O Couto do Alceni e o Couto do torcedor do Coxa

Divulgação/Coritiba
Divulgação/Coritiba


Na metade do ano, Alceni Guerra apresentou ao Conselho Deliberativo do Coritiba sua proposta para um novo estádio. De lá, podem ser destacados 3 pontos: os projetos se restringiram a desenhos, não a estudos detalhados; a proposta era mais financeira (viabilizar um Fundo de Investimento) do que o estádio de fato (que foi tratado de forma genérica e superficial); e o teto retrátil é mandatório.


O vice-presidente chegou "aberto a discussão", mas nenhum destes pontos parece ter sido discutido. Ontem, a Gazeta do Povo informou que o Coxa tem, desde novembro, um pedido na prefeitura pra pôr o Couto abaixo.


Quando a Chapecoense escolheu o Couto como casa para a final, escrevi (aqui) sobre a história do estádio. Àquilo, há algo a acrescentar: o Couto de hoje é um reflexo do Coritiba de hoje. Há o setor tradicional (Sociais), o popular (Arquibancada), o moderno (Pro Tork) e o vazio (Mauá). O Coritiba hoje, com seus defeitos e virtudes, é sustentado pela tradição, pelo povo e pelos novos tempos, além de carregar espaços incertos.


O estádio do Alceni será só o estádio do Alceni.


Primeiro que ninguém cobra teto retrátil no clube, exceto o próprio. Depois, estádio atenderá exclusivamente esta modernidade que ninguém sabe ao certo o que é, visto que todas as arenas do Brasil apresentam algum problema. Alceni fala em sediar eventos, mas que eventos? A cidade já não recebe muita coisa, e o novo complexo ainda enfrentaria a concorrência da Baixada, do ExpoTrade e da Pedreira, no mínimo, pra sediar esses misteriosos eventos.


Há que se ressaltar um ponto positivo: o modelo de negócio proposto (que também não é detalhado como será feito, mas aponta como NÃO será feito) é interessante. Muito se diz que nós "perdemos o bonde da história". E que bom que perdemos, porque quem pegou o tal bonde herdou um legado bem esquisito, desde estrutura até abandono, mas passando principalmente por malabarismos financeiros. Neste ponto, temos a vantagem de ver tudo o que deu errado e fazer diferente.


Por outro lado, o diferente pode ser justamente manter o que tem. Pela TV, ver um jogo na Baixada, na Fonte Nova, na Arena do Grêmio ou no Maracanã não é muito diferente. Consequência óbvia do padrão imposto. O que é diferente hoje é o Morumbi, o Moisés Lucarelli, o Couto Pereira. No raciocínio de Alceni, esse "diferente" significa "pior". Mas na cabeça de quem é criativo, o diferente é sempre fonte de recursos.


Mas olha, acho que de tudo isso o que me incomoda de verdade é a necessidade do teto retrátil. Óbvio que ele cita o Atlético como exemplo. Cara, a gente não é o Atlético. Também não é o Palmeiras, nem o Inter, nem o Náutico. Pra que tanto esforço em fazer algo que os outros fizeram? Seguir o plano que eles montaram? Isso é tentar empatar um jogo que se crê estar perdendo, e escolhendo jogar na casa do adversário. Ninguém nunca será melhor que um adversário se segue os mesmos passos dele.


Se essa for mesmo a linha que Alceni seguirá (dedicar seus esforços às ideias que concebeu, sem discussão pública), levanto mais uma crítica: por que o Couto, e não o Pinheirão? Já que nada será respeitado como eu imagino, que vá logo atrás de uma praça maior e construa seu novo brinquedo com mais espaço pro público, num local já destinado à prática esportiva. Aí eu perceberia uma coerência, por ser justamente o contrário de absolutamente tudo o que eu penso.