Se era um teste, Flamengo foi reprovado

EFE
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A Libertadores é uma competição como todas as outras. São 11 contra 11, a bola é redonda, tem torcida, só o cara no gol pode pegar a bola com a mão, o tio que fica no apitinho é o juiz, se morder o coleguinha a tendência é ser expulso.


Mas, ao mesmo tempo, a Libertadores é um campeonato diferente de todos. O clima de tensão é outro, o critério da arbitragem muda, o volume de cães invadindo o campo é muito maior, existe a famigerada “catimba”, arte praticada em todos os países da América do Sul mas curiosamente não no Brasil, segundo nossos narradores. E, claro, uma diferença principal, que não é exclusiva da maior competição da América, mas que nela pesa muito mais: não se pode dar mole.


E quarta-feira o Flamengo deu mole. Deu muito mole. Assim, numa escala Richter do mole, que fosse de 0 a 10, o Flamengo teria atingido um 14,3, que equivale mais ou ao menos a clicar no banner “mulheres solteiras querem conversar com você agora” que fica ali na beiradinha do site de pornografia logo depois de sacar seu FGTS e contar nota por nota sentado numa calçada na vizinhança da Central do Brasil. Como eu vinha dizendo, muito mole.


Deu mole exatamente porque jogou melhor. Dominou o primeiro tempo, teve o controle das ações e algumas chances claras de gol que poderiam ter definido a partida. Diego comandava o meio de campo, Márcio Araújo, a surpresa de Zé Ricardo para a partida, cobria muito bem a zaga, Guerrero atuava com uma intensidade e um volume de sangue nos olhos que deveria estar vendo o mundo mais vermelho que o Ciclope dos X-Men. Quando o time desceu para o intervalo, parecia que era apenas uma questão de tempo até o gol sair, e o jogador mais perigoso da Universidad era o meia chileno Rafael Vaz, que já havia deixado um atacante na cara de Muralha numa fantástica oportunidade de gol.


Mas aí o segundo tempo aconteceu. E não que o time chileno tenha evoluído significativamente, já que o Flamengo continuou criando boas chances e mais uma vez poderia ter matado a partida em ao menos duas oportunidades, mas é nessas horas que a bola pune e não apenas pune como se lembra do audiobook de “50 tons de cinza” que ganhou da afilhada no Natal e resolve punir com requintes de crueldade. O gol de Santiago Silva, seguido da expulsão confusa e bizarra de Berrío, selaram a derrota de um time que jogou melhor, criou mais, mas esqueceu que um segundo de distração pode te custar 3 pontos e pesar muito lá na frente.


Existem motivos para desespero? Não. O Flamengo tem um bom time, jogou bem, mesmo fora de casa, e acredito que seja capaz de somar os hipotéticos 7 pontos que faltam para chegar na próxima fase. Mas, ainda assim, a partida deixa um gosto amargo na boca, não apenas em virtude do quanto ela esteve em nossa mão, mas também dos problemas que ela aponta, que vão desde uma certa instabilidade emocional, como nos casos de Guerrero e Berrío, até uma incapacidade de matar o jogo quando necessário - sem falar da questão de que talvez Juan, Donatti, ou mesmo duas crianças uma em cima da outra usando um sobretudo, estejam em melhor fase do que Rafael Vaz.

Amanhã o time volta a campo pelo Carioca e aí emenda uma série de jogos contra Resende, Bangu, Volta Redonda, Vasco e Fluminense. Mas eu sei, você sabe, todos nós sabemos que a principal atividade até o dia 12/4 vai ser remoer os erros dessa derrota e torcer pra que nada disso se repita. Existe um limite pro quanto de mole você pode dar se quer mesmo ganhar a Libertadores da América. Encontramos o nosso.