Figueirense e a busca pela identidade perdida

No início desta semana, o craque Alex (ex-Cruzeiro e atual comentarista da ESPN Brasil) escreveu um texto falando sobre a identidade e cultura dos clubes. Confira aqui.


Ali, ele discorria sobre Cruzeiro, Flamengo, Fluminense etc. Compartilhado pelo meu amigo Ian Pacheco, Alex respondeu no Twitter que é difícil brigar contra a cultura.


No mesmo dia 6 de junho, o Figueirense perdeu para o Internacional jogando bem melhor. Todo ataque, sofreu um contra-golpe e foi derrotado em casa. Para muitos, o treinador tinha culpa e não deveria ter agredido o adversário; para outros, o futebol apresentado deixa esperanças de um futuro interessante na Série B.


Entre eles, está o meu amigo Ian Pacheco. Ele é filho do saudoso Ney Pacheco, o melhor jornalista que vi falar sobre o Figueirense (dentro e fora de campo) nos últimos 20 anos.


Ian tem estirpe e me enviou o seguinte e-mail, o qual faço questão de reproduzir neste espaço, sobre a cultura e a identidade do nosso alvinegro.


Leia com atenção e desfrute:



Márcio Goiano, mesmo com todo passado memorável no Figueirense, é alvo de criticas injustas por parte da torcida. Parece que alguns alvinegros preferem o futebolzinho que o time praticava sob a tutela de Vinicius Eutropio ou Argel. Parece que prefere um futebol mais ao estilo dos nossos vizinhos gaúchos, aquele futebol sofrido.


Desde aquele time de 2010, o Figueirense não jogava um futebol convincente. Tivemos uma penca de técnicos que pensam, basicamente, da mesma forma: Vinícius Eutrópio, Guto Ferreira, Argel Fucks, Hudson Coutinho, René Simões, Tuca Guimarães e Marquinhos Santos. Para citar só alguns.

As coisas começaram a mudar quando Goiano assumiu, na metade do Catarinense. Com um elenco limitadíssimo, ele começou a romper os 7 anos de futebol terrível e defensivo. O processo é longo, não acontece da noite pro dia. No Catarinense, o alvinegro oscilou, mas eu considero perfeitamente normal pelo nível de qualidade do elenco e pela media de idade da equipe.

Pra mim, o time comandado por Adilson Batista em 2006 ficou na memória. Marquinhos Paraná, Rodrigo Souto e Cícero ditavam o ritmo naquele time que goleou o Palmeiras por 6x1 no Scarpelli.


MeuFigueira
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Cícero e Soares encantaram o Brasil no Figueirense de 2006


Outro grande time foi o que conseguiu o acesso em 2010, montado pelo eterno capitão Márcio Goiano. Ygor, Túlio, Maicon e Fernandes aplicavam um toque de bola implacável. Um garoto Firmino surgia, Reinaldo, sempre bem posicionado, aproveitava a criação. O time jogava um futebol de primeiro nível, dominava adversários dentro e fora de casa, subiu com méritos e marcou demais a minha memória.


Os dois têm algo em comum: futebol corajoso, pressão no adversário, toque de bola e muita movimentação. Nenhum deles tinha um jogador encarregado de apenas destruir jogadas. Ygor e Rodrigo Souto sabiam jogar com a bola no pé. Os times traduziam a essência do Figueirense que eu amo.

A Série B começou e duas atuações sensacionais com um elenco recém-formado. Contra o Náutico, uma aula de futebol e paciência, mas que exigiu muitas correções ao longo do jogo. A ansiedade e vontade de dar bicão apareciam, mas Goiano - aos berros - exigia o toque de bola. Sem um camisa dez, o time estava liderando a Série B em números de passes gerais e percentual de passes corretos. Quando enfrentou dois gramados lastimáveis, sucumbiu aos chutões e largou a troca de passes. Duas derrotas feias, duas falhas monumentais levaram embora a confiança. As derrotas serviram para lembrar que o time ainda precisa de ajustes, ainda aguardava o camisa dez.

Contra o Inter, o Figueirense entrou com mais força física, temendo o gramado pesado por causa das chuvas que castigavam Florianópolis há dias. Nervoso, foram 25 minutos para esquecer. Em desvantagem no placar, passou por dificuldades, mas depois dos 30, tudo mudou. O time assumiu as redeas de partida e foi pra cima. Na arquibancada, a torcida vibrava com cada lançamento perfeito que deixava o Inter em apuros. Numa triangulação fantástica na direita, Henan marcou.

Na volta para o segundo tempo, Goiano abriu de vez o time. O treinador honrou as calças que veste e não se acovardou. Não se contentou com o empate, como a grande maioria dos técnicos que aqui passaram. O caminho mais fácil era empatar e ir pra coletiva dizendo que "O Inter é campeão mundial, tem uma folha salarial 12 vezes maior do que a nossa..." e todo aquele discurso que conhecemos há anos. Optou por se defender agredindo ao adversário. O time criou, criou, a bola cruzou a linha da área, Danilo Fernandes foi buscar uma bola no angulo, Robinho quase fez um gol de placa. Inter, no contra ataque, matou o jogo.

O grande vilão? Para alguns, Goiano. Ouvi de tudo. Ouvi o "faltou um volantão ali", "não precisava ir pra cima", "vai com calma". Não dá pra ter os dois, caro leitor. Ou criava daquela forma, com agressividade e indo pra cima ou ficava no chove não molha, esperando uma chance que poderia não vir.

O treinador de futebol pode fazer muito por um time. Treina, ajeita, posiciona defesa, trabalha as trocas no ataque, encurta espaço na marcação, coloca peças de criação no meio, trabalha sobreposições nas laterais e etc. Mas o técnico não pode entrar em campo pra marcar o zagueiro sozinho na área ou pra empurrar a bola que cruza a linha pra dentro. Também não tem como correr pra salvar a bola que o goleiro deixou passar em jogos anteriores. Faz o que é possível fazer e torce para os jogadores executarem o que foi combinado.

Márcio Goiano foge à regra dos técnicos que passam por aqui. Traduz a filosofia e identidade do Figueirense em campo, como poucos. Esse time promete. Mesmo com jogadores desconhecidos e que nunca atuaram juntos, fizeram três jogos excelentes. Antes de trazer um novo Hélio dos Anjos, tenha paciência. Esse time pode marcar a nossa memória.


A fanática alvinegra Nadya Polli lembrou de 72, 73 e 74. Assim como meu pai, ela tinha boas memorias do volante/líbero Sérgio "Fita Métrica" Lopes, jogador conhecido por seus lançamentos precisos e milimétricos. Moenda, Casagrande, Pinga, Nilson, Tião Marino e outros continuam vivos na memória da alvinegra que aprecia o bom futebol.

Nossos ídolos são jogadores que sempre trataram bem a bola. Calico, o primeiro grande ídolo, era um ponta esquerda com técnica apurada, que tem a impressionante marca de 93 gols em 181 partidas. Fernandes, o craque da camisa 10, dispensa comentários. Organizador clássico da meia, jogador de pura técnica, ficou anos sem - sequer - receber cartão amarelo. Um exemplo dentro e fora dos gramados.


MeuFigueira
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Fernandes era o clássico meia camisa 10


O Figueirense ganhou o apelido de Furacão de Estreito por massacrar os adversários e deixá-los destruídos em campo, similar a esses dois times que lembrei. Não tem esse apelido porque ficava retrancado na defesa, distribuindo cacetada, jogando por uma bola e cruzando bola pra área de todo lugar e jeito quando precisava do resultado.

O nosso grande rival é exatamente o oposto. Os ídolos do "time da raça" são jogadores "polêmicos" como César Silva, Alex Rossi e Marquinhos. Maioria deles ganhou idolatria mais por atitudes fora de bola do que com a técnica e qualidade. Se você prefere um futebol mais ríspido, fechadinho, recheado de "empates heroicos" e justificando que o time adversário é muito mais rico nas coletivas, sugiro que dê uma olhada pro time azulino, quem sabe a filosofia deles combine mais.



Como a estirpe é boa, deixo dois textos para finalizar esse post, ambos do grande Ney Pacheco, em 2011, mostrando o que é a tradição do Figueirense: