A louca noite em que o Flamengo redescobriu a América

Como dizia a sábia letra de um pagode, certas coisas são “pra sentir, não pra entender”. E o mesmo pode ser dito da partida de ontem em que o Flamengo, fora de casa. Abriu o placar contra o Palestino apenas para levar uma virada e aí então aplicar uma sonora goleada, permitindo que a formação mista da nossa equipe trouxesse de volta para o Brasil uma vantagem de três gols.


Como racionalizar uma partida em que Leandro Damião faz um golaço de letra tão plástico que conseguiu girar o corpo ainda a tempo de ver a bola que ele chutou batendo nas redes? Como explicar uma noite em que você olhava para a escalação do Flamengo e não via Márcio Araújo entre os titulares e nem mesmo no banco, o que talvez tenha levado Zé Ricardo a carregar uma foto de nosso volante em sua carteira para não sofrer de abstinência? Como descrever para seus filhos pequenos a emoção de ver Rafael Vaz não apenas fazendo um gol, como não sendo contra e não desencadeando o apocalipse.


Na jornada louca vivida no Chile, o Flamengo levou o torcedor da irritação com o jogo morno até a alegria pela vantagem no placar, seguido do terror de viver novamente uma virada bizarra diante de um time estrangeiro, para só então resolver o jogo e criar um placar que, visto de longe, reflete a superioridade da equipe rubro-negra, mas não os momentos de suspense, tensão e confusão vividos pelo torcedor, que está até agora tentando entender todas as coisas que Berrío chutou na jogada do segundo gol, da bola até a grama, adversários e talvez colegas de trabalho.


Getty Images
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Mas ainda assim, mesmo com o placar dilatado, o Flamengo deu apenas um dos passos que ainda precisa se quer mesmo conquistar essa Copa Sul-Americana. Afinal, como todo bom torcedor sabe é que o Flamengo não sabe lidar com vantagem, ainda mais contra time estrangeiro e em uma partida decidida dentro de casa. Flamengo combina com luta, dedicação, coragem, suor e jamais com salto alto, e todas as vezes em que tentamos essa combinação tivemos resultados negativos e traumatizantes, que fazem esses filmes de terror envolvendo cabanas terem um significado duplamente assustador para todos nós.


Outro motivo, e que talvez sirva para manter os pés no chão mesmo após a goleada, é a clara fragilidade da equipe do Palestino, que parecia ser composta basicamente por um misto de jogadores cansados demais para sair do clube ou jovens demais para poderem desobedecer suas mães e procurar alguma outra coisa pra fazer na noite de ontem. E ainda assim fomos capazes de sofrer dois gols dos caras, em falhas que não podem se repetir contra times cujos titulares já puderem votar ou tirar carteira de motorista.


Ainda assim, é merecida a comemoração pela goleada. Não só pela vantagem que ela oferece, o que garante uma certa tranquilidade ao Flamengo, como também pela oportunidade de rodar a equipe, dando ritmo de jogo para atletas que estavam na reserva ou precisam ainda atuar mais, além de elevar a confiança do time para o clássico contra o Vasco, sábado, mais uma etapa importante da caminhada rubro-negra no Campeonato Brasileiro.


Após uma despedida traumática, o Flamengo reencontrou a América e ficou claro que, se a equipe souber se comportar, o continente não é tão assustador quanto parecia e pode ser dessa campanha que virão as lições para um futuro título da Libertadores. Parece um pouco precipitado? Talvez. Mas num mundo em que Rafael Vaz faz um gol pelo Flamengo, eu acho nada mais do que justo acreditar que tudo é possível.