Façamos da América um imenso Maracanã

Gilvan de Souza/Flamengo
Gilvan de Souza/Flamengo


Não foi em casa que o Flamengo conquistou a Libertadores. Mas, quase 36 anos depois, o gol do título saiu lá. No nosso Maracanã. Falta para o Mengo, Zico na bola, bola na rede.


Flamengo é isso. Transcende, sente-se. Não se explica. O mesmo gol em outro estádio, pra lá de 3 décadas mais tarde. A bola não esférica na rede que não tem barbante. Que valeu um título no Uruguai e sequer alterou o placar no Rio de Janeiro.


A quem não é Flamengo, motivo de risada. Mar de piadas com a feição de nosso camisa 10. Não parecia Zico, é nítido. Assim como não vestia a 10. O Manto Sagrado não tinha número. Não precisava ter. Todos sabem qual era, todos sabem quem era aquele jogador. Sabem também que aquilo ali era jogo grande, Maracanã lotado. Aquilo ali é Flamengo.


A eles, as sátiras; a nós, ser Flamengo. A multidão jogou. Milhões de vozes em milhares de gargantas, grito que toma a alma de quem tangencia o gramado. Passe de Nivaldo Trauco para Fabíola Guerrero. Gol nosso, gol do Flamengo. Início arrasador, grande chute de Diego Antunes Coimbra - 2 a 0. Por pouco, Dejan Ribas não marcou o seu segundo na partida. O disparo na forquilha só não sacudiu a trave porque ela já balançava. Maracanã em dia de Flamengo não para de pulsar.


Não para, mas perde ritmo. Intervalo com boa vantagem é um convite para o descompasso. Sem ter bola para olhar, a mente começa a calcular e decidir se gosta ou não do gol de empate que saiu em Santiago. Para recuperar o equilíbrio, um choque. Renê Alvim se descuidou e foi visto o primeiro sorriso da pequena ala vermelha e preta do estádio. Não se pode confundir as cores: o Maracanã é rubro-negro.


Getty Images
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E o rubro-negrismo voltou a imperar. Paixão emanada a todos os cantos. Aplausos ao zagueiro sério, ao criticado volante que fez jogo exemplar. Flamengo é isso. É transformar tudo e todos em uma coisa só. É respeitar os demais sem deixar de lado a própria natureza. E nossa natureza diz: “Vencer, vencer, vencer”. Para vencer, às vezes é preciso perdoar, e foi perdoado o indesejado atacante saído do banco de reservas. Um estrondo de incentivo em forma de segunda, ou terceira, chance.


Vencemos sem nos calar. No Maracanã lotado, como deve ser. Como é o Flamengo, como somos Flamengo. No Maracanã em que escrevemos as mais belas páginas da história; no Maracanã no qual nosso maestro deixou lascas de sua batuta.


Não se sabe quando ele voltará a reger, mas a experiência de Flamengo no Maracanã ensina. Para cada joelho de Diego que faltar, ponhamos três pernas nossas à disposição. A cada partida em outro lugar, tornemos portas e portões a rampa do Bellini. Em cada dia em que estivermos vivos, portemo-nos como nesse 12 de abril de 2017.


Em Montevidéu, Buenos Aires ou no Rio de Janeiro, a Libertadores há de ser nossa outra vez. Façamos da América um imenso Maracanã.


Reginaldo Pimenta/Gazeta Press
Reginaldo Pimenta/Gazeta Press