Não existe final feliz para Alex Muralha

O ser humano é apaixonado por uma narrativa de superação. Seja o lutador que apanha por horas mas vence a luta no final, seja o reserva desacreditado que entra no último segundo para resolver a partida, seja o veterano que já havia abandonado o esporte e subitamente se torna a última esperança da equipe. Amamos a trama do herói improvável, vivemos pela reviravolta do triunfo inesperado, ansiamos pelo plot twist do salvador que surge de onde menos se espera.


Mas, infelizmente, como a vida nos ensina, nem sempre é assim. Muitas vezes o lutador que apanha por horas apenas segue apanhando por mais horas e sai do ringue hospitalizado, a cara toda torta. Quase sempre o reserva que entra no último segundo mal tem tempo de tocar na bola e acaba apenas só aquecendo pra nada. Inevitavelmente o veterano que já havia abandonado o esporte tem ótimos motivos pra isso e nem consegue se manter andando, quanto mais salvar a equipe. E um dos casos em que está mais óbvio que não teremos reviravoltas, não teremos plot twists, não teremos absolutamente nenhum tipo de herói improvável é o do goleiro Alex Muralha.


E não apenas porque o goleiro vive sua pior fase técnica, possuindo atualmente uma espécie de toque de Midas invertido em que todo cruzamento adversário é uma chance de gol, toda bola recuada é um ataque rival, todo chute contra nossa meta parece ter sido dado pelo Roberto Carlos naquele joguinho Winning Eleven. Também não só porque a postura de Muralha diante da adversidade não parece ser a de fazer o simples até a fase ruim passar, mas, como ficou claro no primeiro gol contra o Santos, ousar mais ainda, como se quisesse provar o quanto estávamos errados em todas as críticas. Mas sim porque o Flamengo, hoje, não pode se dar ao luxo de esperar que Muralha se redima.



Isso porque a derrota contra o Santos, em que Alex foi protagonista, sendo diretamente responsável pelo placar, colocou o Flamengo numa situação ainda mais crítica na busca pela vaga na Libertadores 2018. Na Sul-Americana temos um jogo de imensa pressão, fora de casa, contra um Junior Barranquila que  encherá o estádio e onde precisamos arrancar ao menos um empate, tudo isso para chegar a uma final. Já pelo Brasileirão teremos um Vitória, também fora de casa, com casa cheia, precisando de um bom resultado na luta contra o rebaixamento. Dois jogos complicados, dois jogos intensos, dois jogos que decidem o ano. Dois jogos que obviamente não são para Alex Muralha.


César, sem ritmo de jogo, inscrito às pressas por causa da lesão de Diego Alves, cuja lembrança mais recente em nossa memória é o bom desempenho numa Copa SP de Juniores disputada seis anos atrás, é uma incógnita no gol. Mas, diante da certeza que é Muralha, uma certeza de erros, falhas e de que nenhuma lição vem sendo aprendida com nenhuma delas, é sim a hora de pelo menos apostar em algo novo, de tentar o inesperado, de dar uma oportunidade para alguém que ainda não errou, em vez de oferecer a 19ª última chance para alguém que nos decepcionou em todas as oportunidades anteriores.

Não acredito que seja impossível a redenção de Muralha. Ainda tem 28 anos, já viveu vários bons momentos, Tite já o considerou goleiro de seleção. Talvez ainda vá conquistar grandes vitórias, alegrar multidões, levantar taças. Apenas vem ficando cada vez mais claro que, se Muralha algum dia vai ser o herói de alguma jornada, essa jornada não vai acontecer tão cedo e muito menos vestindo a camisa do Flamengo.