Retratos de família: lembranças de um Coritiba imenso

Cori Gigante
Cori Gigante

Ainda volto a lhe escrever / Pra lhe dizer que isso é pecado / Eu trago o peito tão marcado / De lembranças do passado e você sabe a razão / Vou colecionar mais um soneto / Outro retrato em branco e preto


Tenho na estante de minha sala um retrato. Está ali, no meio dos livros, como quem não quer nada. Na foto, em preto e branco, estou eu. Ao meu lado uma pessoinha em meus braços. Já faz alguns bons anos que não nos vemos pessoalmente. Coisas da vida.


Meu pai, em seu apartamento em um bairro vizinho ao meu, em Curitiba, mantém uma foto colorida, daquelas bem antigas, de um time do Coxa do início da década de 70. Meu pai não aparece na foto; lá estão, por exemplo, Pescuma, Hidalgo, Nilo e Tião Abatiá. Mas mesmo assim aquela foto é também do meu pai, pelo que representa para ele.


Esses dias questionei-me o que ainda fazia aquele retrato em minha sala. Assim como já havia me perguntado o porquê do meu pai manter uma foto tão antiga do Coxa em destaque. Acho que encontrei na minha sala a resposta à pergunta relacionada ao meu pai.


Tanto o retrato quanto a foto do Coritiba podem tentar dissimular sua presença, como se estivessem por ali sem grandes pretensões, mas no fundo exercem um papel fundamental. Ambos nos prendem a certas raízes e lembranças. São mecanismos de exercício da memória, da permanência de coisas que fugiram de nós aos poucos.


A pessoinha daquele retrato não existe mais. Após tanto tempo, certamente não é mais exatamente a mesma. Assim como eu, tampouco, hoje sou a representação fiel daquele jovem Gibran. Da mesma forma o Coritiba não é hoje o que foi na década de 70.


O retrato na sala, de certa forma, mantém vivo em mim o sentimento por aquela pessoinha, assim como a esperança de que sua essência ainda seja a mesma. A fotografia colorida daquele time do Coxa mantém viva em meu pai a sua lembrança de um Coritiba imenso e corajoso. Um clube que jamais ia se contentar com os resultados dos últimos anos. Assim como eu em tempo algum imaginaria ser possível ficar tanto tempo longe daquela mocinha.


Mais do que retratos de uma época, as imagens que guardamos são uma tentativa humana de preservar o que se quer bem. Seja uma pessoinha, seja o clube do coração. Lembranças, mesmo que distantes, para projetar o que desejamos de volta para nós mesmos.