Cabeça fria e coração calejado: Flamengo aprendeu a vencer

Depois de começar o ano pensando na conquista da América e ver o sonho da Libertadores se esvair – pela terceira vez consecutiva – na fase de grupos, fica difícil encarar esse time do Flamengo como um legítimo vencedor. O trauma só passará com títulos e quando, enfim, nosso clube fizer uma campanha digna no torneio continental; mas foi-se o tempo de remoer a ferida. A verdade é que, por mais que ainda não tenha se mostrado um vencedor, o Flamengo tem, sim, sabido ganhar seus jogos, nas últimas semanas.


A mais nova prova foi a vitória diante do São Paulo, nesse domingo, na Ilha do Urubu. E se os preços dos ingressos são incompatíveis com tudo aquilo que o Flamengo representa, a aura do estádio condiz com a força histórica do time quando joga em casa.



Legal testemunhar que nem só o grito da Nação é capaz de arredondar a bola em seus momentos de maior quadradismo. A qualidade de nossos jogadores fez o truncado primeiro tempo terminar em boa vantagem rubro-negra: 2 a 0. Grande cobrança de falta de Guerrero e excelente triangulação entre o peruano e Everton Ribeiro, finalizada no sem-pulo de Diego. Placar aberto aos 38 minutos, fechado aos 42’.


Precisando reagir, no segundo tempo, o São Paulo teve a posse. Viu, por várias vezes, o Flamengo fazer marcação um tanto branda, distante. Ainda assim, a melhor chance foi nossa, com Diego e Guerrero, em três chutes no mesmo lance. Impecável desde que vestiu o Manto Sagrado, Rhodolfo salvou o gol de Cueva, em cima da linha. Um susto, aos rubro-negros, e nada muito além. Como contra Santos, Ponte Preta e Chapecoense, novamente o Flamengo soube vencer. Não se expôs, não correu grandes riscos e conseguiu marcar mais de um gol, para que algum eventual problema lá atrás não viesse a nos custar pontos no campeonato.


De resto, o de sempre. Chances criadas, chances perdidas, deficiência na saída de bola. Márcio Araújo e Cuéllar não têm comprometido, mas ainda estão longe de formar a dupla ideal de volantes que queremos ver. Trauco segue alternando boas e más partidas e “Pará ou Rodinei” parece ser o maior enigma já visto no Brasil desde a primeira publicação de Dom Casmurro.


André Mourão/Gazeta Press
André Mourão/Gazeta Press


Com a cabeça fria e o coração calejado, a gente percebe que o time incapaz de fazer melhor campanha que o Atlético-PR dificilmente ganharia a Libertadores. Além de o grupo aceitar sorrindo duas derrotas, o goleiro titular era fraco, o reserva um garoto, Gabriel era opção e a zaga tinha em um de seus pilares o “vistoso” futebol de Rafael Vaz. Não à toa, depois da tragédia, foram contratados Geuvânio, Rhodolfo e Everton Ribeiro.


Os últimos, aliás, os melhores da vitória sobre o São Paulo, ao lado de Guerrero. E. Ribeiro, em diversas ocasiões, fez papel de meia. Veio buscar jogo, levantou a cabeça, tentou o passe mais agudo, algo para desmontar a defesa adversária. Já a nossa defesa se montou com a redescoberta do futebol de Juan e a chegada de Rhodolfo, até agora um zagueiro excepcional, nesses 3 jogos que fez pelo Mengão.


2 a 0, sem grandes apuros, de um Flamengo que soube e mereceu vencer. Que enfrentava dificuldades, mas já era superior no momento em que Guerrero sofreu falta clara de Petros, cobrada com excelência pelo próprio atacante, ao que tudo indica a cerca de 9,15m da barreira.


Se tem gente se afundando ainda mais em crise é por um simples e explícito motivo: o Flamengo venceu.


Gilvan de Souza/Flamengo
Gilvan de Souza/Flamengo