Em um mundo corroído pela má fé, Rodrigo Caio paga o preço por não ser desleal

Dizem que somos o país de maravilhas naturais, de hospitalidade diferente e de alegria transbordante. Mas a qualidade do brasileiro se mistura com a desonra e a má fé, quando o assunto é ganhar ou perder.


Mesmo que no par ou ímpar, no cara e coroa, existe um jeito de ludibriar enganar o adversário. Não que não existe em outros lugares, mas aqui parece ser cultural. E não é complexo de vira-latas, não. Eu amo o Brasil, amo o estado que vivo, amo o Corinthians. Mas é a verdade.


Rodrigo Caio teve uma atitude honesta no jogo contra o Corinthians, ontem, ao 'retirar' o cartão amarelo dado injustamente a Jô. O árbitro pensou que o atacante havia pisado no goleiro tricolor, mas o zagueiro são-paulino alertou o árbitro e disse que ele havia pisado na perna do goleiro. O cartão foi anulado e o jogo seguiu.

O caso nem merecia a repercussão que teve. Foi simplesmente o que todos deveriam fazer quando se trata de um jogo, de esporte, de respeito e profissionalismo. O problema (e isso é um problema) é que isso é considerado anormal porque sabemos o retrato da sociedade em que vivemos.

Num âmbito individual, durante o dia a dia, quantas pessoas não devolvem o dinheiro que caiu no chão e o dono não viu? Quantos trabalhadores não doam alguns centavos que faltam pro amigo da frente pagar a conta? Quanta gente não ajuda moradores de rua, asilos, deficientes físicos, visuais, auditivos, que pedem e só dependem da boa vontade alheia? Aposto que você já praticou alguma boa ação dessas e se orgulhou disso.


Nós somos bons também. E um gesto honesto e digno de um ser humano correto, independente do clube que defende, da camisa que veste, da decisão que disputa, não pode ser condenado porque um dos dois vai passar para a decisão do estadual.


Levi Bianco / Getty Images
Levi Bianco / Getty Images

Rodrigo Caio foi honesto e, por incrível que pareça, isso foi visto de forma negativa


Rodrigo foi decente. Provavelmente tenha aprendido a ser assim na infância, em Dracena, uma das regiões mais pobres do estado de SP. Sei porque cresci lá, ao lado da cidade, e sei porque conheço amigos dele que elogiam sua simplicidade.


O espírito competitivo de Maicon, seu companheiro de zaga, é compreensível. Afinal, deve estar inconformado com a derrota e o cartão amarelo tiraria Jô da segunda partida da decisão. "Prefiro ver a mãe dele chorar do que a minha". Um cartão amarelo. Um lance confuso. É estranho como os valores se invertem, o poste mija no cachorro, a banana come o macaco. Entre a razão e a moral com a torcida, o zagueiro optou pela segunda opção.


Rodrigo Caio paga o preço por não ser desleal. Porque no Brasil é tudo assim. Ser esperto e enganar o outro é prêmio de vivência, é a vitória do bicho que vive na selva. Não somos irracionais. Precisamos ser mais unidos como seres humanos. Rodrigo Caio só mostrou, num pequeno gesto com grande holofote, que isso ainda é possível.



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