É hora de chamar Zé Ricardo para conversar

Gazeta Press
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Sempre tive muita simpatia pelo Zé Ricardo como treinador do Flamengo, pelas mais variadas razões. Existe a mística rubro-negra óbvia do interino identificado com o clube que chega pra botar ordem na casa após o técnico famoso falhar, como já fizeram Jayme, Andrade, entre outros. Existe também a vantagem prática de ter um técnico promissor de baixo custo num mercado em que, se você não tem Tite ou Cuca, vai ter que escolher entre um treinador que vive de passado (Luxemburgo, Abel Braga) ou um treinador que nem passado direito teve (Ney Franco, Cristóvão Borges).


Mas o que eu sempre mais gostei no Zé é o fato de que ele tinha uma visão do que ele queria pro time. Mais do que um treinador que distribui colete e berra palavrão na beira do campo pra dar trabalho pro técnico de som da Globo, o técnico do Flamengo sempre pareceu ter uma ideia de time que era ofensiva, corajosa e que ele estava trabalhando pra implementar. Ou seja, Zé sempre me passou a impressão de ser um homem com ideias firmes, que sabia o que queria. E isso sempre me pareceu uma qualidade. Até que se tornou um defeito, claro.


Porque cada vez mais fica óbvio que esse apego do Zé com as próprias ideias tende a ser um dos piores inimigos não apenas dele, como do próprio Flamengo. Primeiro pela dificuldade para adaptar o estilo de jogo da equipe quando o 4-3-3 não funciona, como aconteceu várias vezes não apenas na reta final do Brasileirão 2016 como também esse ano. Ainda que seja o esquema para o qual ele montou o elenco e aquele que ajudou a tirar a equipe da bagunça que ela parecia ser na era Muricy, é preciso aceitar que nem sempre essa tática vai se encaixar, ainda mais agora que todos sabem que é assim que o Flamengo joga e que, mesmo se todos os pontas do mundo morrerem de forma misteriosa, o Zé vai preferir improvisar o Juan aberto no ataque a mudar o esquema tático.


E não só a tática, mas a insistência de Zé nas escalações também. Sei que não vemos os treinos, sei que não acompanhamos o dia a dia da equipe, mas o que precisa estar acontecendo para que a melhor opção de dupla para Réver ainda seja Rafael Vaz? Léo Duarte é um holograma? Juan é um viajante do tempo vindo do passado e não pode alterar os eventos do presente porque isso destruiria o futuro? Donatti na verdade é apenas Wallace usando uma máscara e fingindo um sotaque portenho porque a vida é um imenso pesadelo? Poucas situações justificariam a permanência de um zagueiro que não apenas erra na defesa, como parece cada vez mais motivado a dar assistências para os atacantes adversários na saída de bola.


Confio muito no Zé Ricardo e acredito que ele, sem dúvidas, ainda é a melhor opção atual para treinar o Flamengo, mas parte do trabalho do treinador é manter o time em constante evolução, substituindo as peças que não funcionam, procurando novas maneiras de jogar, aproveitando a melhor peça e a melhor formação no melhor momento. Zé tem planos, como todos nós temos, mas para atingir o plano maior, que é vencer, talvez ele precise mudar alguns dos planos menores, entre eles esses que envolvem manter o reflexo de sua teimosia em campo.