Sobre futebol, seres humanos, e nossa torcida dentro e fora dos campos


É comum esquecer que jogadores de futebol são seres humanos. Por mais absurdo que pareça, por mais que poucas coisas sejam mais claramente humanas do que o esporte, por mais que a FIFA com certeza proíba a utilização de outros animais em campo e aqueles filmes da série “Bud” com o cachorro que joga futebol e basquete não se sustentem na vida real, pode parecer divertido mas é tudo mentira aquilo.


Ainda assim acontece. Pela nossa relação passional com o futebol, pelo abismo financeiro que separa o cidadão normal dos jogadores de elite, pela própria maneira como a mídia retrata os atletas profissionais, acabamos esquecendo que dentro do campo não estão máquinas, não estão super-humanos, estão pessoas como eu e você que acordam todo dia, se despedem de sua família, vão para o trabalho, e são diferentes de nós apenas pelo tanto que recebem para fazer isso e por terem um trabalho um pouco mais emocionante, mais bem pago e que os leva a ter mais chances de estrelar uma propaganda de xampu anticaspa.


O craque que perde o pênalti é apenas uma pessoa e inevitavelmente vai errar como qualquer pessoa erraria, o volante desatento ainda é mais concentrado do que você que passou duas horas preenchendo a planilha errada, o zagueiro horrível que já entra em campo vaiado erra porque reage basicamente como você reagiria se entrasse numa reunião com todo mundo gritando “UHHHHHH, FORA ROGÉRIO DA CONTABILIDADE, TEM QUE IR PRA RUA, QUEREMOS CONTADOR, QUEReMOS CONTADOR”. Como eu disse, são todos seres humanos, com vidas humanas e problemas humanos.


E isso nos leva a Éderson, talvez um dos jogadores mais humanos desse elenco rubro-negro. Contratado para ser o nosso novo camisa 10, ele chegou ao Flamengo recuperado de uma grave lesão, que o havia tirado de campo por meses e, durante sua trajetória no clube, sofreu 3 novas lesões que o tiraram de campo por longos períodos, quase sempre, ironicamente, logo que estava pegando ritmo de jogo ou começando a se destacar novamente na equipe.


Mas ele nunca desistiu. Após cada lesão lá estava Éderson de novo treinando, se recuperando, sempre com a intenção de voltar ao time, de contribuir com o clube. Nos acostumamos a nos preocupar com o camisa 10, a torcer por sua recuperação, a esperar que ele voltasse, a, durante as partidas, torcer de maneira especial para que ele não se envolvesse em nenhum choque, acidente ou jogada mais ríspida.


Gazeta Press
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Mesmo Éderson sendo um cara grande, com futebol que era muito focado no físico e na velocidade, foi talvez o fato de ser tão humano e suas fragilidades estarem tão aparentes que fez com que tantos torcedores simpatizassem com ele. E o fato de nunca desistir, claro. Por mais que se lesionasse, por mais que dependesse de tempo para voltar, nunca se ouviu nada sobre Éderson fazer corpo mole, Éderson tumultuar o ambiente. O nosso camisa 10 estava lá, lutando, numa jornada constante para voltar a realizar seu trabalho e levar normalmente sua vida.


Vida essa que colocou outro desafio no caminho de Éderson, dessa vez na forma de um tumor no testículo, cuja gravidade ainda é impossível de prever, mas que garante, mesmo no cenário mais otimista, mais alguns meses de afastamento do futebol para o camisa 10 do Flamengo.


E mais uma vez, como fizemos desde sua chegada, vamos todos torcer por Éderson. Torcer tanto pelo jogador, que sempre se dedicou em campo e nas chances que teve mostrou que pode contribuir muito com o Flamengo, quanto pelo ser humano Éderson, um homem que vem superando desafio após desafio para trabalhar com o que ama, dar orgulho para seus filhos, atingir seus objetivos no futebol.


E como fez com todos os seus problemas físicos, que foram desde rompimentos de tendão até rupturas de ligamentos, ele vai superar mais essa situação, passar, nem que seja na base da ombrada, por mais esse duro marcador que a vida colocou no seu caminho. Porque sim, jogadores de futebol são apenas humanos, como todos nós, mas é muito pela sua capacidade de superar obstáculos que parecem intransponíveis, buscar forças onde achamos que não existem, achar soluções quando tudo parece impossível, que muitas vezes imaginamos que eles sejam um pouco mais do que isso.


Força, Éderson, todos nós, tanto flamenguistas como não-flamenguistas, estamos com você.