Alex, o Aroldo Fedato do século 21

Arquivo pessoal/Juarez Santos
Arquivo pessoal/Juarez Santos

O momento da passagem do bastão de coxa-branca do século (com um intruso)


31 de outubro de 2012. Noite de lançamento do livro Eternos Campeões, dos Helênicos. O livro conta a história de 140 jogadores do Coritiba, começando por Fritz Essenfelder, o Charles Miller paranaense. Alex, cujo retorno ao Coritiba já havia sido anunciado, chegou ao salão do museu Oscar Niemeyer e logo foi abordado por várias pessoas. Deu atenção na medida do possível até avistar Fedato. Começou a pedir licença, dizendo que queria falar com ele. Chegou, abriu o livro e pediu um autógrafo. "Como é seu nome?", perguntou Fedato. "Meu nome é Alex" foram as palavras que se misturaram com o sorriso. Está lá, na página 156 do livro na casa do atual capitão: "Ao Alex, com um abraço do Coxa Fedato".


Esta cena, aos meus olhos, é definitiva. Ali, Fedato passou a Alex o bastão de coxa-branca do século.


E por que Alex é, no século 21, o que Fedato foi no século 20? Porque ambos têm mais do que a carreira ligada ao Coritiba; têm a vida.


Foram reconhecidos fora do Brasil. Em 1948, Fedato aceitou um convite do Botafogo para uma excursão na Bolívia. Foram 3 jogos, sendo duas vitórias e um empate. Fedato voltou de lá com o apelido de Estampilla Rubia, depois de impressionar os locais com o futebol jogado. Tal qual Alex fez na Turquia, por bem mais que 3 jogos.


Capitanearam de fato o Coritiba. A tarja de capitão é obrigatória para um dos 11 atletas em campo. Deveria ser facultativa, já que alguns a usam apenas pelo protocolo, sem de fato serem a principal voz do elenco. Se assim fosse, a braçadeira seria dada da mesma forma a Fedato e Alex, devido à postura que ambos naturalmente adotaram como influências nos seus "quadros" (elencos), respeitando e reverenciando cada um dos companheiros com que jogaram.


Divulgação/Coritiba
Divulgação/Coritiba

Fedato com uma de suas 7 faixas de campeão estadual


Tiveram vida pública notável. O colombense Alex e o pontagrossense Fedato nos foram apresentados com a bola nos pés, mas ganharam nosso respeito sem ela. Alex é equilibrado e coerente em tudo o que diz, e não tem vergonha de admitir quando erra. Alex interage com torcedores e fãs como Fedato interagia, sendo ele um dos maiores personagens da cidade à época. Simpático e bonachão, Fedato era um mestre em sair com elegância de situações embaraçosas. Que o digam, tanto de um quanto do outro, os rivais atleticanos.


São personagens de biografias profissionais. "Fedato, O Estampilla Rubia" é uma obra que nunca tive a oportunidade ler, mas há cerca de um mês recebi das mãos do co-autor: Paulo Krauss. Ele viu no meu rosto (e na minha gagueira) o quanto fiquei emocionado com o livro. Só não sabe que chorei depois que saí da sala dele. O livro está na minha cabeceira, no aguardo do livro que Marcos Eduardo Neves publicará sobre Alex.


Divulgação/Coritiba
Divulgação/Coritiba

Oh capitain, my captain, your glorious trip is done


Têm na Seleção a maior frustração da carreira. Alex não estar no Japão em 2002 é um prejuízo histórico. Fedato não ter jogado a Copa de 50, idem. Capitão da Seleção Paranaense, Fedato era exaltado por todo o sul do país e sua convocação era exigida. Mas a CBD não conhecia Fedato. Aproveitou um amistoso do Coritiba contra o Vasco, no Couto, pra conhecer. E viu o Vasco aplicar 7x2, naquela que Fedato dizia ter sido a pior partida de sua carreira.


E depois da aposentadoria? Alex quer ser treinador. Fedato, quando parou de jogar, já era contador no próprio Coritiba. Depois foi diretor social do clube e empresário. Se Alex é, de certa forma, o espelho de Fedato neste século, fica aí uma pista de que ele pode manter com o clube uma ligação um pouco mais estreita que a de torcedor. Aliás, falando em pistas, essa está lá no livro dele com Paulo Krauss: Fedato fez sua última partida pelo Coritiba em junho de 1957. Setenta dias depois, recebeu um abaixo assinado com 495 assinaturas dizendo que "O Coritiba ainda precisa do concurso do seu grande e querido capitão. Volte! E volte já!". E Fedato voltou, a tempo de levantar mais uma taça. Não podia deixar de mencionar isso, Alex...


Fedato é o camisa 2 e capitão do Coritiba de todos os tempos. Kruger é o 7. A camisa 10 é de Alex, por mais que o próprio insista ser do Tostão. São as 3 camisas que tem dono eterno no clube, e que deveriam ser aposentadas e eternizadas. Justifico: no Coritiba, estas camisas são um conceito. A 2 do instransponível Fedato não é a 2 do lateral que apoia o ataque. Quem usa a 7 hoje em dia dificilmente é visto com a velocidade do Flecha Loira. E a 10 de Alex... bem, no próximo domingo, Alex vai aposentar o conceito de camisa 10. Felizes nós que tivemos tempo de ver e entender o que é um camisa 10.