Flamengo: não é hora de procurar culpados (mas a culpa é do Zé Ricardo)

Se você quiser, pode justificar. Pode falar em grupo da morte, pode falar em vacilos pontuais, pode citar a ausência de Diego, a pressão de jogar na argentina, o abalo emocional que o Mateus Sávio deve ter sofrido ao saber da instabilidade política pela qual o Brasil passou nessa quarta-feira - talvez tenham até citado o Gabriel numa delação premiada. Você pode mencionar os méritos do adversário, falar que foi azar, que é coisa que acontece, que agora é bola pra frente e que ser eliminado numa Libertadores não é vergonha nenhuma.


Mas sejamos francos: é vergonha, sim.



Por mais “grupo da morte” que fosse, o Flamengo era o clube de maior investimento, com o melhor elenco. Chegou até a rodada final liderando o grupo, precisando de um empate fora de casa, abriu o placar e até os 30 minutos do segundo tempo estava vencendo a partida e se classificando com tranquilidade. O que houve então foi que, pura e simplesmente, o Flamengo se acovardou.


Ao tirar dois atacantes para colocar um volante e um zagueiro, Zé Ricardo não apenas abriu mão de qualquer possibilidade de ataque, como abraçou completamente a narrativa da tragédia anunciada que é um Flamengo recuado tentando sustentar um resultado na defesa. Sem opções de saída de bola, sem maneiras de manter o jogo no campo ofensivo, o rubro-negro se colocou na situação de apenas dar bicos pra frente e esperar o jogo acabar, posição essa que, historicamente, nunca rendeu grandes frutos ao time da Gávea.


E daí a noite que poderia ser de classificação tranquila se tornou de vergonha histórica. O gol de Rodinei que poderia ser mais um grande momento da boa fase do lateral se tornou o trailer antes de um filme muito triste. A vitória que poderia ser mais um importante momento de afirmação de Zé Ricardo no comando do Flamengo se tornou possivelmente o maior sintoma até agora de que talvez o nosso atual treinador não esteja preparado para a grandeza do clube e o tamanho das competições que serão disputadas.



Porque, por mais que a eliminação do Flamengo possa ser creditada a uma série de fatores, que vão desde erros individuais nossos até méritos do adversário, está claro que ela passa por uma questão principal: a postura da equipe. Postura essa que, mais do que responsabilidade dos atletas, que pareciam estar tentando tudo que podiam, passou pelas decisões do treinador, que conscientemente preferiu o caminho da covardia e do medo quando poderia ter optado pela coragem e pela busca pela vitória. Não falo que Zé Ricardo deveria ter tirado Muralha e colocado um atacante para buscar uma goleada, mas não havia necessidade de, ainda vencendo, recuar o time da maneira que foi feita.


É hora de demitir Zé Ricardo? Admito que estou muito ocupado procurando foices no Mercado Livre e jogando a rota mais curta para a Gávea no Google Maps para responder. Mas está claro que o Flamengo precisa de uma mudança de rumo e que ela envolve mais coragem, mais capacidade de decisão, menos Gabriel, menos sentar em cima do resultado até ele evaporar em nossas mãos. O trabalho tem bons aspectos? Claro, tem, mas derrotas como a dessa quarta-feira são muito vergonhosas e muito simbólicas para que não gerem nenhum tipo de repercussão séria na maneira como o futebol funciona no Flamengo.


O Flamengo é grande, o Flamengo é imenso, mas precisa se portar como tal. Não aprendemos essa lição diante do América do México, não aprendemos essa lição diante do Palestino, então é preciso que finalmente ela seja aprendida agora com o San Lorenzo. A torcida merece mais, o time é capaz de mais e, se Zé Ricardo quiser continuar, terá que mostrar que também consegue fazer muito mais.