A importância de um Flamengo que faz a sua lição de casa

É fácil falar, vendo a partida de ontem entre o Flamengo e Atlético-PR, vencida por 2x0, que o Flamengo não fez mais do que a sua obrigação. E num jogo dentro de casa, contra um time que nunca esteve na briga pelo título, com o elenco carioca recheado de jogadores de seleção, como Guerrero, Diego, Éverton Ribeiro - enquanto o time paranaense, com Ribamar, Pavez, Zé Ivaldo, parecia a escalação de uma equipe do jogo PES em que a Konami não tinha autorização para usar os nomes de verdade dos jogadores. É inegável que a expectativa era, sim, de uma vitória segura do time da Gávea.

Mas se tem uma coisa que o Flamengo fez esse ano foi reverter expectativas, e foram poucas as vitórias seguras até então. Esse ano o Flamengo perdeu partidas que tinha a obrigação lógica ou ao menos a necessidade clara de vencer – derrotas que vão desde a humilhação contra o Vitória, até a não tão degradante mas ainda assim decepcionante derrocada diante do Grêmio, ambas na Ilha. E deixou escapar vitórias que poderiam ser decisivas na briga pelo título – e que vão desde o pênalti perdido por Diego contra o Palmeiras, até o gol perdido pelo mesmo Diego contra o Corinthians, passando por todas as derrotas na Libertadores. Isso sem contar todas as vitórias que poderiam ser tranquilas mas a equipe fez questão de transformar em montanhas-russas de emoção, mostrando que no sócio-torcedor do Flamengo existem os planos raça, amor, paixão, tradição, mas o plano “paz de espírito” ainda não está disponível.



E por isso é tão surpreendente ver o Flamengo tendo uma vitória tão tranquila diante de um adversário que, em outras ocasiões, já nos causou tantos problemas. Por isso é tão impressionante ver um Flamengo seguro na zaga, que não causa terror em sua torcida toda vez que a bola passa do meio de campo. Por isso é tão fascinante ver um Flamengo que, quando teve as oportunidades, matou a partida ainda no primeiro tempo, fazendo dois gols e praticamente resolvendo o jogo, em vez de fazer um gol e desistir do jogo, como costumava fazer, ou fazer dois e imediatamente levar um, trazendo a partida já morta de volta ao mundo dos vivos tal qual um white walker de Game of Thrones.

O Flamengo vem jogando o fino da bola? Ainda não. Mas ficou claro, até mesmo na fala de alguns jogadores, que agora a ideia não é exatamente ter 99% da posse de bola e cercar totalmente o adversário - a proposta interessante, mas nem sempre tão bem sucedida do período Zé Ricardo. O objetivo agora é um futebol que ofereça primeiro segurança defensiva, garantia de que não vamos tomar gols, e conte com o talento individual e a movimentação dos atacantes para resolver lá na frente. Ou seja, ainda não é Flarcelona, talvez não seja Flarcelona tão cedo, mas começamos a ver surgir um Flamengo mais equilibrado, mais organizado, mais seguro, menos interessado em beneficiar a máfia dos planos de saúde causando graves condições cardíacas na sua torcida.

E talvez seja exatamente dessa segurança e desse equilíbrio que o Flamengo precisa. Precisa para superar a Chapecoense pela Sul-Americana, precisa para vencer o Cruzeiro na final da Copa do Brasil, precisa até para, quem sabe, ainda alcançar o Corinthians na disputa por esse Campeonato Brasileiro. Afinal, um Flamengo mais tranquilo, que tivesse conseguido ser decisivo apenas nesses 4 jogos do Brasileirão que citei anteriormente, estaria apenas 4 pontos atrás do Corinthians, e não 15, como está agora. E bem, se eles decidiram ser o time que perde em casa para adversários improváveis, nós talvez estejamos ficando prontos pra ser o time que aproveita bem as chances e vence os jogos tranquilos de vencer. Fácil não parece, mas com certeza impossível não é.