Quando uma bala te atinge?

Flamengo e Vasco, o retorno esplendoroso de Jefferson, Goytacaz campeão da Taça Santos Dumont. O final de semana carioca apresentou ingredientes para que o assunto, segunda-feira, fosse futebol. Não o suficiente. Cenário de guerra, três baleados em São Januário, um no Nilton Santos. A morte de um vascaíno. O esporte, mais uma vez, aparece como reflexo da sociedade. Da pior forma possível.


Se antes se recorria à generalização, em casos como esses, agora a maioria faz o oposto. A individualização toma conta, por ora. A culpa é, única e exclusivamente, de “uma meia dúzia de marginais”. Como se eles tivessem inventado a violência, como se o mundo funcionasse de outra maneira antes de eles nascerem.


Ninguém sai do ventre da mãe com vontade de matar. Nem Tom Jobim veio à Terra com Águas de Março na cabeça; nem o político corrupto foi dado à luz com dólar escondido no cordão umbilical. As pessoas se formam a partir das influências às quais são expostas; de acordo com os contextos sociais em que estão inseridas.


Esse é o grande encanto do futebol. Provavelmente a única coisa no planeta genuinamente capaz de reunir as mais distintas pessoas, pertencentes a todas as classes sociais. Não fosse o futebol, talvez elas nunca se encontrassem por vontade própria. No estádio elas cantam, choram, vibram juntas. Impensadamente se tocam, se abraçam.


Reginaldo Pimenta/Gazeta Press
Reginaldo Pimenta/Gazeta Press


É por isso que a selvageria em São Januário choca tanta gente. Porque está ligada à vida delas. Porque foi em contexto de futebol, paixão presente no dia a dia de milhões de brasileiros. O vascaíno é o que mais sofre, porque foi no próprio estádio. Ao rubro-negro também pesa – pois ocorreu em jogo do Flamengo –, mas menos. Tricolores e botafoguenses se abalam, já que foi no Rio de Janeiro. Santistas, colorados, cruzeirenses sentem, com menor intensidade.


A reação natural humana, diante de uma tragédia, é se perguntar “poderia ter acontecido comigo?”. Se a resposta for sim, vai chacoalhar a mente, abrir ferida no coração. Eis a razão pela qual a morte do vascaíno nos choca tanto: poderia ter acontecido conosco, ou com alguém querido. Quem causou o caos, em São Januário, tem culpa, é claro. O autor do disparo letal tem culpa ainda maior.


Só que, infelizmente, Davi Rocha Lopes, 27 anos, foi “apenas” uma nova vítima da violência brasileira. “Mais um”, em tempos em que o Governo Estadual repensa se as UPPs garantem mais segurança ou balbúrdia; pouco mais de uma semana após 66 policiais serem presos por tráfico de drogas e armas; dias depois de um bebê ser atingido, em Duque de Caxias, ainda no útero da mãe, por uma bala perdida.


Bala perdida.


Só em 2017, aos menos 632 pessoas foram atingidas – 67 mortas – por bala perdida, no estado do Rio de Janeiro. Bala não se perde, nem se acha. Ela é disparada por alguém que teve a intenção de atirar. Talvez para matar, machucar, ou fazer barulho. É tanto tiro que foi necessário criar um termo para a bala que erra o alvo, mas não deixa de fazer sangrar.


Luciano Belford/Gazeta Press
Luciano Belford/Gazeta Press


Bala perdida choca menos do que confusão em estádio de futebol. Sinal de que é mais comum e afeta a vida de menos gente, embora acabe com a de muita. É por isso que ela come solta. Porque o gol mexe com ambos, mas as mortes gratuitas na favela não poderiam ter acontecido com alguém da zona sul.


Também não é culpa do morador da zona sul, apenas retrato da sociedade brasileira. Grande parte vive em péssimas condições, sem ter ao alcance um meio para melhorar de vida. Muitos tomam inúmeras "pancadas na cabeça" diariamente. Acabam perdendo o medo. Sem medo, sem nada mais a perder, fica bem mais fácil traficar, atirar, se envolver em briga de torcida. Se uma roupa da Armani dá status a quem a veste, quem não consegue vesti-la acaba encontrando outro jeito fútil de se sentir respeitado.


Para conter briga de torcida, tráfico de drogas, uma polícia mal preparada e pessimamente remunerada. Exposta a risco extremo a troco de um salário quase simbólico. Não à toa policiais começam a se envolver com o tráfico. Policial ou civil, ninguém vem ao mundo traficante, mas a vida acaba sendo tão ingrata que o crime se torna, sim, uma opção.


Entenda por crime coisa de pobre. Porque se pobre rouba um carro, vai preso, é criminoso. Já um milionário que desvia uns milhões a mais, fica em casa, é corrupto. Mera questão de poder.


A punição a infratores da lei – sejam corruptos, assassinos, torcedores que brigam – é necessária, é claro. Ela inibe, desestimula e alerta às consequências de novo delito, mas não podemos pensar que apenas prender “uma meia dúzia de marginais” vai acabar com um mal histórico, cultural, intrínseco à nossa sociedade. Punir é o primeiro passo de uma caminhada focada em melhorar as condições de vida das pessoas. Trabalhar para que, quem sabe um dia, o sorriso valha mais do que o poder.


Eurico Miranda acerta em dizer que a origem do tumulto em São Januário é coisa política, de poder. Só se poupa de explicar como ela funciona. Afinal, a pessoa mais poderosa no Vasco é justamente ele.


Antonio Marcos/Gazeta Press
Antonio Marcos/Gazeta Press


No final das contas, é quase tudo questão de poder. E no mundo em que vivemos, poder e dinheiro andam de mãos dadas. Para alguém possuir uma fortuna, infelizmente inúmeras pessoas precisam ter quase nada. Assim funciona a balança. Temendo o que perder, sem tomar as “pancadas da vida”, poderosos criam – por mais que involuntariamente – o cenário para que haja violência, assassinato, bala perdida.


Há quem faça por má índole, há quem nem índole consiga ter. A parcela de responsabilidade não é igual, mas a culpa acaba sendo de todos nós, do ser humano. O animal que se autointitulou “Homo sapiens sapiens” – o “homem que sabe e sabe”.


Que só sabe pensar em si, que sabe atirar, sabe matar, e que nunca viu um cavalo apontar uma arma.