Pode viajar, Flamengo, os garotos tomam conta da casa

Eu sei, eu sei, um time grande ficar otimista por golear a Portuguesa da Ilha, uma das piores campanhas do já deprimente Campeonato Carioca é um pouco como um homem adulto ficar orgulhoso por ter conseguido tomar banho sozinho sem sofrer nenhum acidente. É uma equipe fraca tecnicamente, o aspecto tático deixa a desejar e o treinador chamado Nelson Rodrigues e o zagueiro com nome Pessanha apenas reforçam a aura de drama carioca e te fazem esperar algum crime passional no intervalo ou ao menos um grito de “eu sou ex-volante, mas você é um filho da puta”.


Gazeta Press
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Ainda assim, é possível, mesmo avaliando com frieza, tirar alguns saldos realmente positivos da partida. Damião voltou a marcar, com três gols de puro centroavantismo, mostrando que ainda se lembra que é possível colocar a bola pra dentro sem que seja numa cobrança de pênalti. Garotos como Thiago, Vizeu, Matheus Sávio e Ronaldo tiveram mais tempo em campo, com direito ao golaço de falta de Paquetá, que caminha rapidamente para se tornar xodó da torcida e ganhar algum apelido como “reserva dos gols bonitos”. E Juan, nosso zagueiro, com atuação sólida e passe de calcanhar pra gol, nos lembrou por que não apenas ainda pode ser útil ao grupo, como talvez investir na sua clonagem para termos uns 5 Juans na base pode valer mais a pena do que contratar novos zagueiros.


Diante disso, das exigências de uma Libertadores que pode durar o ano todo e de um Campeonato Carioca ao mesmo tempo confuso e não muito rentável, se torna cada vez mais interessante a possibilidade de disputar todas as partidas do estadual com essa equipe meio reserva e meio mista que usamos no último sábado. Com isso, conseguimos poupar titulares - imagine o drama se um zagueiro da Cabofriense tirasse, por exemplo, Diego de uma partida decisiva da competição internacional - e ainda dar rodagem para reservas, jogadores da base e atletas precisando de ritmo de jogo, como é o caso de Berrío.


E isso poderia continuar também pelo resto do ano. Estou falando que o Flamengo reserva tem condições de brigar no Campeonato Brasileiro? Não, não chegaria a um exagero desses. Mas acho que está claro que temos um grupo interessante e que o nosso time que atuou ontem, se organizado taticamente - Vizeu, que é centroavante de origem, estava atuando deslocado no lado de campo, por exemplo - não seria pior do que vários elencos que estarão na primeira divisão nacional.


Claro, o Flamengo precisa entrar em todas as competições que disputa pensando em vencer, pelo simples fato de que esse é o mínimo que se espera do Flamengo, mas acho que os garotos vêm mostrando que merecem confiança e podem, se bem organizados, disputar de igual para igual com vários times considerados grandes no nosso futebol. E ao menos pro Campeonato Carioca, uma competição esvaziada, bagunçada e cujo regulamento parece uma brincadeira criada por duas crianças muito hiperativas e confusas - “e aí tem a taça guanabara, aí tem a taça rio, mas aí as duas não valem, aí é pontos corridos, aí é mata-mata, aí tem o grupo x, aí todos jogam entre sim numa jaula com gorilas” -, o Flamengo reserva está de ótimo tamanho, mesmo para os clássicos, mesmos para as finais.