Atletiba: Lei Pelé e Regulamento estão contra a FPF

O Atletiba 370 vinha se configurando pra ser histórico. A controversa decisão dos dois times em não negociarem seus direitos de transmissão com a TV os levou até uma negociação ousada no Brasil: a transmissão do jogo via internet. Mas o que era pra ser uma revolução no futebol do país, virou só mais do mesmo quando a luta contra a Federação Estadual se sobrepôs ao espetáculo.


O motivo oficial da não realização do jogo só vai ser esclarecido quando a súmula estiver disponível. Até agora, ouvi dois motivos alegados pela FPF. Vamos a eles.


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Sem resistência, não há conquista


O primeiro é que a partida não teria início enquanto houvesse transmissão pela internet. Até o momento, essa é a versão mais crível, porque foi a mais debatida durante o impasse, e também por pautar a nota oficial divulgada pelo Coxa há pouco.


Nesse caso, a FPF não tem qualquer razão: o artigo 42 da Lei Pelé determina que os clubes são os detentores do direito de arena, o que os permite negociar como bem entender. Como os dois clubes negociaram os direitos da partida exclusivamente com patrocinadores pontuais, não há qualquer possibilidade de intervenção da Federação.


A segunda versão fala sobre credenciamentos. Nesta, diz que os repórteres de campo não tinham a liberação necessária para trabalharem. O presidente do Atlético-PR sugeriu, ainda em campo e durante a transmissão, que estes profissionais fossem deslocados.


Como não houve o jogo, suponho que a proposta não foi acatada, sem razão aparente. E nem isso se justifica: nas deliberações do jogo, item 12, lê-se que "As credenciais ou documentos expedidos por quaisquer outras entidades não autorizarão o livre ingresso do seu portador no estádio, exceto quando se tratar de pessoal (...) a serviço dos clubes (...) ". E mais: o regulamento do campeonato sequer cita a palavra "credenciamento". Mais uma vez, a FPF não tem razão.


A Federação Paranaense de Futebol impediu a disputa do Atletiba. Independe de suposições e argumentos, foi isso que aconteceu. Em todo o estado, o clássico é o que mais move público, que mais desperta atenção. E a Federação trabalhou para que ele não acontecesse, mesmo sabendo há bastante tempo que a partida seria transmitida dessa forma.


Quero que o leitor, mesmo que more em outro estado, me ajude a lembrar uma ação relevante da sua federação estadual que tenha de fato colaborado com os clubes profissionais. Tudo o que circunda esse pessoal é pautado em disputas por poder. Cada vez menos “federam” seus filiados.


Não há justificativa clara para o posicionamento da entidade. Aí nos sobram as justificativas obscuras: luta por poder e respaldo da emissora que esperava transmitir as partidas. A Federação Paranaense de Futebol, como várias outras no país, não é confiável.


A postura dos clubes frente a isso é louvável. Não houve submissão. Não há mais espaço para o tratamento que Coritiba e Atlético-PR recebem. Pra quem não sabe, o motivo para os clubes não terem assinado com a Globo é a verba oferecida: 1,5 milhão de reais, 9 vezes a menos que os quatro grandes paulistas, e menos que os 2.2 milhões que Macaé e Resende receberam pelo Carioca. Some-se a isso que, mesmo sem a realização do jogo, o canal do Coxa no YouTube teve 4 vezes mais audiência que a TV costuma ter.


Se a Rede Globo e a Federação Paranaense de Futebol não têm interesse nos nossos clubes, nós também não precisamos ter interesse neles. Que Coritiba e Atlético-PR se mantenham resistentes. Nenhuma conquista acontece sem luta. O Atletiba 370 não começou, mas ainda não acabou.


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Se essa briga já é desgastante o suficiente, algo ainda pior aconteceu hoje. Nos arredores do Couto, um policial militar disparou "acidentalmente" a arma e matou um torcedor do Coritiba. É mais uma situação que eu anseio por discussões e esclarecimentos. Mas não me surpreende que fiquemos reféns da versão do "acidente". Que o jovem coxa-branca descanse em paz e Deus conforte sua família.