Flamengo é grande demais para pensar tão pequeno assim

A verdade é que nunca quisemos tanto acreditar num projeto de Flamengo. A diretoria que organizou as finanças, pagou dívidas e concluiu CT. O departamento de futebol que fez grandes contratações e deixou claro que a Gávea é, sim, um sonho de consumo para jogadores de alto nível. O treinador que veio da base, conhece o clube, cujo trabalho está sendo abordado com paciência, não sendo descartado após a primeira série de resultados negativos.


Mas, como vem ficando mais claro a cada derrota ridícula, a cada empate frustante, a cada eliminação dolorida, um time campeão precisa de mais do que isso. Não que segurança financeira, grandes contratações e estabilidade para o treinador não sejam passos importantes num caminho de vitórias, mas eles não são, em hipótese alguma, garantia de nada, certeza de nada. São apenas elementos que tornam esse processo mais fácil, que aumentam as possibilidades de sucesso, mas não caixinhas que, se 'ticadas', garantem conquistas e levam naturalmente ao sucesso. Não representam uma direção que, quando colocada no Uber do futebol, tudo que você precisa fazer é se acomodar e esperar chegar a um destino chamado “títulos”.


E exatamente isso que o Flamengo não pode nunca fazer: se acomodar.


Não pode se acomodar com discursos como “esse empate dentro de casa é aceitável”, “essa derrota é normal num campeonato longo”, “o rival é muito mais forte”. Porque, claro, empates acontecem, derrotas existem, vamos enfrentar times mais fortes. Mas para ser campeão você precisa não aceitar esse empate, transformar essa derrota em virada, pegar o time mais forte e ao menos naquele dia ser mais forte do que ele.


Getty Images
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Falta hoje ao Flamengo, tanto ao time quanto à diretoria e até uma parte da torcida, essa capacidade de não se conformar. Não se conformar com G4, não se conformar com dominar o jogo e perder, não se conformar com Márcio Araújo ou Rafael Vaz titulares - e não falo deles como jogadores isolados, falo como exemplo da mediocridade disfarçada de "opção tática" ou de "melhor jogador que temos hoje". Não se conformar com tudo nesse time, nesse clube, que é bem menos do que precisamos para ser campeões. E é isso que o Flamengo precisa sempre almejar: ser campeão.


Não porque seja possível ser campeão todo ano, não porque é "obrigação", mas porque é a única meta possível quando você tem a grandeza do Flamengo - ainda mais quando essa grandeza se reflete no investimento financeiro envolvido. O Flamengo precisa estar sempre inconformado em qualquer situação em que não lidere, em que não vença, em que não domine. Não por presunção, não por se achar superior, não por falta de respeito aos outros clubes e seus projetos, mas porque isso é e precisa sempre ser o Flamengo.


Temos um hoje uma diretoria que parece satisfeita com o G6, um treinador que parece ter aceitado há um certo tempo que o time não briga pelo título, e isso se reflete num grupo que, ainda que muito talentoso, parece acomodado com os resultados e incapaz de decidir nas horas em que se faz necessário. E isso não vem de quarta contra o Santos, não vem de mês passado contra o Palmeiras, isso vem de um Flamengo que foi eliminado da Libertadores perdendo todas as partidas fora de casa, num grupo em que o Atlético-PR se classificou, e considerou isso apenas um “tropeço”, o que é mais ou menos tão absurdo quanto considerar a inundação do continente perdido da Atlântida apenas um “problema de encanamento”.



Não podemos nos conformar com isso. Isso não é o bastante, isso não é o que merecemos e podemos. Isso não é Flamengo. E talvez só quando cada um de nós perceber isso, desde a torcida até a diretoria, possamos voltar a fazer o que o nosso hino diz. E ele diz "vencer, vencer, vencer". Ele não diz "perder de virada jogo que já parecia decidido, ganhar de time fraco pra dar alívio pro técnico, empatar quando podíamos vencer e aí elogiar o resultado fora de casa".


Precisamos ser mais do que isso. Precisamos ser maiores do que isso. Precisamos ser mais Flamengo do que isso.