Mengo e Libertadores: hora de deixar o vexame para trás

Sabe aquele papo de que Libertadores é diferente? Clichê, sim. Tão clichê quanto verdade. A prova disso está no nosso amado Clube de Regatas do Flamengo. Seria inimaginável o Maior do Mundo nunca tê-la conquistado. Nos anos 80 tínhamos um timaço, é claro, mas erguemos a taça só na primeira vez. Flamengo não sabia o que era Libertadores, Libertadores não sabia o que era Flamengo, a gente foi lá e ganhou. Ponto. Até hoje, Flamengo e Libertadores não se conhecem direito. Também não se desconhecem.


Digo isso porque, do alto de meus quase 26 anos, jamais vi o Mengão desempenhar uma campanha digna na Copa Libertadores da América. Em 1991, eu era um recém nascido; em 1993, uma “pré-criança”. Desde então, o Fla só passou vergonha no maior torneio do continente.


Em 2002, fizemos 4 míseros pontos em 6 jogos e amargamos a lanterna do grupo (o terceiro colocado, Once Caldas, terminou com 9). Nas duas últimas participações, o vexame foi o mesmo. Caímos ainda na primeira fase, com Léo Moura descobrindo a transformação do milagre em tragédia ao vivo, em rede nacional, em 2012. Uma piada. 2 anos mais tarde, conseguimos uma grande vitória no Equador sobre o Emelec. Aí ficou mole, era “só” vencer o León, no Maracanã, para classificar. Tranquilo, né? Perdemos: 3 a 2.


Fernando Soutello/Gazeta Press
Fernando Soutello/Gazeta Press


Aos trancos e barrancos, chegamos ao mata-mata em 2010. Eliminamos o Corinthians, dono da melhor campanha. Aí veio a Universidad de Chile, que havia complicado – e muito – nossa vida na fase de grupos. Relaxamos e levamos um passeio no Maracanã. Só não foi 3 a 1 porque o goleiro engoliu um peruzaço no chute de Juan. Vencemos na volta, não conseguimos reverter. Situação similar à passada em 2007. O adversário era o “fraco” Defensor, que havia apanhado duas vezes do Santos, na primeira fase. Jogo de ida, no Uruguai: 3 a 0 eles. Na volta, Renato Abreu chutou creio que duas vezes ao gol, marcou em ambas. Hector Baldassi nos assaltou e o Flamengo, mais uma vez, foi eliminado. Saiu aplaudido, pois havia “lutado até o fim”.


Aí mora o primeiro perigo. Só luta ATÉ o fim quem luta desde o início, coisa que não ocorreu em nenhuma das ocasiões. Não adianta jogar 90 de 180 minutos e sair satisfeito com o desempenho, botando a culpa no árbitro, na sorte...


Eliminações chatas, sofridas, até traumatizantes. Nada, nada perto do que vivemos em 2008. O time do Flamengo tava encaixado demais. Foi ao México, enfentar o América, e se deu o luxo de poupar Léo Moura para a final do Carioca(!!!). Poderia ter sido 7, foi “apenas” 4 a 2, com o lateral jogando o segundo tempo e fazendo a melhor partida de um camisa 2 pelo Flamengo que vi em toda a minha vida. A vaga tava garantida. Eu sabia disso, você sabia disso, o time sabia disso. Quando que, na despedida do Papai Joel, o América do México ia fazer 3 a 0 no Flamengo no Maracanã? Foi lá e fez. Deu vida a uma das derrotas mais dolorosas de nossa história.


Getty Images
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Aprendi, ali, que jamais se pode cantar vitória antes da hora. Os anos passaram; o trauma e a angústia, não. Desde 1989, a Libertadores é disputada com sistema de mata-mata. De lá pra cá, Vasco, São Paulo (3 vezes), Internacional (2 vezes), Grêmio, Atlético-MG, Cruzeiro, Santos, Corinthians, Palmeiras e até o Once Caldas foram campeões. Fluminense, São Caetano, Atlético-PR, Independiente del Valle, e Nacional-PAR chegaram à decisão.


E o Flamengo? O Flamengo jamais passou das quartas. Talvez você não soubesse, mas nosso time nunca disputou uma semifinal de Libertadores.


Nunca disputou porque nunca compreendeu o torneio. Libertadores é diferente sim. Não interessa se é o Boca Juniors na Bombonera lotada ou o Zulia pra 19 pagantes. Até o apito inicial, ninguém é maior, ninguém é menor, ninguém é mais forte, ninguém é mais fraco. O Flamengo, como instituição, como clube, como torcida, como time, precisa entender isso. Não há jogo fácil, jogo ganho. Não há adversário ruim.


Isso só pode ser desmentido a partir do momento em que a bola rola. É aí que as diferenças são trazidas à tona. A torcida empurra os jogadores, que se tornam capazes de impor determinada superioridade e construir um resultado positivo.


Temos grandes peças em nosso time; um treinador prata da casa, como em diversos dos mais belos momentos de nossa história. Temos a maior torcida de todas; imensa, apaixonada. Dá, sim, para o Flamengo ganhar a Libertadores. Só precisamos entender que também dá para perder, e fazer o possível e o impossível para que isso não aconteça.


Alexandre Loureiro/Gazeta Press
Alexandre Loureiro/Gazeta Press