Ficou impossível defender o Flamengo

O flamenguista é, acima de tudo, um otimista. Somos a torcida que transforma um Obina num Eto’o, os alucinados que lotam aeroportos para abraçar jogadores que nem estrearam, os românticos que veem em cada vitória mais bonita um passaporte direto para a final do Mundial. O que muitos chamam de presunção, o que muitos veem como excesso de confiança, é apenas a verdade óbvia de que torcer é acreditar e, se você não acredita que o seu atacante é o melhor, que vale buscar seu reforço quando ele chega, que seu time pode ser o maior do mundo, então nem faz sentido torcer.

E por isso em 2017 acreditamos. Um time que havia brigado pelo título brasileiro ano passado, um jovem treinador promissor, alguns reforços interessantes, uma Libertadores pela frente. No começo do ano parecia que o céu seria o limite para o Flamengo. Mas após a eliminação humilhante na competição sul-americana e a derrota patética de ontem no Campeonato Brasileiro, ficou claro que é a hora de deixar o otimismo de lado e reconhecer que o Flamengo tem problemas graves. Vários deles.

Coletivamente, o time não joga. A defesa é uma bagunça, a saída de bola é inexistente, a movimentação no meio de campo só acontece porque os jogadores sabem que se não se mexerem por 24 horas serão dados como mortos e não receberão mais salário. Não existe variação tática a não ser em momentos de extremo desespero, o que significa que o Flamengo está no já manjado "4-3-3" de 2016 ou então está numa espécie de bumba-meu-boi com 6 laterais, 3 atacantes, um gandula cruzando pro Guerrero disputar com 6 zagueiros.


Gazeta Press
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Individualmente, a situação de alguns jogadores também se tornou insustentável. Muralha vem falhando de tal forma que seu apelido, antes um elogio, agora virou uma ironia, como quando chamam o amigo baixinho de “gigante” ou você chega atrasado e seu chefe fala “boniiito, hein?”. William Arão, que já foi um destaque da equipe hoje, é aquele nome que você ouve na escalação do time e vira a cerveja de um gole só. Isso sem falar em Márcio Araújo, que segue titular mesmo mantendo seu estilo “toco e me voy esconder atrás de outro jogador para não dar opção na saída de bola” de jogar.

Diante disso, por mais que alguns aspectos sejam culpa do planejamento errado do departamento de futebol - não termos um reserva confiável para Muralha, todo o tempo que ficamos sem um substituto para Diego -, muita coisa precisa, sim, ir para a conta de Zé Ricardo, que é quem treina, escala e comanda o time na beira do campo.



E a situação de Zé, ao menos no momento, é insustentável. Apegado demais a um jeito de jogar que não vem funcionando e confiando demais em jogadores dos quais nenhum de nós jamais aceitaria ser fiador num conjugado na zona sul, cabe a Zé Ricardo tomar alguma atitude drástica para mostrar que ainda quer ser técnico do Flamengo e que o Flamengo, com ele como técnico, ainda pode brigar por alguma coisa - por mais que olhando para o Zé você imagine que o conceito de “atitude drástica” dele envolva algo como “dar mais liberdade pro Márcio Araújo atacar”.


Se o Flamengo no papel e na planilha é um grande time, já passou da hora de ser também dentro de campo. E se as pessoas que estão nesse time, dentro e fora de campo, não mostrarem que estão dispostas a isso, pode ter chegado a hora de procurar pessoas novas pra essa tarefa.

Essa torcida merece ter motivos para continuar otimista.