Chape 0 x 0 Flamengo: Era melhor ter ido ver o filme do Pelé

Analisar de ponta a ponta o Instagram de uma ex-namorada que terminou contigo dois anos atrás. Limpar um armário empoeirado de roupas. Telefonar para a sua empresa de TV á cabo e pedir uma mudança de plano. Ler o manual de instruções de uma máquina lava e seca com abertura frontal. Trocar a resistência de um chuveiro sem ter certeza que realmente tá desligada a eletricidade do banheiro. Interromper um jantar de família perguntando “e aí, galera, vocês acham que foi golpe ou não?”.


Todas essas atividades, ainda que nada recomendáveis e vagamente aterrorizantes, muito provavelmente ainda são melhores do que a experiência do flamenguista que teve que assistir nessa quarta-feira ao jogo contra a Chapecoense.


Isso porque o Flamengo, que parecia no decorrer do últimos jogos ter evoluído em alguns aspectos importantes de seu jogo, conseguiu na noite de ontem realizar uma atuação que permitiria que alguns torcedores mais pessimistas, mais paranoicos, ou apenas mais fãs da franquia “Missão Impossível” acreditassem que a qualquer momento Reinaldo Rueda poderia tirar uma máscara e revelar que na verdade ele não era outra pessoa que não o antigo treinador rubro-negro Zé Ricardo.



Afinal, contra a Chapecoense tivemos tudo que mais irritava o torcedor durante a gestão zéricardiana: altos índices de posse de bola sem gerar chances de gol; extrema dificuldade na armação das jogadas; atleta titular que, apesar de atuar em baixo nível durante toda a partida, era substituído, muito a contragosto do treinador, apenas no finalzinho do jogo. Somando a isso o fato de que, mesmo com o Flamengo dominando a partida, uma derrota poderia facilmente ter surgido em vacilos infantis que deixaram a Chapecoense na cara do gol, você tem basicamente um resumo dos jogos que causaram a demissão do antigo treinador da equipe.


E ainda que continue sendo cedo para criticar o nosso novo professor, fica claro que o Flamengo atingiu no mínimo um quebra-molas na trajetória de relativa evolução que a equipe vinha vivendo. A defesa, que havia se tornado mais sólida, falhou diversas vezes; o meio e o ataque, que vinham conseguindo ser mais incisivos, praticamente não criaram. E problemas que já estavam aparentes, como esse curioso treinamento específico de “espalmada pro meio da área” que todos os goleiros rubro-negros parecem realizar de forma bem intensa, novamente quase decidiram a partida. Pode ter sido apenas uma partida ruim? Claro que pode. Mas uma partida ruim, numa competição mata-mata, pode ser a diferença entre se classificar para a próxima fase ou ser recebido no aeroporto pela torcida portando faixas que dizem “fora jogador x e jogador y pois são comédia”.


Começando pelo duelo contra o Sport, no próximo domingo, o Flamengo tem uma série de 3 jogos contra times em momentos ruins ou posições modestas no Campeonato Brasileiro, todos dentro de casa, incluindo o jogo de volta contra a própria Chapecoense, até a partida decisiva da Copa do Brasil contra o Cruzeiro, em Belo Horizonte.


Ou seja, num cenário ideal, temos aí a possibilidade de chegar para a finalíssima não apenas consolidados no G6, como também classificados para as quartas de final da Sul-Americana, o que aumentaria ainda mais o moral da equipe e a confiança da torcida. Tudo depende agora da equipe e do treinador fazerem com que essas próximas partidas sejam mais animadoras e interessantes do que a de ontem, nem que seja apenas pra evitar que o torcedor rubro-negro tome medidas desesperadas, como começar a assistir Chaves na hora das partidas para conseguir ver alguma coisa com cara de novidade.