É falta, na entrada da área...

E a bola não sai do gramado, o juiz chega a “desautorizar” a cobrança. Falta demorada assim geralmente não entra, e qualquer outra torcida hora dessas já está mais conformada com o erro que na expectativa pelo acerto. Não a nossa, por um simples motivo: adivinha quem vai bater? É o Camisa 10 da Gávea.


Gol de Diego, e toda a afobação do primeiro tempo finalmente se esvai. A baixa produtividade ofensiva, a falta de apoio com a posse da bola, os incontáveis lançamentos desesperados de Rafael Vaz. Chega, não precisamos mais disso. Réver, enfim, pode respirar um pouco. Que partida do nosso capitão! A mais séria desde que assinou com o Flamengo. Vibrava, cobrava, afastava todas. Sem espaço para requintes.


Mas Réver não veste a 10. Até anteontem, ninguém a vestia, só que em competição Conmebol a numeração tem de ser progressiva. No caso da Libertadores, de 1 a 30. Diego não poderia mais ser o 35, e nós fomos obrigados a perder o receio de lidar com uma nova decepção de ver o mau uso do Manto mais Sagrado de todos. Diego é nosso camisa 10.


E com a genialidade de um camisa 10 da Gávea, proporcionou o lance que deu origem à falta, na entrada da área. Legítimo, rubro-negro, não desmereceu a canção. Mandou lá dentro, abrindo as vias de milhões de gargantas para o desabafo de toda uma nação. Falhou, na invertida a Berrío, mas a camisa 10 tem luz própria. A bola voltou a procurá-la, e seu mentor não encontrou Júnior, mas sim Trauco. Como bom canhoto, o peruano trabalhou na perna esquerda, girou, e testou a resistência do barbante. 2 a 0 Flamengo.


Rudy Trindade/Gazeta Press
Rudy Trindade/Gazeta Press


Escanteio pela direita e lá foi o Camisa 10 cobrar. 39 anos depois, não havia mais Rondinelli para estufar a rede, mas estavam lá Berrío, para desviar, e Rômulo, para completar. Camisa 10 que bate pênalti, mas o atual Flamengo quis ser solidário com o 9. Nunca foi função de Nunes guardar, da marca da cal. Guerrero que o diga. Assim como nunca foi unanimidade 3 a 0 ser goleada. Assunto resolvido. Arretado, como Peu, Gabriel veio do banco de reservas para não deixar nenhuma dúvida.


Flamengo 4, San Lorenzo 0, e todo mundo para cima de Diego, que ainda no gramado e depois na entrevista coletiva fez questão de deixar claro: Ele não é Zico, nunca será Zico e ninguém jamais passará perto de ser Zico. Era o que precisávamos ouvir. Zico é supremo, magnânimo, mas deixou um peso na camisa 10 com o qual o rubro-negro tem enorme dificuldade de lidar. Mesmo quem não viu aquele time, já nasce encantado pelo Flamengo dos anos 80. Só que o nosso esquadrão de ouro se foi, os tempos são outros. O que não significa que as glórias do passado não possam se repetir.


Acabou a geral, o Maracanã não suporta mais centenas de milhares, e ainda por cima escolhe o torcedor que vai receber. Mas a Magnética segue capaz de lotar sua casa, fazer o maior espetáculo da Terra e empurrar o time rumo à vitória. Sem vaiar, só no amor.


Se não vai na chuteira, vai no grito, na raça. Se a bola queima no pé, ainda há a esperança, o porto seguro. O algo a mais quando o assunto é puramente futebol: o Camisa 10 da Gávea.


Sabemos lá o que vai acontecer daqui para frente, só temos a certeza de que hoje o rubro-negro é o ser mais esperançoso do planeta. Nesse 8 de março de 2017, vimos o Flamengo voltar a ser Flamengo.


Luciano Belford/Gazeta Press
Luciano Belford/Gazeta Press