Flamengo 0x1 U. Católica: tem que ter pegada, Mengão

Difícil falar, escrever. Difícil engolir a derrota desta quarta-feira. Perdemos para um time sem brilho, sem pulso. Acharam um gol, no segundo tempo, e a torcida nem para extravasar. Aplausos tímidos, sorrisos modestos, pés cravados no concreto. A Universidad Católica não foi exemplo de nada. Não ganhou na tática, no lampejo, na pressão. Não foi na raça, na superação, na alma. O som da arquibancada não fez a diferença e nem na catimba eles foram grande coisa. Ainda assim, ganharam. Nosso Flamengo perdeu.


Criticar a escalação de Zé Ricardo flerta com o absurdo. Talvez Márcio Araújo tenha sido o melhor em campo dentre os 27. O Flamengo dos 3 volantes foi o que mandou na partida. O que jogou bem, mas que não encontrou a rede.


Getty Images
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Voltamos a nos deparar com um dos principais problemas do ano passado: a dificuldade de marcar gols. É bem verdade que o Flamengo criou, mas nenhuma chance clara. Aliás, muitas das principais oportunidades surgiram em lances fortuitos. A bola que o goleiro soltou e Réver mandou por cima; a cabeçada para trás de Rafael Vaz, que sobrou para Willian Arão; o calcanhar errado de Diego que fez Guerrero acertar a trave; o chute pífio de Arão que Guerrero dominou de costas, girou e bateu mal, de canhota. Ai se ele visse o Éverton livre ali ao lado, ai se no primeiro tempo ele soubesse que o mesmo Éverton receberia livre, com gol aberto... Assustamos também em duas cobranças de falta, numa enfiada de Guerrero para Berrío e em uma cabeçada sem rumo, do peruano, em cruzamento de Márcio Araújo.


Cruzamentos. Foram eles que em tantas ocasiões tiraram o Flamengo do sufoco em 2016. Tá certo que não pode ser a única saída, mas muitas vezes as dobradinhas Pará-Arão na direita ou Jorge-alguém na esquerda serviram de solução. Parece que o Flamengo abriu mão disso. Nas duas partidas da Libertadores, não se viu mais a bola trabalhada pelos flancos e, geralmente, quando chegava na ponta, ela era tocada para trás.


Pelo meio, ela tem de necessariamente passar por Diego. Não foram poucas as situações em que ele esteve atrás de Rômulo e Arão para dar início à jogada. Não à toa prende tanto a bola, gira tantas vezes. Ninguém dá a opção. Do meio para frente, Diego parecia o único realmente incomodado com a incompetência ofensiva do Flamengo. Em um ato de desespero, perdeu a bola. Voltou, cometeu tola falta. Gol da Católica.


O Flamengo não jogou mal não, mas careceu ao ataque a pegada de Diego. Aquele sangue nos olhos, a feição clara de que Mengo não poderia sair de campo derrotado. Não quero dizer que o time não se esforçou, a entrega foi nítida. De corpo. De alma, faltou algo.


Alguns toques displicentes, calcanhares desnecessários, pé frouxo. Passes fortes/fracos demais. Lances simples, cuja simplicidade atrapalhou. Não se pode relaxar porque uma jogada é de fácil execução. Diversas vezes, os jogadores do Mengo relaxaram.


Faltou brio ao Flamengo. Aprendemos, em Libertadores passadas, que esse fator é primordial em toda partida. E talvez apenas por sermos Flamengo. O que mata, nessa derrota, é justamente isso. A Universidad Católica foi menos pujante que nós.


A lição que tiramos agora é outra. Jogar melhor não é o suficiente. Tem que ter pegada sempre, Mengão!


Divulgação/Flamengo
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Destaques individuais (para o bem e para o mal)


Diego Haro (árbitro): Não influenciou no resultado, porém demonstrou critério diferente na aplicação dos cartões às equipes. Exagerou na expulsão de Berrío e não soube controlar a constante troca de farpas entre Guerrero e Lanaro. Conseguiu perder a mão na formação de barreiras da Universidad Católica. Mais de 2 minutos foram levados para que Diego cobrasse a falta na trave e ele deu apenas 3 de acréscimo, ao final do segundo tempo. Acertou na não marcação do suposto pênalti de Rafael Vaz.


Rafael Vaz: Pode ser boa pessoa, mas definitivamente não preenche os requisitos para vestir o Manto Sagrado. Criou a principal oportunidade do jogo... para a Universidad Católica. Rebateu mal bolas, abusou – de novo – de lançamentos despretensiosos e não tem a noção do perigo que seu excesso de segurança pode causar. Desperdiçou a última oportunidade do jogo de alçarmos uma bola na área. Não pode ser titular do Flamengo.


Réver: Mais uma grande partida. Não brincou em serviço e, novamente, botou a seriedade em primeiro plano. Diferente e bem melhor que o Réver de 2016.


Pará: A inesperada e surpreendentemente longa lua de mel da torcida com o lateral parece estar chegando ao fim. Por vezes deu espaços atrás e foi omisso/inoperante no ataque.


Márcio Araújo: Melhor em campo, um leão. Com razão, temos grande dificuldade de confiar nele, mas cumpriu bem demais seu papel. Como Réver e Diego, teve a “pegada” cobrada no texto.


Willian Arão: Em queda livre desde o 1x0 sobre o Atlético-PR em agosto do ano passado (Mancuello, de letra). Tem bons lampejos, mas avança demais, pouco produzindo na frente e deixando espaços atrás.


Diego: Abaixo do que esperamos, mas é impressionante o quanto se esforça. Chamou o jogo sempre, não se escondeu. Pecou ao perder a bola e cometer a falta que originou o gol da partida.


Guerrero: Distante demais da área, no primeiro tempo, foi bem taticamente. Poderia ter sido advertido com cartão amarelo por reclamação ou entreveros com zagueiros da Católica. Errou 3 domínios cruciais que poderiam resultar em chance de gol ao Flamengo, um deles interferindo um cruzamento que deixaria Éverton sozinho para marcar. À exceção da cobrança de falta, não teve chance clara de finalização.


Berrío: Entrou muito afobado. Cometeu uma série de faltas desnecessárias e acabou expulso de maneira injusta, porém justificável. Dava tanta porrada que é bem capaz de o árbitro ter sido induzido por isso quando resolveu mostrar o cartão vermelho. Tem feito bom uso de seu corpo e velocidade, mas com a bola no pé alterna bons e péssimos momentos.


Zé Ricardo: Acertou na escalação com 3 volantes, e o Flamengo dominou no primeiro tempo. Buscando a vitória, mexeu na formação colocando Berrío no lugar de Rômulo. Foi bem como ténico, e mal como “paizão”. A passividade, a “falta de pegada” do Flamengo têm grande reflexo em Zé Ricardo. Sempre sereno, quase nunca altera o tom de voz. Impossível mudar o jeito de ser, é claro, mas ele precisa vibrar. Precisa passar a energia que falta aos jogadores. 


Divulgação/Flamengo
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