Não é hora para 'oba-oba' no Flamengo

Éverton Ribeiro chegou ao Rio e já foi apresentado. Desembarcou nos braços da galera. A festa contagiou tanto que trocaram Zico por Rodrigo (Caetano), no grito de “nosso rei”! Uma assinatura, R$ 22 mihões, e o combalido Flamengo saiu do marasmo, voltou a ser favorito a tudo que disputa. “Melhor time do Brasil”. Torcida e imprensa tornaram a adotar o discurso de meses atrás. Em tempos de “pós-verdade”, o Flamengo consegue inovar. Somos o time da “pré-verdade”. Sem “pós” nem “pré”, a verdade é que o primeiro semestre rubro-negro já está consolidado como um fracasso.


8 times brasileiros começaram o ano na Libertadores, 6 estão nas oitavas de final. A Chapecoense só não avançou pelo imbróglio com Luiz Otávio. Em campo, conquistou a vaga. Só o Flamengo ficou fora. Com um orçamento abissalmente menor, o Atlético Paranaense avançou. Estava no mesmo grupo do Mengo. Não há desculpas para nós.


A eliminação ainda assola, ou assolava. Estava difícil achar a fonte de ânimo, motivação para o restante da temporada. O time invicto, com 3 empates e uma vitória sobre o adversário mais fraco, era perfeito reflexo da aura que envolvia o Flamengo. Não mais. A torcida voltou a sorrir.


Staff Images/Flamengo
Staff Images/Flamengo


Sorrir faz parte do Flamengo, não há gente com natureza mais feliz que o rubro-negro. É impressionante como flamenguista sempre tira um motivo para fazer graça, se sentir bem, ver a metade cheia do copo. O problema é que essa alegria natural é fortemente capaz de boicotar o torcedor de viver uma felicidade ainda maior. Se ser Flamengo já é maravilhoso, imagina ser Flamengo e campeão?


Para sermos campeões, temos de assumir que não há só virtudes, mas também erros. E buscar corrigi-los para que não mais se repitam. Se do meio pra frente parece que as coisas finalmente vão funcionar, na parte defensiva o Flamengo não só repetiu os erros do ano passado, como fez pior.


Em 2016, começamos o Campeonato Brasileiro desacreditados e sem zaga. Excelente no Carioca, Juan não aguentava o tranco de enfrentar “gente grande”. Fazia dupla com Léo Duarte, substituto imediato do recém-vendido Wallace. Rafael Dumas era o reserva. Achincalhado pela torcida, César Martins estava de saída, fora afastado do grupo e treinava separadamente, esperando o contrato acabar. Juan se machucou e Martins foi de barrado a titular.



Com maior investimento e a pecha de “um dos melhores times do país”, o Flamengo de 2017 conseguiu também começar o Brasileiro com péssima zaga. O torcedor se empolga, acredita no Mengão sempre – é verdade –, mas foi uma tremenda falha de planejamento pensar que Réver e Rafael Vaz formariam uma dupla qualificada para “ganhar tudo” no ano. A sombra seria de Donatti, só que uma lesão na panturrilha já o afasta dos gramados por mais de mês. Sobram Juan e Léo Duarte, os mesmos preteridos do ano passado. Seguimos com um Réver, que – religiosamente – entrega a bola todo jogo, e um Rafael Vaz, que, de tão fraco, faz Réver parecer um zagueiro seguro.

O plus do mal planejamento defensivo em 2017 é que adentramos o ano munidos de apenas UM goleiro com experiência profissional no grupo. Thiago e Gabriel Batista não tinham um minuto sequer em campo como jogadores profissionais. A inexperiência era tamanha que, para a disputa da Libertadores da América, o Flamengo retornou de empréstimo César, que estava na reserva da Ferroviária-SP.


Gilvan de Souza/Flamengo
Gilvan de Souza/Flamengo


Como em 2016 – quando trouxe Réver, Vaz, Fernandinho e Diego –, o Flamengo foi atrás de reforços no meio do ano para reparar o fracasso do primeiro semestre. Nova falha do departamento de futebol, que tem como diretor executivo o agora “rei” Rodrigo Caetano. Na figura de Éverton Ribeiro, tais reforços começaram a chegar (fruto da excelente venda de Vinícius Júnior. Enorme acerto de nosso departamento de futebol, vale ressaltar).


A torcida pode ficar feliz, confiante, mas nada de "oba-oba". Ano passado, muitos celebraram o título em um Brasileiro que o Flamengo sequer chegou a liderar. Semanas atrás, vários comemoraram a classificação na Libertadores ainda no intevalo da partida contra o San Lorenzo. Não existe jogo ganho. Aprendamos isso, e também que contar com jogadores consagrados no elenco não significa necessariamente ter um time bom. Mais uma vez: chega de repetir os erros.


Éverton Ribeiro assinou, Diego voltou, Conca está para estrear e o futebol de Vinícius Júnior não para de crescer. Tome sorriso nos rostos rubro-negros. É hora da Nação empurrar esse time rumo aos títulos. Festejar, só depois de conquistá-los.