Fla-Flu: querem acabar de vez com as nossas memórias

Por mais que as novas gerações já tenham esquecido a cor do velho Maracanã, quando eu era um garoto, diante daquela imensidão de concreto pintada com o azul mais colorido que já vi, meu único sonho era ver um Fla-Flu. Nunca sonhei com bicicletas ou videogames. Com 8 anos, eu queria era conhecer in loco o significado daquela expressão que só cabia na minha imaginação através das vozes do José Carlos Araújo ou do saudoso Doalcey Bueno de Camargo. Em 1990, ainda não havia TVs em profusão e as que existiam não mandavam em tudo. Computador era uma palavra distante. Pra acompanhar o time do coração, era necessário uma caixinha com auto-falante chamada rádio.


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Demorei ainda para ver o primeiro Fla-Flu de perto. Tanto, que deste nem me lembro. Atualmente, já devo ter passado do centésimo. Deveria ter anotado dados sobre todos eles. Ainda posso fazer isso no futuro, mas por enquanto prefiro me prender a um em especial. Um onde, certamente, fui o único tricolor a assistir o clássico em meio a um mar rubro-negro, naquele outro local saudoso onde passávamos 90 minutos em pé, grudados na linha lateral.


Não me recordo de todos os detalhes. Sei que era uma Páscoa em que muitos nos davam como mortos, embora a perna esquerda de um jovem e promissor camisa 10 já indicasse sinais da nossa ressurreição. Naquele dia, inclusive, ele quase fez um golaço como o que o Scarpa marcou recentemente.


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O placar final daquele Fla-Flu foi 1 a 1. E apesar do empate, houve para mim um momento bem marcante: foi quando, acredite se quiser, muitos dos rubro-negros que me cercaram durante todo o jogo me jogaram para o alto logo após a minha explosão inicial pelo gol do Fluminense naquela tarde.


Nunca entendi aquilo. Não sei se existia mais bom-humor naqueles tempos ou se a vaca magra do Fluminense, de certa forma, serviu para que tivessem dó da minha situação. No fundo, eles devem ter achado que eu era apenas um adolescente corajoso por estar ali, independente da situação tricolor. Mal sabiam que eu queria era mais. Meu plano era ver a frustração de todos eles juntos. Se não for assim (‘Ô, urubu! Chegou a hora! Pega a bandeira, enfia no c* e vai embora!’), qual o sentido do jogo? No fim das contas, apesar das diferenças, éramos todos protagonistas.


Agora, passados alguns anos daquele jogo disputado para 106 mil torcedores, as autoridades querem nos empurrar goela abaixo um Fla-Flu com torcida única. Ou seja, de protagonista, nós, torcedores, viramos números frios, espectadores que vamos ao estádio como se fôssemos a uma lanchonete para consumir sensações descartáveis. Como se nos estádios não residissem boas partes das memórias afetivas que carregamos conosco e que moldam as nossas vidas.


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Essas mesmas autoridades que refletem o momento de mediocridade em que está o Rio de Janeiro, deliberam normas autoritárias sobre aquilo que não entendem, supostamente em prol de um bem comum. Porém, o que elas não sabem ou fingem não saber, é que o Fla-Flu como ele é, ou seja, com 22 jogadores empurrados por milhares de tricolores e rubro-negros, é um patrimônio da sociedade. Só o Fla-Flu ultrapassa fronteiras do futebol e mostra que os diferentes podem ser um só, mesmo em lados opostos.


Mutilar uma das partes não significa alterar somente o sentido semântico do clássico, mas decretar o fim simbólico de um capítulo da história do futebol.


@TorresFagner