Por que a Sul-Americana é importante demais para o Flamengo

Que o Flamengo precisa entrar em todas as competições para ganhar é algo que nem precisa ser dito. Seja algo grande como o Campeonato Brasileiro, seja algo menor como um turno do Campeonato Carioca, seja algo confuso como a Primeira Liga, que você não sabe se acabou, se continua, pode estar acontecendo agora, você pode estar disputando a Primeira Liga nesse momento e nem sabe, acabou de vencer, parabéns, você é o Campeão da Primeira Liga.

Em suma, onde existe uma camisa do Flamengo, existe a responsabilidade de ao menos lutar de todas as maneiras para ser o primeiro, seja num Mundial Interclubes, seja você e um adolescente com camisa do PSG correndo para ver quem chega primeiro e ocupa o último lugar no elevador lotado. Se você deixar o garoto entrar antes, você sabe que o Zico, em algum lugar, vai se sentir decepcionado.

E só isso já seria motivo o bastante para que o Flamengo encarasse com toda a seriedade possível o duelo dessa quarta-feira, contra o Palestino, válido pela segunda fase Copa Sul-Americana. Mas mais do que a obrigação natural, mais do que a recompensa financeira, o Flamengo tem alguns motivos extras para querer mais ainda vencer a segunda maior competição do continente.

Entre eles, necessidade urgente do Flamengo de conquistar novamente a América. É muito pouco para um clube da dimensão do nosso ter como maior conquista depois do Mundial de 1981, uma Copa Mercosul, em 1999, vencida com gols de Caio Ribeiro e Lê, por mais que possamos imaginar que ao menos ajudamos Caio a ouvir “Last Kiss” naquela noite. Um clube de torcida mundial, com as proporções de uma nação, não pode se contentar com desempenhos continentais que variam entre o decepcionante e o absolutamente constrangedor, como vem acontecendo com o Flamengo, cujas participações na Libertadores parecem mais destinadas a gerar memes para os torcedores rivais do que alegrias para o torcedor rubro-negro.


Gazeta Press
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Se nossa ambição é novamente ganhar o mundo, primeiro precisamos ganhar a América. E se nosso anseio é a Libertadores, não existe laboratório melhor do que a Copa Sul-Americana. Ainda que considerada uma “prima pobre” da Liberta, a Sula oferece a oportunidade de jogar contra alguns dos maiores times do continente, preparar a equipe para a pressão dos confrontos contra estrangeiros, além de ser um excelente termômetro da capacidade da equipe de disputar a Libertadores do ano seguinte – veja o River Plate, campeão da Sula em 2014 e logo depois campeão da Liberta em 2015.

E se você lembrar que até bem pouco tempo as únicas derrotas do Flamengo na temporada haviam sido nos 3 confrontos fora de casa pela Libertadores, fica muito claro o quanto a equipe precisa dessa preparação e o quão importante um título da Sul-Americana pode ser não apenas para essa equipe, mas também para lembrar ao continente que, sim, somos o Flamengo, estamos aqui, não somos um clube só do Rio, não somos um clube só do Brasil, somos um clube do mundo e nossas metas não podem ser menores do que isso.

E, claro, precisamos aproveitar a chance que o destino nos deu de enfrentar de novo o Palestino. Porque ainda que a eliminação ridícula na Libertadores desse ano possa ter nos feito esquecer, foi exatamente contra esse mesmo Palestino, uma equipe chilena cujo título mais recente data de 1978 e cujo principal craque possivelmente recebe menos de salário do que o Pará gasta com a manutenção mensal de seu corte de cabelo, que sofremos uma patética derrota ano passado, sendo eliminados dessa mesma Copa Sul-Americana, um fracasso que não tem nada a ver com a postura que se espera do Flamengo, mas tudo a ver com a falta de capacidade que temos mostrado para encarar os desafios das competições internacionais.

Portanto, se essa Sul-Americana é uma chance do Flamengo de mostrar que pode conquistar o continente, de reencontrar o caminho dos títulos internacionais que a geração de Zico abriu e as gerações seguintes falharam em manter, nada melhor do que de cara já superar um trauma recente e mostrar que mudamos, crescemos, aprendemos. Seja com o time titular, seja com time misto, seja com reservas – que em alguns casos poderiam ser titulares em vários outros times do Brasil -, o Flamengo precisa, nessa quarta-feira, começar a reencontrar o caminho das vitórias na América do Sul. Afinal, se conseguimos com Caio, Lê e Rodrigo Mendes, acho que não é nada impossível conseguir com Diego, Guerrero e Éverton Ribeiro.