O que o clássico que não valeu nada ensina para o jogo que vale muito

Que o jogo não valia nada todo mundo sabia. Sendo uma semifinal de Taça Rio quando a Taça Rio não altera o campeonato e as semifinais do Carioca foram definidas uma semana antes, o único jeito de valer menos seria se o campeonato já estivesse decidido, possivelmente numa rodada de par ou ímpar melhor de cinco entre o presidente da FERJ e um torcedor escolhido através de sorteio num programa de rádio. E sim, estou brincando mas essa pode acabar sendo a nossa fórmula no ano que vem, se acontecer vocês viram primeiro aqui.


Ainda assim, o jogo tinha sua importância. Considerado como preparação para a partida de quarta-feira, contra o Atlético-PR, essa semifinal seria o laboratório onde Zé Ricardo nos mostraria com quanta bola está o Flamengo que precisa vencer no meio de semana se quiser se classificar com tranquilidade para a próxima fase da Libertadores. E bem, se nós empatamos em 0x0 e um dos melhores em campo foi o Márcio Araújo, você tem uma certa ideia de como foi.


Gazeta Press
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Mas vamos começar falando do que aconteceu de bom na partida de sábado: Donatti se saiu melhor do que Rafael Vaz. Eu sei, eu sei, isso não é grande coisa e não prova nada além do fato de que o argentino é um ser humano dotado de coordenação motora nível básico e a capacidade de distinguir pela cor da camisa quem é do seu time ou não, mas ao menos sabemos que, se no próximo jogo estiver tudo empatado até os 35 do segundo tempo, acontecer aquela falta lá na frente, não vamos ver o Vaz tentando convencer o Diego a deixar essa pra ele porque “agora vai”. Futebol também é comemorar as pequenas alegrias.


Já o que deu errado foi basicamente todo o resto. O Flamengo teve a posse de bola? Teve, claro. O Flamengo comandou as ações? Rapaz, comandou demais. O Flamengo acuou o adversário, que ficou apenas no contra-ataque? Só fez isso, irmão. Mas o Flamengo usou esse protagonismo para criar chances claras e decisivas de gol? Definitivamente não, e esse é o problema.


O Flamengo não é em hipótese alguma um time ruim, e não se pode dizer que ele joga “muito mal”, mas ele vem se mostrando, em várias partidas contra times grandes, incapaz de criar jogadas que não dependam exclusivamente de lampejos de Diego, de bolas paradas ou de situações aleatórias como “Everton gritou OLHA LÁ UM DISCO VOADOR e a zaga adversária parou pra olhar e o Guerrero entrou livre”. A saída de bola não dá opções - possivelmente porque Márcio Araújo, mesmo sendo um bom roubador de bolas e eficiente nos passes, gosta de brincar de pique-esconde quando o time tem a posse -, as jogadas de ultrapassagem pela ponta não acontecem e o nosso meio de campo é o único lugar do mundo onde Diego, considerado universalmente um homem muito bonito, não consegue achar nenhum tipo de companhia interessante quando quer fazer alguma coisa.


E quarta-feira vamos precisar de mais do que isso, mais do que rodar a bola, mais do que chuveirinho desesperado na área pro Guerrero brigar contra zagueiro, mais do que “dominamos o jogo, mas a bola não entrou” dito como se realmente fizesse alguma diferença ter 70% de posse de bola, quando a maior parte dessa posse é “Márcio Araújo tocando de lado com aparência assustada”. Quarta precisamos do Flamengo que cria jogadas, que tem repertório, que usa outros botões do controle além de x e bolinha. Porque, se o que vimos sábado foi uma pré-estréia, o filme de quarta-feira tende a não ser dos mais divertidos.