Perfil dos personagens do AtleTiba que não aconteceu

Jason Silva/Agif/Gazeta Press
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O AtleTiba que não aconteceu. Este é fato que todos conhecem. Os personagens principais são dois. Um bem conhecido: a Rede Globo de televisão. Já o segundo, nem tanto. O presidente da Federal Paranaense de Futebol (FPF), Hélio Cury, tratado pelos clubes e torcedores como preposto da vênus platinada no caso. Mas quem diabos é Hélio Cury?


Uma pesquisa rápida na internet já nos traz algumas respostas. Casado, pai de dois filhos, apresenta-se como empresário que “começou sua carreira atuando no mercado como gerente de vários grupos financeiros. Iniciou no esporte paranaense há mais de 45 anos como atleta, passando por vários clubes”. Este é o início do perfil oficial do dirigente na página da Federação Paranaense de Futebol.


Atualmente com 67 anos, o perfil oficial não explica, por exemplo, como conciliou a carreira de atleta e dirigente com a de empresário, sobretudo no mercado financeiro, já que teria iniciado no esporte com 22 anos, idade um tanto quanto avançada para quem inicia a carreira esportiva.


De suas atividades empresariais, uma rápida busca pelo seu nome, mostra que Hélio Cury aparece como sócio em três empresas. A primeira delas, a própria Federação Paranaense de Futebol (FPF). A segunda é o “União Capão Razo FC”, cujo endereço é o estádio da equipe amadora de Curitiba que leva o seu nome. A terceira é a “Helio Cury Artigos Esportivos”, situada na Rua Barão do Rio Branco, no centro de Curitiba, em sociedade com sua esposa. Uma loja um tanto quanto humilde para os padrões de um empresário do sistema financeiro.


Google Street View
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Loja de artigos esportivos que tem o presidente da Federação Paranaense como sócio


Essa mesma loja, por exemplo, foi fornecedora de artigos esportivos para a Prefeitura de Araucária, em um pregão realizado em outubro de 2016, no valor de R$ 17 mil. Um valor considerável, levando em conta que a loja aparentemente vende apenas troféus. Aliás, aqui cabe outra pergunta: quem é a responsável pelas vendas de materiais para premiação dos 17 torneios oficialmente promovidos pela Federação?


Hélio Cury, aparentemente, também gosta da vida pública. “Foi assessor do prefeito Maurício Fruet e membro da Comissão de Esportes da Câmara Municipal de Curitiba de 1983, 1984 e 1985. Foi diretor de Esportes da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer de Curitiba de 2005 a 2007”, diz o seu perfil oficial no site da Federação Paranaense de Futebol.


Em 2012, concorrendo pelo PDT na chapa encabeçada pelo então candidato à prefeitura, Gustavo Fruet, tentou uma vaga na Câmara Municipal de Vereadores. Sua aposta estava nas ligações com a chamada “suburbana”, o campeonato amador de clubes de Curitiba. As ramificações dos 12 clubes que disputam o torneio eram uma das principais apostas de Cury, mas não deu certo. 


O dirigente conquistou 2.329 votos, não sendo o suficiente para angariar uma cadeira no legislativo municipal. A prestação de contas de sua campanha mostrou que gastou pouco mais de R$ 164 mil, ou seja, R$ 70 por voto de cada eleitor.


Na prestação de contas declarada oficialmente, a maior parte das doações veio de pessoas físicas. Curioso também notar que deste total, 74% das doações, ou seja, R$ 121 mil, vieram de recursos próprios ou de familiares. Haja boa intenção para entrar na política, não é mesmo?


Há ainda outras polêmicas envolvendo o atual presidente da FPF, como a contestação judicial de sua última eleição para a entidade. Fato é que ninguém mais aguenta a Federação. Nem os principais clubes, muito menos sua torcida. Talvez apenas a Rede Globo.


A Rede Globo de televisão é o outro personagem, um tanto mais conhecido. Em seus telejornais, nenhuma notícia completa sobre o acontecido. Na edição da GloboNews de domingo (19) à noite informaram a morte de um torcedor do Coritiba, que teria ocorrido por um “tiro acidental” de um Policial Militar já afastado, segundo informaram.


O telespectador, entretanto, ficou sem saber o que aconteceu com o jogo. Teve? Não teve? Placar? Nenhuma outra informação. Relatos nas redes sociais dão conta que o mesmo sucedeu em vários outros telejornais da emissora.


Estranho? Nenhum pouco. Não é algo incomum. Em 1984, um histórico comício aconteceu em São Paulo. Cálculos da época apontam para mais de 300 mil pessoas na Praça da Sé, na capital paulista. Impossível não noticiar tamanha mobilização, correto? Mais ou menos. A Vênus Platinada, entretanto, levou ao ar a sua versão em seu famoso “Jornal Nacional”. Tratava-se apenas da comemoração do aniversário da cidade de São Paulo.


Não é apenas um esporte - Talvez sem saber, a dupla AtleTiba reforçou uma antiga luta: a da democratização dos meios de comunicação. Dar pluralidade de informações e opções aos leitores, ouvintes e telespectadores é a principal delas, assim como evitar o monopólio da comunicação.


Na Argentina, por exemplo, a transmissão do campeonato nacional era liberada desde 2009, até que o presidente Macri resolveu acabar com a medida este ano. Nos vizinhos quem era contrário a esta política pública? O grupo Clarín, uma espécie de Rede Globo dos Hermanos, que teve seu contrato com a AFA rompido de forma unilateral pelo fato da proposta governamental ser mais vantajosa.


A história é cíclica e muitas vezes se repete como farsa.