra. Já é um grande avanço; um maluco a menos para nos preocuparmos.


HENRIQUE – Nota: 8
Assistir ao jogo do estádio te permite ver outras nuances do jogo. Abel trocou os zagueiros, colou o Henrique no Guerrero e deixou o Chaves na sobra. Resultado: Henrique neutralizou o Guerrero no primeiro tempo, o Chaves voou na sobra e pegou confiança. No segundo tempo, Abel voltou com o Henrique pra sobra e deixou o Chaves, confiante, no Guerrero. Chaves engoliu o Guerrero e o Henrique fez a sobra com a competência e tranquilidade habitual. Tudo bem que vez ou outra ele dá uma pixotada – no segundo tempo, em um cruzamento do Fla, ele fez um movimento, quase uma tesoura, de frente pro gol do Flu, que eu quase embolotei – ou inventa de dar um passe de 60 metros que na verdade só anda 15 e cai no pé do Marcio Araújo, mas tudo bem.


RENATO CHAVES – Nota: 10
De longe, o melhor em campo. Realmente incrível a recuperação dos Dentes Dourados de um jogo pro outro – incrível e assustadora. Em um final de semana ele é o Antonio Carlos com febre amarela, no outro é o Baresi com lasers e dentes de ouro. Foi muito bem tanto na sobra quanto na marcação individual do Guerrero, e ainda deu duas boas cabeçadas que poderiam ser a consagração derradeira. O saldo é até OK – não dá pra dizer que é positivo, porque a paçocada no primeiro jogo foi fatal. Porém, se considerarmos que depois da paçocada ele jogou muito no segundo tempo do primeiro jogo, e jogou muito hoje o jogo inteiro, a perspectiva é até razoável.


LEO – Nota: 7
Ainda no primeiro tempo eu comentei com um camarada: o Abel ainda vai mandar o Leo cruzar o campo pra bater um lateral do lado direito. Não deu outra: no final do segundo tempo, já com o Fla na frente, o Abel fez o Leo atravessar o campo pra bater o caralho do lateral pra área. Abel, esquece essa porra de lateral pra área, cara, que saco. Fora isso, Leo foi muito competente na marcação do Berrío – não deve ser fácil marcar esse cara, o maluco parece um touro! Por outro lado, foi inútil na frente (bater lateral pro meio da muvuca não conta). Jogamos os dois jogos com os dois laterais travados, os pontas mortos e o Sornoza facilmente marcado. Aí é foda.


OREJUELA – Nota: 3
Cansado, pesado e perdido, talvez tenha sido a pior atuação do Orejuela. O cúmulo da Orejuelice foi aos 63 minutos do segundo tempo, última bola, escanteio pro Flu, e o cara, fantasiado de goleiro, ficar na área em vez de ir muvucar a área do Flamengo. Faltaram-me palavras.


WENDEL – Nota: 8
A cada dia que passo fico mais EMBASBACADO com o futebol desse cara, mermão. Hoje jogou por ele e pelo Orejuela, e se fosse preciso, tenho a impressão de que jogaria também pelo Sornoza e pelo Wellington. Deu algumas escorregadas no começo – mas, porra, pensa comigo: o Flamengo marcando numa pressão absurda e todo mundo se escondendo de sair com a bola, menos ele. O único que tentava dar um drible ou um passe era o menino Wendel, do alto de seus 14 anos. Porra! O Flu só conseguiu sair do afogamento com o Wendel, a melhor coisa desse Campeonato Carioca. Deem um contrato vitalício para esse jovem, pelo amor de Gustavo Scarpa.


SORNOZA – Nota: 4
Quando você joga com 2 volantes, 3 atacantes e só 1 meia, você precisa que esse meia esteja ligado e querendo jogo o tempo todo. Sornoza não estava assim hoje (aliás, já há alguns jogos). Nem nas bolas paradas ele conseguiu arrumar alguma coisa. Fora um lampejo e outro, cheguei a ter a incômoda impressão de que estava se escondendo do jogo. Com os dois atacantes apagados e o meia sumido, estava muito difícil ganhar.


WELLINGTON & RICHARLISON – Nota: 1
Qualquer pretensão do Flu para essa final passava por esses quatro pés, e esses quatro pés não jogaram nada em nenhum dos dois jogos. Não faltou disposição e entrega, mas faltou bola. O Richarlison enjoado, venenoso e perigoso aparentemente foi sequestrado e substituído por um manequim (é fácil fazer manequim feio desse jeito), e o Wellington voltou a pensar que pode resolver os problemas da humanidade com uma bola nos pés sem tocá-la para ninguém. Wellington & Richarlison eram os caras que conseguiriam quebrar a marcação do Fla; como não jogaram nada, ficou difícil, bem difícil.


HENRIQUE DOURADO – Nota: 9
Pra mim, o 3º melhor jogador em campo do Flu – e olha que ele cometeu aproximadamente 238 faltas, errou cerca de 769 domínios e desviou apenas 1 das 493 bolas que lhe foram arremessadas. Mas o Ceifagols não parou de brigar por um minuto, e, por mais INCREÇA QUE PARÍVEL, as melhores jogadas pelo chão também saíram dos pés desse homem. Ele brigou, marcou, correu, gritou, deu esporro, e ainda tem uma comemoração épica. Mas, sejamos francos, é pouco, muito pouco.


ABEL – Nota: 4
Abelão, eu te amo mais do que coxinha de frango, mais do que creme de cupuaçu, mais do que pizza em dobro às terças, mas, cara, sendo franco, tu tomou dois nós do Zé Ricardo e o que o seu time fez no primeiro tempo hoje foi de tirar a paciência de um monge tibetano. Foram 45 minutos de Cavalieri isolando a bola pro Ceifador tentar desviar pro Richarlison ou Wellington, algo digno de devolução do ingresso e restituição do preço. Lateral pra área era algo que você sequer deveria ter inventado lá em 2013, que dirá reeditar essa merda em 2017. Olha, você fez mágica com esse elenco, mas nos dois jogos dessa final não jogamos BOLA suficiente pra vencer. Depois do jogo você disse que dominamos o segundo tempo. Respeitosamente discordo: não dominamos, apenas deixamos de ser dominados. Quantas defesas o Muralha fez? Foi muito pouco futebol, Abel. E, olha, o elenco é uma bosta, mas você tinha opções melhores – por que não levou o Calazans? Maranhão, bicho, serious?! Era melhor ter deixado o Wellington, que mesmo mal, ainda tinha capacidade de, em um lampejo, resolver (@gabriel_arrenta: nem nos melhores dias de Maranhão ele conseguiu chegar ao pior dia do Wellington). Concentre seus esporros na diretoria e descola uns reforços pra gente porque senão o bagulho vai ficar doido ao longo do ano e ainda vão arrumar um jeito de colocar esse B.O. na sua conta, igual da última vez.


MARANHÃO, PEDRO & MARCOS JUNIOR – Nota: 0,5
Só se decepciona quem ainda cria expectativa.


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P.S. 1: Os torcedores que foram ao estádio deram um show. Acho que 75% das arquibancadas eram do Fla, mas no canto não deu pra eles, não.


P.S. 2: Hoje o Flu anunciou o patrocínio da Tim, e a Tim estava no Buxixo com uma ação de marketing iradíssima: o cliente tricolor que conseguisse fazer 95 embaixadinhas ganhava um camarote com acompanhantes, e o rubro-negro que fizesse 91 também ganhava.


Eu fiz 62. Tenho testemunhas.


P.S. 3: No camarote, um dos tricolores agraciados não sabia que o Tita, ex-jogador do Fla, era o Tita, e largou na cara dele: “me vê uma cerveja aí!”


P.S. 4: Romerito me deu um beijo no rosto, um paizão. Perguntaram a ele como fazia para ganhar os clássicos e ele respondeu “eu só tocava pro Assis e pro Washington e eles resolviam”. Aí, disseram: mas você já fez muito gol de título! A resposta: “Ah, só no Vasco, mas o Vasco era meu freguês”.


P.S. 5: Depois do jogo, desconsolado, metrô da Siqueira Campos. Passa um carro da PM.
- Mengo! - fico quieto.
- Mengo! - fico quieto.
- Não vai responder?
- Se eu te responder, ou eu vou preso ou caio morto.


P.S. 6: Ainda no metrô da Siqueira Campos, ainda desconsolado, passa um cidadão à paisana.
- Vencemos! Meu time é melhor.
- Há controvérsias – limitei-me a responder. O cidadão volta.
- Se ganhamos, é melhor.
- Camarada, você precisou que o meu zagueiro te entregasse um gol e o meu goleiro outro. Se por causa disso você acha que o seu é melhor que o meu... azar o seu.
Já não sou eu o único desconsolado da rua.


P.S. 7: Viremos a chave. Quarta-feira tem Sul-Americana.


André Fabiano/Código19/Gazeta Press
André Fabiano/Código19/Gazeta Press

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