Antes do Coritiba, o futebol: 'O Brasil é muito grande'

Hoje há algo mais relevante que o jogo em si pra discutir. Sim, o jogo é fundamental, pensar em tudo que aconteceu de errado, xingar o Berola, rir do massagista do Santos que tomou dois pacotes dignos de Faustão. Mas essas coisas acontecem e vão continuar acontecendo. Hoje é dia de falar de algo que acontece e tem que parar de acontecer.


Vagner Mancini, treinador do Vitória, foi muito feliz na entrevista coletiva após a vitória contra o Corinthians. Todos já devem ter visto o vídeo, mas para os que não viram: o jornalista Felipe Garaffa, da Rádio Bandeirantes de São Paulo, questionou a postura do Vitória, baseado em chutes a gol e posse de bola. Mancini notou a parcialidade da pergunta, revisou rapidamente os números e cobrou respeito do jornalista.


Essa é uma cruzada que eu chamo com frequência. É uma pena para o país que o foco sejam os oito times paulistas e cariocas, com algum respeito aos quatro gaúchos e mineiros. Num campeonato tão equilibrado, oito (no mínimo) boas histórias são sumariamente ignoradas, relegadas a pedras no caminho dos grandes times.


Gazeta Press
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Aqui não faço um pedido pra que o jogo do horário nobre na TV seja Ponte Preta x Coritiba. Os jogos com mais apelo envolvem, sim, os 12 principais times. Mas quando houver um Corinthians x Vitória, os baianos não podem ser os 11 vilões. A transmissão do jogo precisa saber quem são aqueles caras. A notícia não pode ser “Corinthians perde para time da ZR”, quando poderia ser “Vitória consegue grande resultado em Itaquera”.


Na cobertura local, que se interessa apenas sobre o time da região, até faz sentido. Mas, se o jornalista local tem algum interesse no adversário, como teve o jornalista que interpelou Mancini, precisa fazê-lo com respeito. Não há justificativa para esse menosprezo ao adversário do grande clube. Justificar a falta de conhecimento de uma cobertura local sobre o adversário chega a ser vergonhoso num tempo em que o tráfego de dados é tão veloz.


Acontece que uma argumentação como essa vinda de um torcedor do Coritiba parece tão parcial quanto a abordagem que eu critico. Mas o que eu queria mesmo era jogar contra Sport, Avaí ou Bahia e ter o mesmo volume de informações que tenho quando enfrento Corinthians, Flamengo ou Palmeiras. É difícil ter que convencer os colegas que o próximo jogo contra o Vitória não é “obrigação ganhar”, porque eles sequer sabem quem vai fardar pelo adversário.


E aproveitando a coincidência de jogar contra o time de Vagner Mancini na próxima rodada, cometo aqui o meu exagero: quem puder aplaudir o treinador ou levar alguma faixa de incentivo, o faça. A gente quer, sim, o Coritiba acima de tudo, mas ele só existe e desperta esses sentimentos porque outros clubes existem. É fundamental reconhecer aqueles que querem a boa saúde do nosso esporte no país que, como disse Mancini, é muito grande.