Coritiba: Uma goleada a favor e outra contra no mesmo dia

Geraldo Bubniak/Gazeta Press
Geraldo Bubniak/Gazeta Press

Deixe em paz meu coração / Que ele é um pote até aqui de mágoa / E qualquer desatenção, faça não / Pode ser a gota d'água


Nesta quinta-feira, 17 de julho de 2017, o Coritiba jogou uma vez. Contra o Avaí na Ressacada. Mas teve goleada dentro e fora de campo. No estádio, o Coxa voltou a vencer depois de um longo jejum. Venceu por 4x1. Sobrou. Fora das quatro linhas, uma goleada histórica.


Seu principal atleta, Kleber, foi a julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Saiu de lá com uma pena de 15 jogos de suspensão. A mesma antes do recurso impetrado pelo clube. Algumas considerações.


A primeira delas diz respeito ao próprio nome do local onde Kleber, bem como todos os atletas profissionais, são julgados em última instância. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Notem, entretanto, que este não passa de um nome fantasia. Algo como a “Coca-Cola Light” que tampouco é coca-cola, muito menos light.


Justiça é um nome para dar certa credibilidade e uma certa noção, ao público, do que se pretendia com esse espaço. O local não passa de um conjunto de auditores com formação jurídica. Também está longe do conceito concreto de tribunal, onde há magistrados concursados e uma estrutura efetivamente legal, com leis e não regimentos. Trata-se de uma entidade privadas com cargos de indicações, ou seja, uma entidade privada, e amigos, é impossível que qualquer coisa que pretenda ser Justiça tenha dono.


Dito isso, vamos ao caso do Coritiba especificamente. O clube, antes do início do julgamento, propôs um acordo pecuniário ao conjunto de auditores. A proposta era o pagamento de uma multa de R$ 200 mil mais três partidas de suspensão. Kleber, até então, cumpriu outros três.


O conjunto dos auditores, por sua vez, propôs uma negociação. Um acréscimo de R$ 30 mil no valor e um jogo mais do que foi apresentado ao Coritiba. Aprendi que você nunca compra nada pelo preço oferecido. Sempre é preciso negociar. O mesmo devem ter pensado os auditores, mas não o advogado do Coritiba.


O resultado foi que o jogador foi punido com 15 jogos e acabou ficando com mais que o dobro de jogos do que esteve na mão do clube e do seu setor jurídico. Qualquer, vejam bem, qualquer explicação que possa ser dada neste caso não será o suficiente. O Coritiba, nesta quinta-feira, mostrou ao Brasil o que não se deve ser feito. Um case perfeito para estudantes do tema. Um sofrimento sem fim para a torcida e, certamente, para o próprio atacante.


Após esse texto estar redigido, o clube soltou uma nota oficial – que você pode ler logo abaixo – na qual tenta explicar o inexplicável. Nega que tenha rejeitado o acordo, muito embora, nos itens cinco e seis não seja exatamente isso que esteja escrito. Mais uma goleada sofrida pelo departamento jurídico, que aliás, é alvo de críticas da torcida faz muitos anos. Rapaz, que coisa triste.



Confira a nota do clube:


Coritiba Foot Ball Club esclarece fatos pertinentes ao julgamento do atacante Kleber



Acerca do julgamento ocorrido hoje no STJD em que o atleta Kleber teve a sua punição mantida em 15 jogos, o Coritiba Foot Ball Club vem a público esclarecer:


1. Em nenhum momento o Coritiba Foot Ball Club recusou a proposta de transação disciplinar desportiva;


2. O Coritiba desde sempre buscou a transação disciplinar neste processo, tanto que no dia anterior ao julgamento, protocolou pedido de Transação Disciplinar Desportiva propondo a seguinte punição: 03 (três) jogos (estes já cumpridos em virtude da suspensão preventiva) e o restante da punição (12 jogos) que fossem convertidos no valor de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) como medida de interesse social;


3. O valor de R$ 200.000,00, representaria a maior transação da história da Justiça Desportiva, que certamente beneficiaria uma série de projetos sociais;
4. Iniciado o julgamento, como já havia nos autos o pedido do Coritiba para a realização de Transação Disciplinar Desportiva, a Procuradoria aceitou realizar a transação, porém, ofertou proposta diversa, propondo a suspensão em 07 (sete) jogos e o pagamento do valor de R$ 230.000,00;


5. O Coritiba, por sua vez, buscando sempre que a punição em partidas pudesse ser a menor possível, valeu-se de critério objetivo adotado pelo próprio STJD na punição do atleta do Bahia, que havia cometido a mesma infração praticada pelo atleta Kléber (6 jogos pela cusparada), e propôs, então, estes mesmos 6 (seis) jogos de suspensão, mantendo-se o valor de R$ 200.000,00 anteriormente proposto.


6. Como a Procuradoria manteve-se irredutível e o processo seguiu para julgamento, a Auditora Arlete Mesquita, sensibilizada com a gravidade da punição, sugeriu que a sessão fosse suspensa para que o advogado do Coritiba pudesse consultar sua diretoria sobre a possibilidade de aceitar a proposta da Procuradoria;


7. Retomado o julgamento, o Coritiba declarou expressamente que concordava com a proposta da Procuradoria. Porém, surpreendentemente, o Procurador declarou que estaria retirando a proposta anteriormente ofertada, sob o argumento de que naquele momento processual não era mais possível a realização da transação, contrariando, assim, o artigo 80-A, §7º do CBJD que prevê que a transação pode ocorrer em qualquer fase processual:


§ 7º A transação disciplinar desportiva a que se refere este artigo poderá ser firmada entre Procuradoria e infrator antes ou após o oferecimento de denúncia, em qualquer fase processual, devendo sempre ser submetida à apreciação de relator sorteado, membro do Tribunal Pleno do TJD ou STJD competente para julgar a infração, suspendendo-se condicionalmente o processo até o efetivo cumprimento da transação


8. Então, o processo seguiu para julgamento, tendo sido mantida a punição de 15 jogos.


9. O Coritiba, por discordar da maneira como foi tolhido o seu direito à transação disciplinar desportiva, afirma que se valerá de todos os meios cabíveis para reverter esta desproporcional punição.


Coritiba Foot Ball Club