Em carta, conselheiro pede a renúncia de presidente do Figueirense

Após a derrota para a Luverdense, na terça-feira, o torcedor do Figueirense saiu do Scarpelli com uma mescla de sentimentos: tristeza, raiva, desilusão ou vontade de abandonar o alvinegro.


Alguns não querem mais acompanhar o time na atual fase (penúltimo lugar na Série B), enquanto outros, como o conselheiro Gabriel Shiozawa Coelho, preferiram decidiram tomar uma atitude.


Reprodução
Reprodução

Documento recebeu a aprovação de vários torcedores e conselheiros


Naquela mesma noite, surgiu a carta endereçada ao Conselho Deliberativo pedindo a renúncia do presidente Wilfredo Brillinger. Nela, diversos itens explicando os motivos.


Gabriel tem seus 20 e poucos anos. Conhecemo-nos quando fui levar uma ficha para fazer parte do novo Conselho Deliberativo do clube, em 2014. Naquele momento, houve uma abertura do clube e 55 novos conselheiros puderam integrar o órgão.


Ele é jovem, jornalista e muito bem articulado. O conselheiro explica ao blog Avante, Alvinegro o que o levou a pedir a saída do presidente e como vê a atuação do atual Conselho Deliberativo.

Como surgiu a ideia de fazer uma carta endereçada ao Conselho pedindo a saída do presidente?


A carta surgiu quase como um desabafo. No caminho pra casa depois do jogo [Figueira 2x3 Luverdense], cansado e revoltado com mais um resultado péssimo, com o acumulado do ano, fiquei com um sentimento de frustração e impotência. A torcida toda está vendo o Figueirense se esfacelar, num processo gradual e muito preocupante, que vai desde a ausência de planejamento nas contratações e os problemas financeiros, até o Scarpelli esvaziado, o que é, inclusive, o mais preocupante. A maior torcida do estado, tão vibrante e apaixonada, não aguenta mais tanto desrespeito e não comparece, seja pra torcer ou protestar. Fiquei com vários pensamentos como este martelando na minha cabeça. Quando sentei pra escrever, foi quase no piloto automático, pois o conteúdo já estava todo pensado. Sei que uma carta é muito pouco, ainda mais num ambiente difícil como é o do Conselho Deliberativo, mas ao menos espero que seja algo capaz de ajudar a incentivar um processo de unidade e mobilização da torcida e de conselheiros.


O papel do Conselho Deliberativo está sendo bem exercido pelos atuais conselheiros?

Acho que o Conselho Deliberativo (CD) em si tem problemas de composição. Há vários alvinegros ilustres, figuras históricas que certamente merecem cadeira no CD, mas a massa alvinegra, o povão - que é e sempre será a essência do Figueira, um time do povo -, não está representado em peso, pois há muitos obstáculos para sua participação efetiva. A cláusula de 8 anos ininterruptos de associação ao clube para se candidatar é uma delas, mas não a única. A participação vai além de uma cadeira. Saber quando as reuniões ocorrem, o que se discute, como os conselheiros pensam e agem é fundamental - o Conselho precisa de mais diálogo e transparência com a torcida. Não que os conselheiros não queiram estar próximos da torcida, mas é o modo como as coisas sempre foram feitas e é necessário mudar. Atualmente, o CD, de forma paradoxal, é muito pouco permeável às demandas dos torcedores, embora seja composto por torcedores.


Figueirense FC
Figueirense FC


Quanto ao atuais conselheiros, acho que é necessário fazer algumas separações. São mais de cem pessoas, com uma composição um tanto heterogênea, formando diversos grupos. O primeiro grupo é o dos sumidos - foram eleitos mas nunca aparecem. São 110 conselheiros eleitos (55 contribuintes e 55 patrimoniais), além dos beneméritos (ex-presidentes, figuras históricas), mas nesses 3 anos de conselho acredito que o presença máxima tenha sido de cerca de 80 conselheiros. Depois, há um grupo de acomodados: vão às reuniões, mas querem que sejam rápidas, sem debate e sempre votam com a situação. Atualmente votam com Wilfredo Brillinger, mas votariam junto com praticamente qualquer outro presidente, para evitar qualquer incomodação. Há mais três grupos, que protagonizam os debates dentro das reuniões:


1 - O "núcleo duro" do Wilfredo, que votará sempre com ele;
2 - A oposição, que vota pelo que acredita ser melhor pro clube, muitas vezes entrando em conflito com a situação - mas já votou junto a favor de certas medidas quando eram do interesse do Figueira, provando que não são pessoas "do contra" ou "baderneiras", como costumam dizer;
3 - O pessoal da conciliação. É a galera que tenta mediar os debates, propondo medidas que tentem contemplar situação e oposição. Na prática, no entanto, muitas vezes acabam aprovando e legitimando as políticas da situação. Esse setor de conselheiros, constantemente em disputa, é quem garante a maioria para situação ou oposição nas votações.


Destes três grupos, acredito que as pessoas cumpram boa parte do que se espera de conselheiros: debatem, se posicionam, votam de acordo com o que está em jogo. O Conselho, no entanto, enquanto entidade, não cumpre tão bem quanto deveria seu papel. Falta cobrança e um debate profundo sobre o projeto de Figueirense que se quer.


Sua expectativa ao entrar no Conselho tem sido alcançada ou se sente decepcionado com algo?

Decepcionado, certamente. Entrei no Conselho Deliberativo acreditando que debateríamos seriamente os rumos do clube, mas o que acontece na prática é que muita gente se furta ao debate, evita o confronto. Em qualquer âmbito, inclusive esportivo, política é conflito. Claro que sem qualquer tipo de violência e de forma respeitosa, mas é necessário debater de modo sério as divergências e não varrê-las pra baixo do tapete. Precisamos de discussão sem medo de discordar. Afinal, todos no Conselho são Figueira de coração e querem o que acham melhor para o clube.


Outra problemática que se repete muitas vezes é levar as coisas para o âmbito pessoal. As discordância são sobre as políticas para o Figueira, não sobre pessoas. Faço oposição ao presidente Wilfredo pois acredito que a gestão dele é danosa para o clube. Não tenho nada contra ele, não o conhecia antes de entrar no CD e nunca interagi com ele fora dos espaços institucionais do Figueira. Se a gestão se mostrasse positiva ao clube, não me oporia de forma alguma. No entanto, muita gente confunde isso e um dos modos de tentar calar vozes dissidentes - no Conselho e na torcida - é ir atrás das pessoas em vez de debater as ideias. "Ah, fulando vota contra porque quer isso", "ciclano faz oposição pra ganhar aquilo". Pô, para ser do Conselho, eu pago um valor maior de mensalidade, tenho que participar de inúmeras reuniões, me encho de incomodação e não tenho nenhum benefício que um sócio-contribuinte usual não teria. Não estou no CD pra ganhar nada e, se estivesse, estaria falhando miseravelmente. Uma importante figura na articulação da oposição, o Nikolas Bottós, foi constantemente alvo disto. Por ser quem mais fala contra o presidente, tornou-se visado, vítima de muita boataria. É algo que não pode acontecer num clube saudável e que conte com participação efetiva da torcida em seus rumos.


Muita gente diz que não há ninguém para assumir o Figueirense caso o Wilfredo saia. Como vê tal situação?

Olha, isso são mitos que surgem. Um mito relacionado é o do "presidente caneta-cheia", algo totalmente irreal. Primeiro que o atual presidente de maneira nenhuma é quem coloca dinheiro no clube e segundo que, mesmo que fosse, isto não é um pré-requisito. O presidente do clube deve ser alguém responsável, ético, preocupado com o clube, ligado à torcida e um gestor competente. O patrimônio pessoal do presidente é irrelevante, pois um bom presidente deve ser capaz de estabelecer uma política financeira séria, capaz de sanar dívidas, mantê-lo no verde e permitir investimentos. Aliás, um presidente que injeta dinheiro no clube é um risco, pois cria uma relação de dependência muito grande. Na hora que ele inevitavelmente sair, como vai ficar?


O "ninguém assume o clube" é outra falácia. O CD conta com uma variedade grande de pessoas competentes e responsáveis e, numa emergência, certamente o cargo não ficaria vago. Numa situação não emergencial - como as eleições em 2018 ou uma eventual saída do Wilfredo antes disto, por renúncia ou outro meio -, é mais garantido ainda que haveria, sim, gente qualificada e disposta a assumir o clube e garantir uma gestão séria e competente. Aliás, como já vi comentários no Facebook em relação a isto, já adianto: não sou uma destas pessoas. No momento não me sinto preparado, não tenho qualificação e não atendo o pré-requisito estatutário da idade mínima de 30 anos.


O que espera do Figueirense no futuro?

Espero que o clube volte a ter ambição de grandeza. Atualmente estamos parados e retrocedendo.


A década de 2000 foi a nossa década no estado - hegemonia no estadual, anos seguidos na Série A, boas campanhas na Copa do Brasil, maior público disparado. Sentimos muito perto o gosto de um título nacional de expressão em 2007, goleamos grandes times, quebramos tabu, derrotamos quem parecia ser imbatível, tínhamos chance de ganhar o Brasileirão em 2011 até as rodadas finais. Atingimos um patamar nunca visto antes em Santa Catarina. Rolavam conversas de Libertadores, de título em até 5 anos, de Arena. Tínhamos ambição, queríamos algo a mais, éramos temidos e respeitados. Lotávamos o Scarpelli com facilidade, não dava pra esconder o sorriso e o orgulho de cada alvinegro e alvinegra.


No entanto, de lá para cá, sucessivas trapalhadas e casos de incompetência foram nos reduzindo. Em vez de seguir crescendo, paramos e retrocedemos. Abandonamos toda a ambição do algo a mais para nos conformarmos com o pouco, a eterna briga contra o rebaixamento e pelo acesso. Num ano em que não fomos rebaixados no estadual porque o juiz inventou um pênalti contra o Almirante Barroso, fomos eliminados de maneira patética no Acre na Copa do Brasil e estamos com uma campanha preocupante na Série B.

O refúgio alvinegro é a nostalgia - ir pro YouTube rever o gol do Abimael, os 6x1 em cima do Palmeiras, Fernandes acabando com adversário, Edmundo fazendo gol a rodo, Clebão colocando o Robinho no bolso. Para além dos problemas financeiros e em campo, a atual gestão trata muito mal a torcida, o maior patrimônio do clube. Sem ambição, sem investir na identificação da torcida com o clube - indo contra, aliás, ao dar um tratamento indigno para ídolos como Fernandes ou Wilson -, sem planejamento de longo prazo, o clube se apequena, a torcida se afasta e ficamos perto de entrar num perigoso ciclo vicioso e entrarmos numa trajetória descendente como a da Portuguesa.


É difícil fazer futebol enquanto time médio, sim, mas sabemos que é plenamente possível se destacar. O Figueira mostrou como se manter na Série A por anos a fio e fazer boas campanhas mesmo com uma cota de TV ridiculamente abaixo dos times grandes tradicionais - fomos nós que conquistamos e mostramos isto não só para Santa Catarina, mas para todo o Brasil.


Não quero defender essa ou aquela gestão anteriores ou ficar me afundando em nostalgia. Acredito que o foco tem de ser o novo, o futuro. Precisamos de uma gestão competente, que respeite a história e a tradição alvinegra, que esteja conectada e em diálogo com a torcida, que tenha a ambição de levar o Figueira além, sem demagogia ou promessa vazias e irreais. O Figueirense pode mais, disto temos certeza. Cabe agora lutar para conquistar.